É a história de uma mãe conversando com a sua filha já adulta:
Nós estamos sentadas almoçando quando minha filha casualmente mencionaque ela e seu marido estão pensando em "começar uma família".
"Nós estamos fazendo uma pesquisa", ela diz, meio de brincadeira. "Você acha que eu deveria ter um bebê?"
"Vai mudar a sua vida", eu digo, cuidadosamente mantendo meu tom neutro.
"Eu sei", - ela diz. "nada de dormir até tarde nos finais de semana,nada de férias espontâneas..."
Mas não foi nada disso que eu quis dizer. Eu olho para a minha filha,tentando decidir o que dizer a ela. Eu quero que ela saiba o que elanunca vai aprender no curso de casais grávidos. Eu quero lhe dizer queas feridas físicas de dar à luz irão se curar, mas que tornar-se mãedeixará uma ferida emocional tão exposta que ela estará para semprevulnerável.
Eu penso em alertá-la que ela nunca mais vai ler um jornal sem seperguntar "E se tivesse sido o MEU filho?" Que cada acidente deavião, cada incêndio irá lhe assombrar. Que quando ela vir fotos decrianças morrendo de fome, ela se perguntará se algo poderia ser piordo que ver seu filho morrer.
Olho para suas unhas com a manicure impecável, seu terno estiloso epenso que não importa o quão sofisticada ela seja, tornar-se mãe iráreduzi-la ao nível primitivo da ursa que protege seu filhote. Que umgrito urgente de "Mãe!" fará com que ela derrube um suflê na suamelhor blusa sem hesitar nem por um instante.
Eu sinto que deveria avisá-la que não importa quantos anos elainvestiu em sua carreira, ela será arrancada dos trilhos profissionaispela maternidade. Ela pode conseguir uma escolinha, mas um belo diaela entrará numa importante reunião de negócios e pensará no cheirodo seu bebê. Ela vai ter que usar cada milímetro de sua disciplina paraevitar sair correndo para casa, apenas para ter certeza de que o seubebê está bem.
Eu quero que a minha filha saiba que decisões do dia a dia não maisserão rotina. Que a decisão de um menino de 5 anos de ir ao banheiromasculino ao invés do feminino no McDonald's se tornará um enormedilema. Que ali mesmo, em meio às bandejas barulhentas e criançasgritando, questões de independência e sexo serão pensadas contra apossibilidade de que um molestador de crianças possa estar observandono banheiro.
Não importa o quão assertiva ela seja no escritório, ela sequestionará constantemente como mãe.
Olhando para minha atraente filha, eu quero assegurá-la de que o pesoda gravidez ela perderá eventualmente, mas que ela jamais se sentirá amesma sobre si mesma. Que a vida dela, hoje tão importante, será demenor valor quando ela tiver um filho. Que ela a daria num segundopara salvar sua cria, mas que ela também começará a desejar por maisanos de vida - não para realizar seus próprios sonhos, mas para verseus filhos realizarem os deles.
Eu quero que ela saiba que a cicatriz de uma cesárea ou estrias setornarão medalhas de honra.
O relacionamento de minha filha com seu marido irá mudar, mas não daforma como ela pensa. Eu queria que ela entendesse o quanto mais sepode amar um homem que tem cuidado ao passar pomadinhas num bebê ouque nunca hesita em brincar com seu filho. Eu acho que ela deveria saberque ela se apaixonará por ele novamente por razões que hoje ela acharia nadaromânticas.
Eu gostaria que minha filha pudesse perceber a conexão que elasentirá com as mulheres que através da história tentaram acabar com asguerras, com o preconceito e com os motoristas bêbados.
Eu espero que ela possa entender porque eu posso pensar racionalmentesobre a maioria das coisas, mas que eu me torno temporariamente insanaquando discuto a ameaça da guerra nuclear para o futuro de meusfilhos.
Eu quero descrever para minha filha a enorme emoção de ver seu filhoaprender a andar de bicicleta. Quero mostrar a ela a gargalhadagostosa de um bebê que está tocando o pelo macio de um cachorro ougato pela primeira vez. Eu quero que ela prove a alegria que é tãoreal que chega a doer. O olhar de estranheza da minha filha me fazperceber que tenho lágrimas nos olhos.
"Você jamais se arrependerá", digo finalmente.
