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日志


Dia de jogar conversa fora


SOBRE LEITURAS E DESENCANTOS

 

- Foto minha -

       Alfácia do Sul. Faz algum tempo que tenho vontade de ir lá. No folheto da agência de viagens há um resumo histórico-geográfico-político-religioso-econômico-étnico-turístico-cultural bem interessante. Tudo bem resumido, como é de se esperar. Tem lindas paisagens. Seu povo é alegre, hospitaleiro e profundamente religioso. O país, uma ex-colônia, situa-se a sudeste da antiga Neurásia Ocidental e é um dos maiores exportadores de rapaduras e bananas-caturras do mundo. Mas sua economia é baseada na produção de alface – dizem que deliciosa! - de onde, segundo a lenda contada à exaustão pelos anciãos locais e recitada pela maior parte da população, se originou seu nome. Como, entre outras coisas, adoro alfaces, deixei-o listado como opção para uma próxima viagem. 

       Bem, mas não era este o tema que eu queria desenvolver. Pelo menos, acho que não. Ou não tanto, exatamente. O que eu queria dizer é novidade para vocês: sou um leitor compulsivo. Ah! Eu já disse isto antes? Puxa, que falta de memória! Tá na hora de apelar para aquele remédio... como é mesmo o nome?!... Esqueçam! Não nos amofinemos. Afinal, não custa repetir. Isto até ajuda a alinhavar as idéias e a não perder o fio da meada.

       Então, como eu ia dizendo, ou seja, repetindo: sou um leitor compulsivo. Obsessivo. Voraz. Leio tudo o que se apresenta diante dos meus olhos. Desde criança, quando saturava a paciência (hoje o jeito de dizer isto é diferente) das pessoas, lendo em voz alta os "reclames" que havia nos bondes. Como esta sextilha, da qual nunca mais esqueci, apesar da falta de memória que vez por outra ensaia uma inserção invasiva: "Veja, ilustre passageiro / o belo tipo, faceiro / que o senhor tem a seu lado. /E, no entanto, acredite: / Quase morreu de bronquite. / Salvou-o o Rhum Creosotado". Alguém mais lembra?

       Ler faz parte da minha rotina. Da minha vida. É obrigatório. É tão importante quanto respirar, torcer pelo Grêmio, ou enforcar o banho quando o termômetro se aproxima dos 2 graus Celsius.  

       Ultimamente não tenho comprado livros. Vez por outra leio as "orelhas" de algum quando chego nas livrarias. Ficaram muito caros e as economias domésticas andam em baixa. Creio que sou o único indivíduo que está (momentaneamente, pelo menos) em crise financeira. Marolinhas, nada mais. Coisa passageira. Espero. Almejo. Anseio. Aspiro. Para compensar, releio os remanescentes de minha biblioteca que já re-reli antes e que graças aos amigos que ainda não os pediram emprestado com a promessa solene de devolverem assim que terminasse a leitura, continuam a dar-me o prazer de sua companhia.   

       E quando não tenho livros para ler? Simples! Guias telefônicos são uma boa opção. Tenho um monte deles. Desde que o prefixo do meu telefone tinha só dois dígitos, ou melhor, números, ou melhor ainda, algarismos, pois ainda não estávamos na era digital. Nem de "celular" se cogitava, pois seria, com certeza, coisa de "ET". Depois passaram para três e hoje são quatro. Dígitos. Até qualquer dia.

       Com freqüência recorro às bulas de remédio. Guardo diversas, inclusive daqueles fármacos que já foram deletados pelo Ministério da Saúde por serem "milagrosos demais". Até gosto delas. Das bulas. Avalio cuidadosamente as interações medicamentosas, as posologias, contra-indicações e efeitos colaterais, sem esquecer das datas de validade. Afinal, é sempre bom estar prevenido pois nunca se sabe se e quando a gente vai precisar.  

       E rótulos de caixas de fósforos, então, vocês já leram? Além da quantidade de palitinhos que cada caixinha contém, traz a composição química do produto, como fósforo (é óbvio, Mané!), clorato de potássio, aglutinantes, o "CGC" do fabricante e uma série de recomendações de segurança, como manter fora do alcance das crianças, por exemplo, ou "conservar longe do fogo e do calor". Nunca é demais saber.  

