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UM DIA... UM TEMPO
Quem disse que eu mudei?
Não importa que a tenham demolido:
a gente continua morando na velha casa em que nasceu.
(Mário Quintana)
Faz pouco que voltei lá. Contudo, não mais encontrei o que procurava.
Quanta melancolia! Da velha casa nenhum vestígio. Nem ruínas. Nem fantasmas. Apenas um terreno vazio, abandonado, precariamente protegido por uma cerca de arame e algumas tábuas. Tudo deserto. Sem cuidados. Alguns monturos com restos de sucatas que nem de lixo podem ser chamadas. Só.
Fazia tanto tempo!... Mais de sessenta anos!
O que foi feito da “minha” casa? Da antiga construção mista de madeira e alvenaria, que tinha sacadas, sótão, porão, - o que sobrou? A água vinha de um “algibe”, como se denominava o reservatório que ficava próximo à parede que dava para a cozinha. Na porta interna da sala grande, de jantar, que dava acesso aos demais cômodos, um antigo “reposteiro” (1), herança de família desde tempos imemoriais.
Onde foram parar as duas palmeiras altas que adornavam a escadaria da entrada? E a paineira, que na época da floração cobria-se de cor-de-rosa para algum tempo depois tornar-se toda branca quando as bolotas de algodão se abriam? E o pomar onde abundavam peras, maçãs, caquis, laranjas, bergamotas? E o “meu” arroio que corria, límpido e reluzente, lá no fundo do quintal, cortando as demais propriedades vizinhas? Onde esconderam, de mim, tudo isto?
Perguntas. Muitas. Sem respostas.
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Dona Maria do Mato morava numa construção tosca, no morro, lá no alto, junto à pedreira. Eu nunca soube como é que se ia até lá nem como ela fazia para nos visitar. Seria uma bruxa? Ou uma fada, disfarçada de anciã simpática? Pelo que sei, fazia de tudo: de parteira a lavadeira. Todos a conheciam, mas não sabiam de onde viera.
“Seu” Carlinhos, o dono do armazém ao lado, onde eu comprava guloseimas como as balas “Brocoió”(2), anotava tudo num caderno seboso que o pai pagava religiosamente no sábado, quando voltava do trabalho "no Schapke" (3).
Junto à cerca que delimitava o quintal comprido, havia uma figueira. Majestosa. Logo que nos mudamos para lá eu tinha medo dela, pois se enroscara num butiazeiro e os adultos diziam que ela era assassina. Um dia venci o medo. Aos poucos fui me aproximando. Com algum receio, a princípio. Depois, subi nela. Trêmulo. Cheio de cuidados e expectativas. Penso que simpatizou comigo pois me aceitou e desde então nos tornamos amigos.
E havia pitangas. E amoras e guabirobas para colher e comer à vontade.
Na frente, do outro lado da rua, um terreno baldio. Sem muros ou cercas. Mas era limpo. A gente chamava de “mato”, embora fosse amplo, aberto, com muitos arbustos e grama baixa, onde se podia brincar. Nas noites de verão infestava-se do pisca-piscar de vagalumes que eu prendia em garrafas só para fazer de “lanterna”.
Havia o voejar das borboletas e libélulas. Cantos de cigarras e de passarinhos. E relva orvalhada pelo sereno e cheiro de terra molhada quando chovia.
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Um dia o padre da Paróquia de Nossa Senhora da Saúde (4), ganhou uma cabrita, presente de um paroquiano. Como guardar o “mimo” na sacristia? Num domingo, depois da missa, conversava com meu pai. Eram amigos há bastante tempo. “Preciso que me faças um favor, Romeu. A tua casa é grande e tem um bom pátio. Será que poderias ficar com a cabrita, por uns tempos, até que eu a leve para a chácara?”
Lá pelas tantas, o “seu” Romeu chega em casa com a cabrita a cabresto. “Como é mansinha!” – exclamou minha irmã, então com uns cinco ou seis anos. “Posso brincar com ela!?”...
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No sótão guardavam-se velharias. Muitos livros e jornais antigos onde eu aprendi a gostar de ler. Na maior parte tempo era o meu refúgio - um templo sem oração mas impregnado de magia. O porão, por sua vez, era alto, espaçoso, sempre limpo e bem cuidado mesmo sendo depósito de quinquilharias com as quais brincávamos quando chovia.
No quintal erguia-se um forno de lenha. Nele a mãe e as avós faziam pão que se comia com goiabada, manteiga, queijo feito em casa e café passado em coador de pano no bule de louça águeda.
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Dias depois a cabrita já era membro da família. Andava por toda a casa sem qualquer constrangimento. No pomar empanturrava-se com todas as frutas que encontrava. Suas preferidas, porém, eram as peras, que comia até ficar triste.
Uma tarde, a mãe e a vó preparavam um monte de peras para fazer doce. Era fim de semana, ou feriado, pois o pai estava em casa e observava o trabalho que elas executavam compenetradas. Minha irmã, ao seu lado, também. Nisto, olharam-se. Olharam para as peras e depois para a cabrita, que rondava com olhar cobiçoso. Como por telepatia, seus pensamentos se cruzaram. Minutos depois a cabrita deliciava-se com uma bandeja de peras... açucaradas! Lambia os beiços enquanto trocava com os dois, olhares da mais comovida gratidão. Uma cena emocionante!