Então estico minha mão sobre a mesa, aperto a mão da minha filha efaço uma prece silenciosa por ela, e por mim, e por todas as mulheresmeramente mortais que encontraram em seu caminho este que é o maismaravilhoso dos chamados. Este presente abençoado de Deus...que é ser Mãe.
* * *
Esta crônica me foi enviada por e-mail, pela Roberta Heise Gonçalves, em 29-Out-2009. Depois de lê-la - cinco, seis, oito vezes, - eu a guardei, com a certeza de que, de um momento para outro, eu iria publicá-la.
Hoje me surpreendi ao constatar que neste mês ainda não publiquei nada no nosso site. Outubro termina amanhã, sábado e quase passava “em branco” pela minha já tradicional falta de tempo. Alguns opositores já dizem que tempo não é o que falta; é preciso saber administrar melhor o de que disponho. Na conjuntura atual fico na dúvida, mas vou fazer uma auditoria e ver se descubro onde está o problema. Mas enquanto não faço isto, vamos em frente.
Por falar em "em branco", (vide o parágrafo anterior) lembrei-me, de súbito (como Mário Quintana gostava de dizer) que preciso ter mais cuidado com o “politicamente correto”, tão enraizado nas mentes contemporâneas. A expressão acima bem pode causar constrangimento, e até ofender a algum esquimó que eventualmente esteja, neste exato momento, sentado confortavelmente no interior de sua cabana ou de seu iglu, protegido com peles de focas e de renas, com o seu note-book sobre os joelhos, me lendo, lá nos confins da Lapônia ou circunvizinhanças árticas). Vou ler com mais freqüência o meu “livro de visitas” para ver se não colocaram nele nenhum protesto.
Aliás, também tenho que estar atento a outros “modos de dizer as coisas”, para não correr riscos. Ouço seguidamente severas críticas feitas aos incautos – ou nem tanto – que se utilizam de expressões como “a coisa está preta”, ou “isto é uma judiaria” e inúmeras outras que, em tempos recentes, vêm sendo paulatinamente atacadas e banidas com o objetivo de não melindrar certas “minorias”. Portanto, é imprescindível redobrar os cuidados com o que digo, inclusive quanto à interpretação que possa ser dada a “certas” minorias. O peixe morre pela boca.
A esse respeito, é bem característico o problema que venho enfrentando com meu vizinho que mora no apartamento bem em frente ao meu. Na verdade, moramos aqui há mais de vinte e cinco anos, pois compramos nossos “imóveis” (ih!... tomara que nenhum “deficiente físico” nos acesse!) na mesma época. Mas, como eu dizia, meu vizinho é Médico (assim, com inicial maiúscula, pois é dos bons). Somos, naturalmente, bons amigos, mas às vezes fico indeciso quanto à forma de tratamento que devo lhe dispensar nos momentos de menos informalida- de. Digo isto porque há tempos, em conversa com uma amiga da família, que é enfermeira (assim mesmo, com letrinhas minúsculas, todas; com o devido respeito) esta se referia às atividades que exerce, incluindo-as entre as demais da área médica, enfatizando que todos são modernamente (re)conhecidos como “profissionais de saúde” e que este é o "modo correto" de chamá-los.
Mas as coisas não param por aí. O que dizer, por exemplo, dos “trabalhadores em educação”? Acho que não vou dizer muito, pois se me atrevesse a tal, a crônica ia ficar enorme e ia ter que continuar "no próximo capí- tulo". De qualquer modo, de repente senti uma saudade enorme da “minha” Professora (esta, sim com letras maiúsculas, caixa-alta, enormes, garrafais) dos tempos de infância. E depois, dos Professores que nos apoiaram, a mim e à Nina, para fundar o CPM do Apeles, nos idos dos anos 1970/80... do século passado! E dos incontáveis Professores que passaram pelas nossas vidas e pelas vidas de nossos filhos, pelos quais todos guardávamos venerável respeito, pois, mais do que Professores, eram justamente considerados Mestres.