       Mas o que me salva mesmo é o meu jornal diário. Bem antigamente era o Correio do Povo – o "velho", grandão, cheio de cadernos, inclusive o de Literatura, que valia por todo o resto. Mas eu lia outros, também, como o Diário de Notícias, a Folha da Tarde, a Folha da Manhã, a Folha Esportiva, o Jornal do Dia e até a mal-fadada Última Hora, que na década de sessenta deu lugar à Zero Hora. Depois do "recesso" do Correio do Povo (vocês conhecem a história), ele reapareceu, meio descaracterizado, sem a elegância aristocrática de antigamente mas, afinal, ainda o Correio do Povo. A partir daí é que veio a desgraça. Ele começou a encolher, a compactar e hoje vem no formato que todos conhecemos – chamam de "tablóide" – e que não lembra mais, nem de longe, seus velhos e gloriosos tempos. Apesar disto, nesta nova fase fui assinante dele por uns quatro ou cinco anos. Hoje assino O Sul, mas independente dele, leio - ou já li - (quase) todos os jornais, daqui e de fora, com os quais tenho me defrontado. E isto sem considerar os jornais de bairro que estou sempre catando nos "shoppings", restaurantes, salas de teatro, supermercados, farmácias, armazéns, "vendinhas" e quitandas ("de bairro", naturalmente) e todos os demais diários e hebdomadários e mensários existentes, onde quer que circulem ou se encontrem.

       Pois, dia desses, surpreendi-me com a notícia estampada em um deles, sob uma manchete enorme, em caixa-alta: "ESCÂNDALO NA ALFÁCIA DO SUL". Depois conferi em mais fontes, buscando uma notícia de consenso. A TV não divulgou nada. Nem o "Jornal Nacional", nem o Gugu ou o Faustão, menos ainda o Sílvio Santos, segundo o que me contaram. Mas foi um choque pra mim. Logo na Alfácia do Sul, o país dos meus sonhos atuais!  

       A notícia era quase lacônica. "Curta e grossa", como se diz comumente. Resumindo, relatava (ou "delatava"?) que um dos políticos mais antigos e influentes, tido como de "reputação ilibada" e notório saber jurídico tinha contas bancárias em diversos "paraísos fiscais" e promovia "festinhas" particulares com o dinheiro público. Investigado, terminou por serem revelados outros "desvios de conduta" de sua excelência, como a inclusão, na folha de pagamento do estado, de diversos parentes, e até não parentes, como a cozinheira de uma enteada e o caseiro de um concunhado. Incrível! Injustificável! O sujeito não era nem cunhado!...

        Foi grande a minha decepção. Verdadeiro desencanto. Depois disto, resolvi retardar a minha viagem para a Alfácia. Sine dia. Sem descartar a alternativa de cancelamento definitivo. Fico imaginando como estarão se sentido os habitantes locais com um escândalo desta magnitude. Coisa nunca vista algures nem alhures. Deve ser um horror viver num país assim, com pessoas de tal nível, vocês não acham? Deus me livre de conviver com esse tipo de gente.

       Mas, como dias de frio (e hoje o frio está glacial) são bons pra gente comer polenta com calabresa, bastante queijo e vinho, tomar café com bolinhos fritos e jogar conversa fora, vou ficando por aqui e tratar das duas primeiras opções, já que a última, parece, está concluída.

       Prá vocês, um abraço e os votos de um ótimo final de semana. Ah, e não esqueçam de programar com cuidado a próxima viagem. A escolha do roteiro precisa ser criteriosa, para não causar decepção.

Vando

* * *

Foto: Não é da Alfácia. Como eu não tinha nenhuma de lá, nem consegui encontrar na internet, resolvi colocar esta mesmo, só prá ilustrar. Na verdade, foi só uma brincadeirinha com vocês. Eu fiz no dia 24-Jun-2009, em Belém Novo, no final da tarde. Até que ficou bonitinha, concordam?

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