Desnecessário é dizer que a partir daquele dia a nossa cabrita passou a rejeitar definitivamente as peras in natura. Só comia se fossem com açúcar.
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Hoje a casa, as palmeiras, a paineira e a escadaria não passam de imagens etéreas retidas em algum recanto da alma.
Não há mais mato, nem pitangas, nem amoras. A figueira e o butiazeiro, assim como as libélulas e os vagalumes, são apenas sonhos que, efêmeros, se dissipam, a cada lembrança, como névoa ao amanhecer de novo tempo. Passarinhos e cigarras já não cantam nem o orvalho enverniza de brilho a relva macia de antigamente, que virou sarça.
Cada reminiscência é uma sucessão de retratos esmaecidos e deteriorados, resgatados de velhas e bolorentas caixas de sapatos remanescentes na memória.
Tudo foi reduzido a um sítio melancólico impregnado de miasmas indeléveis; transformado em sombrio monumento a uma história bonita que o tempo, em sua trajetória implacável, se encarregou de interromper e que os homens foram incapazes de dar continuidade.
Ao chegar lá deparei-me com uma nova realidade. Descobri que, além do pai, da avó, do padre e sua cabrita, também não existem mais nem dona Maria do Mato nem o seu Carlinhos. Deles todos resta, apenas – e tão somente – uma imensa, uma indefinível e dolorida saudade.
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Por que estou contando isto? O que me levou a fazê-lo?
Tomei tal decisão depois que conheci uma pessoa especial. Aliás, não só uma pessoa, mas uma família. Pessoas belíssimas. Gente que também tem histórias para contar. Que guarda, num coração imenso, um carinho inexcedível pelos antepassados e pelos amigos. E que como eu tenta preservar a instituição mais agredida, dentre todas, neste nosso mundo “avançado” e “moderno”: a Família.
O que precipitou este encontro foi o fato deles morarem, há muitos e muitos anos, ali, bem pertinho de onde eu morei, no bairro Nonoai, que no “meu” tempo era, também, Teresópolis.
Sem o saberem, proporcionaram-me a oportunidade de viver uma autêntica terapia de regressão ao passado, que me fez um bem incalculável.
Nosso conhecimento foi possível graças à internet, através de meus blogues, depois de correspondência que recebi.
Foi com o Seu Nuno e sua maravilhosa prole que a saudade mexeu fundo comigo. Receberam-me em sua casa com uma fidalguia inigualável. Deles ouvi relatos fabulosos. Aprendi coisas que nem nas bibliotecas, arquivos públicos ou sites de pesquisa eu conseguia encontrar.
Juntos remexemos os baús de nossas recordações e reavivamos episódios e paisagens que ainda permaneciam, embora amarelecidos, nos arquivos de nossas memórias. E daí a voltar à casa da infância longínqua, em busca de alguma raiz que lá tivesse ficado, foi questão de poucos dias.
E é a eles que eu dedico este “Meu Tema Preferido” de hoje, repleto de emoção e sentimento. Pelo que deles recebi, jamais, certamente, poderei pagar.
De tudo, fica em mim uma certeza: a de que eu não estou só na minha crença de que preservar a nossa história e render gratidão e respeito aos antepassados é mais do que dever – é questão de sobrevivência.
Muito obrigado, seu Nuno. Muito obrigado, Márcia e José. Que bom – que bom, mesmo – que vocês existem!
Vando
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(1) Reposteiro – era o nome que se dava às cortinas pesadas, muito comuns nas casas antigas.
(2) Brocoió – Nome, ou marca, de umas balas bastante saborosas, apesar de um pouco duras (alguns chamavam, se lembro bem, de “quebra-queixo”) que traziam no invólucro figuras de um caipira (o “Brocoió”), que colecionadas formavam uma história, narrando as aventuras do personagem.
(3) "no" Schapke –Trata-se da Livraria Schapke. Era lá que meu pai, o “seu” Romeu, trabalhou como encadernador, até se aposentar. Quando se falava sobre a empresa, dizia-se "no". Ficava na Av. Cristóvão Colombo 1907, local onde hoje está em construção o "Floresta Shopping Center".
(4) Estou quase certo de que o padre da Igreja N. S. da Saúde, que menciono, é o Padre Afonso. Não lembro todo o nome, mas creio que era Afonso Witt, ou algo assim. De início ocorreu-me que seria o "Padre Pedro" (depois, Monsenhor André Pedro Frank), mas este, logo constatei, esteve na Paróquia bastante tempo antes dessa época. Gostaria que alguém que o(s) conheceu e pudesse dar-me maiores subsídios, entrasse em contato. Ficarei muito grato.
Epígrafe: Quem disse que eu mudei? – Mário Quintana, em “Preparativos de Viagem”, página 15, Editora Globo, RJ, 1989, 2ª Edição
Ilustração: Quadro “Escada de Casa Antiga” – Pintura em acrílico de “Selvagem”
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