Antes de continuar, preciso confidenciar a vocês uma coisa: antigamente eu era do sexo masculino. (Por favor, vamos com calma, gente!... Por que os cochichos? Cuidado com a interpretação que vocês vão dar, pois não renunciei nem renuncio. O que estão pensando?). Do sexo masculino, sim. Como meu pai, o “seu” Romeu, e como os “vôs” e “bisos” e "trisos" João, Ramiro, Odorico... Minha mãe, a “dona Evinha”, era do sexo feminino. E como! Vocês, que não a conheceram, nem fazem idéia. Do mesmo jeito que sua mãe – a minha vó e madrinha Ramira e demais avós, bisavós, tataravós, e minhas irmãs, tias... Então, chegamos onde eu queria: hoje, não temos mais sexo. De acordo com os costumes vigentes, pertencemos a “gêneros” – seja lá o que isto signifique. Chocante, não parece?
E, por aí, vai. Os adeptos do “politicamente correto” tentam transformar radicalmente o nosso jeito de expressar. Colocam na nossa boca palavras que jamais, em tempo algum, pronunciamos. Mudam conceitos em nome da quebra dos preconceitos. Não nos dão folga em impor-nos cuidados redobrados e permanentes que nos obrigam a estar sempre monitorando o que vamos dizer ou escrever. Além de arrogantes, são de tal forma chatos, irritantes, e aborrecentes, que nos deixam depressivos e em constante estado de alerta.
Mas não é só no que se refere ao que eu disse acima, que a turma aficcionada pelo “politicamente correto” bagunçou as nossas cabeças. Eles se metem em tudo. Tudo sabem e sobre tudo impõem suas decisões. Assim, a geografia também foi objeto da sua sanha desmedida e insaciável. Me acompanhem: aprendi, desde pequenininho,que ilha era “uma porção de terra cercada de água por todos os lados”. Diferenciava-se bastante de lago, por ser este “uma porção de água cercada de terra por todos os lados”. Assim as águas de um lago eram estanques; não corriam para nenhum lugar. Óbvio. Ululantemente óbvio, como me observaria Nelson Rodrigues se ainda andasse por aqui.
Nessa época, quando se falava de nossa Porto Alegre, ficava claro que ela situava-se “à margem esquerda do Rio Guaíba”, ou seja, do nosso Rio Guaíba, que, sendo um rio, corria entre suas margens – uma à esquerda e outra à direita do sentido de seu curso, depois de se formar pelos seus afluentes e desembocar na foz junto à Lagoa dos Patos. Ou seja, um rio que como qualquer outro rio – pelo menos os que existem num planeta chamado Terra, do qual já ouvi falar vagamente - tem uma origem, um curso e uma foz.
Pois não é que, num passe de mágica, por obra de alguma Maga Patalógika tupiniquim o Rio Guaíba se transfor- mou em “lago” Guaíba? Assim, da noite para o dia. Num "plim!" Sempre detestei isto, desde que foi inventado e imposto como dogma que, se posto em dúvida, conduzirá o herege à fogueira. E não tenho dúvida em creditar tal aberração a alguém afinado com o “politicamente correto”. Afinal, eles não poupam nada no seu caminho. Tentam – e na maior parte das vezes, conseguem – destruir fatos, desconstruir realidades incontestáveis e devastar tudo, por onde passam. São a versão moderna e bem mais elaborada do histórico Átila, Rei dos Hunos, “o Flagelo de Deus”. Será que algum dia nos livraremos deles? Acho difícil, pois a cada dia encontram novos seguidores e terminam proliferando mais do que baratas em esgoto.
Bem, não é tudo, ainda, o que me inspirou esta manhã de 30 de outubro. Mas acho que é um bom tema pra encerrar o mês, de forma condizente com a véspera do “Halloween” já que, pelo que tenho visto, “as bruxas estão soltas”. E as "bruxas" a quem me refiro, vocês, com certeza, já adivinharam quem são. Não adianta ir à sua caça. De qualquer modo, tentar exorcizá-las não custa nada, mesmo convicto de que o sucesso é improvável: "Vade retro!"
E quanto ao nosso – ou pelo menos ao “meu” Rio Guaíba – vou deixar para falar nele em uma próxima inserção. Espero que tenham paciência para me aguardar.
a gente continua morando na velha casa em que nasceu.
(Mário Quintana)
Faz pouco que voltei lá. Contudo, não mais encontrei o que procurava.
Quanta melancolia! Da velha casa nenhum vestígio. Nem ruínas. Nem fantasmas. Apenas um terreno vazio, abandonado, precariamente protegido por uma cerca de arame e algumas tábuas. Tudo deserto. Sem cuidados. Alguns monturos com restos de sucatas que nem de lixo podem ser chamadas. Só.
Fazia tanto tempo!... Mais de sessenta anos!
O que foi feito da “minha” casa? Da antiga construção mista de madeira e alvenaria, que tinha sacadas, sótão, porão, - o que sobrou? A água vinha de um “algibe”, como se denominava o reservatório que ficava próximo à parede que dava para a cozinha. Na porta interna da sala grande, de jantar, que dava acesso aos demais cômodos, um antigo “reposteiro” (1), herança de família desde tempos imemoriais.
Onde foram parar as duas palmeiras altas que adornavam a escadaria da entrada? E a paineira, que na época da floração cobria-se de cor-de-rosa para algum tempo depois tornar-se toda branca quando as bolotas de algodão se abriam? E o pomar onde abundavam peras, maçãs, caquis, laranjas, bergamotas? E o “meu” arroio que corria, límpido e reluzente, lá no fundo do quintal, cortando as demais propriedades vizinhas? Onde esconderam, de mim, tudo isto?
Perguntas. Muitas. Sem respostas.
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Dona Maria do Mato morava numa construção tosca, no morro, lá no alto, junto à pedreira. Eu nunca soube como é que se ia até lá nem como ela fazia para nos visitar. Seria uma bruxa? Ou uma fada, disfarçada de anciã simpática? Pelo que sei, fazia de tudo: de parteira a lavadeira. Todos a conheciam, mas não sabiam de onde viera.
“Seu” Carlinhos, o dono do armazém ao lado, onde eu comprava guloseimas como as balas “Brocoió”(2), anotava tudo num caderno seboso que o pai pagava religiosamente no sábado, quando voltava do trabalho "no Schapke" (3).
Junto à cerca que delimitava o quintal comprido, havia uma figueira. Majestosa. Logo que nos mudamos para lá eu tinha medo dela, pois se enroscara num butiazeiro e os adultos diziam que ela era assassina. Um dia venci o medo. Aos poucos fui me aproximando. Com algum receio, a princípio. Depois, subi nela. Trêmulo. Cheio de cuidados e expectativas. Penso que simpatizou comigo pois me aceitou e desde então nos tornamos amigos.
E havia pitangas. E amoras e guabirobas para colher e comer à vontade.
Na frente, do outro lado da rua, um terreno baldio. Sem muros ou cercas. Mas era limpo. A gente chamava de “mato”, embora fosse amplo, aberto, com muitos arbustos e grama baixa, onde se podia brincar. Nas noites de verão infestava-se do pisca-piscar de vagalumes que eu prendia em garrafas só para fazer de “lanterna”.
Havia o voejar das borboletas e libélulas. Cantos de cigarras e de passarinhos. E relva orvalhada pelo sereno e cheiro de terra molhada quando chovia.
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Um dia o padre da Paróquia de Nossa Senhora da Saúde (4), ganhou uma cabrita, presente de um paroquiano. Como guardar o “mimo” na sacristia? Num domingo, depois da missa, conversava com meu pai. Eram amigos há bastante tempo. “Preciso que me faças um favor, Romeu. A tua casa é grande e tem um bom pátio. Será que poderias ficar com a cabrita, por uns tempos, até que eu a leve para a chácara?”
Lá pelas tantas, o “seu” Romeu chega em casa com a cabrita a cabresto. “Como é mansinha!” – exclamou minha irmã, então com uns cinco ou seis anos. “Posso brincar com ela!?”...
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No sótão guardavam-se velharias. Muitos livros e jornais antigos onde eu aprendi a gostar de ler. Na maior parte tempo era o meu refúgio - um templo sem oração mas impregnado de magia. O porão, por sua vez, era alto, espaçoso, sempre limpo e bem cuidado mesmo sendo depósito de quinquilharias com as quais brincávamos quando chovia.
No quintal erguia-se um forno de lenha. Nele a mãe e as avós faziam pão que se comia com goiabada, manteiga, queijo feito em casa e café passado em coador de pano no bule de louça águeda.
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Dias depois a cabrita já era membro da família. Andava por toda a casa sem qualquer constrangimento. No pomar empanturrava-se com todas as frutas que encontrava. Suas preferidas, porém, eram as peras, que comia até ficar triste.
Uma tarde, a mãe e a vó preparavam um monte de peras para fazer doce. Era fim de semana, ou feriado, pois o pai estava em casa e observava o trabalho que elas executavam compenetradas. Minha irmã, ao seu lado, também. Nisto, olharam-se. Olharam para as peras e depois para a cabrita, que rondava com olhar cobiçoso. Como por telepatia, seus pensamentos se cruzaram. Minutos depois a cabrita deliciava-se com uma bandeja de peras... açucaradas! Lambia os beiços enquanto trocava com os dois, olhares da mais comovida gratidão. Uma cena emocionante!
Desnecessário é dizer que a partir daquele dia a nossa cabrita passou a rejeitar definitivamente as peras in natura. Só comia se fossem com açúcar.
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Hoje a casa, as palmeiras, a paineira e a escadaria não passam de imagens etéreas retidas em algum recanto da alma.
Não há mais mato, nem pitangas, nem amoras. A figueira e o butiazeiro, assim como as libélulas e os vagalumes, são apenas sonhos que, efêmeros, se dissipam, a cada lembrança, como névoa ao amanhecer de novo tempo. Passarinhos e cigarras já não cantam nem o orvalho enverniza de brilho a relva macia de antigamente, que virou sarça.
Cada reminiscência é uma sucessão de retratos esmaecidos e deteriorados, resgatados de velhas e bolorentas caixas de sapatos remanescentes na memória.
Tudo foi reduzido a um sítio melancólico impregnado de miasmas indeléveis; transformado em sombrio monumento a uma história bonita que o tempo, em sua trajetória implacável, se encarregou de interromper e que os homens foram incapazes de dar continuidade.
Ao chegar lá deparei-me com uma nova realidade. Descobri que, além do pai, da avó, do padre e sua cabrita, também não existem mais nem dona Maria do Mato nem o seu Carlinhos. Deles todos resta, apenas – e tão somente – uma imensa, uma indefinível e dolorida saudade.
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Por que estou contando isto? O que me levou a fazê-lo?
Tomei tal decisão depois que conheci uma pessoa especial. Aliás, não só uma pessoa, mas uma família. Pessoas belíssimas. Gente que também tem histórias para contar. Que guarda, num coração imenso, um carinho inexcedível pelos antepassados e pelos amigos. E que como eu tenta preservar a instituição mais agredida, dentre todas, neste nosso mundo “avançado” e “moderno”: a Família.
O que precipitou este encontro foi o fato deles morarem, há muitos e muitos anos, ali, bem pertinho de onde eu morei, no bairro Nonoai, que no “meu” tempo era, também, Teresópolis.
Sem o saberem, proporcionaram-me a oportunidade de viver uma autêntica terapia de regressão ao passado, que me fez um bem incalculável.
Nosso conhecimento foi possível graças à internet, através de meus blogues, depois de correspondência que recebi.
Foi com o Seu Nuno e sua maravilhosa prole que a saudade mexeu fundo comigo. Receberam-me em sua casa com uma fidalguia inigualável. Deles ouvi relatos fabulosos. Aprendi coisas que nem nas bibliotecas, arquivos públicos ou sites de pesquisa eu conseguia encontrar.
Juntos remexemos os baús de nossas recordações e reavivamos episódios e paisagens que ainda permaneciam, embora amarelecidos, nos arquivos de nossas memórias. E daí a voltar à casa da infância longínqua, em busca de alguma raiz que lá tivesse ficado, foi questão de poucos dias.
E é a eles que eu dedico este “Meu Tema Preferido” de hoje, repleto de emoção e sentimento. Pelo que deles recebi, jamais, certamente, poderei pagar.
De tudo, fica em mim uma certeza: a de que eu não estou só na minha crença de que preservar a nossa história e render gratidão e respeito aos antepassados é mais do que dever – é questão de sobrevivência.
Muito obrigado, seu Nuno. Muito obrigado, Márcia e José. Que bom – que bom, mesmo – que vocês existem!
Vando
* * *
(1) Reposteiro – era o nome que se dava às cortinas pesadas, muito comuns nas casas antigas.
(2) Brocoió – Nome, ou marca, de umas balas bastante saborosas, apesar de um pouco duras (alguns chamavam, se lembro bem, de “quebra-queixo”) que traziam no invólucro figuras de um caipira (o “Brocoió”), que colecionadas formavam uma história, narrando as aventuras do personagem.
(3) "no" Schapke –Trata-se da Livraria Schapke. Era lá que meu pai, o “seu” Romeu, trabalhou como encadernador, até se aposentar. Quando se falava sobre a empresa, dizia-se "no". Ficava na Av. Cristóvão Colombo 1907, local onde hoje está em construção o "Floresta Shopping Center".
(4) Estou quase certo de que o padre da Igreja N. S. da Saúde, que menciono, é o Padre Afonso. Não lembro todo o nome, mas creio que era Afonso Witt, ou algo assim. De início ocorreu-me que seria o "Padre Pedro" (depois, Monsenhor André Pedro Frank), mas este, logo constatei, esteve na Paróquia bastante tempo antes dessa época. Gostaria que alguém que o(s) conheceu e pudesse dar-me maiores subsídios, entrasse em contato. Ficarei muito grato.
Epígrafe: Quem disse que eu mudei? – Mário Quintana, em “Preparativos de Viagem”, página 15, Editora Globo, RJ, 1989, 2ª Edição
Ilustração: Quadro “Escada de Casa Antiga” – Pintura em acrílico de “Selvagem”
Sempre grudado no posto O payador missioneiro Sente o calor do braseiro Batendo forte no rosto E vai mastigando o gosto Da velha infusão amarga, Sentindo o peso da carga Que algum ancestral comanda Enquanto o mundo se agranda E o coração se me alarga
Sempre a mesma liturgia Do chimarrão do meu povo, Há sempre um algo de novo No clarear de um outro dia, Parece que a geografia Se transforma - de hora em hora E o payador se apavora Diante um mundo convulso Sentindo o bárbaro impulso De se mandar campo fora!
Muito antes da caverna Eu penso - enquanto improviso, Nos campos do paraíso O patrão que nos governa, Na sua sapiência eterna E eterna sabedoria, Deu o canto e a melodia
Para os pássaros e os ventos Pra que fossem complementos Do que chamamos poesia!
Por conseguinte - o Adão, Já nasceu poeta inspirado, Mesmo um tanto abarbarado Por falta de erudição E compôs um poema pagão À sua rude maneira, Para a sua companheira, A mulher - poema beleza, Inspirado - com certeza Numa folha de parreira!
Os Menestréis - os Aedos, Os Bardos - Os Rapsodos, Poetas grandes - eles todos, Manejando a voz e os dedos Vão desvendando os segredos Nas suas rudes andanças, As violas em vez de lanças, Harpas - flautas - bandolins, Semeando pelos confins As décimas e as romanzas!
Tanto os poetas orientais Como os poetas do ocidente, Cada qual uma vertente, Todos eles mananciais, Nos quatro pontos cardeais Esparramando canções E - no rastro das legiões Do lusitano prefácio, A última flor do lácio Nos deu Luiz Vaz de Camões!
No Brasil continental Chegaram as caravelas E vieram junto com elas As poesias - com Cabral, Para um marco imemorial Nestas florestas bravias Perpetuando melodias De imorredouro destaque: Castro Alves e Bilac E Antônio Gonçalves Dias!
Neste garrão de hemisfério Quando a pátria amanhecia Surgiu também a poesia No costado do gaudério Na pia do batistério Das restingas e das flores E a horda dos campeadores Bárbara e analfabeta Pariu o primeiro poeta No canto dos payadores!
E foi ele - esse vaqueano Do cenário primitivo, Autor do poema nativo Misto de pêlo e tutano, De pampeiro - de minuano, Repontando sonhos grandes;
Hidalgo - Ramiro - Hernández El Viejo Pancho - Ascassubi Mamando no mesmo ubre Desde o Guaíba aos Andes!
Há uma grande variedade De poetas no meu país, Do mais variado matiz Cheios de brasilidade, De um Carlos Drummond de Andrade Ao mais culto e ao mais fino, Mas eu prefiro o Balbino, Juca Ruivo e Aureliano, Trançando de mano a mano Com lonca de boi brasino
João Vargas - e o Vargas Neto E o Amaro Juvenal, Cada qual um manancial Que ilustram qualquer dialeto, Manuseando o alfabeto No seu feitio mais austero, Os discípulos de Homero De alma grande e verso leve, Desde sempre usando um "breve" De ferrão de quero-quero!
Imagino enquanto escuto Esse bárbaro lamento Que a poesia é o som do vento Que nunca pára um minuto, Picumã vestiu de luto A quincha do Santafé, Mas nós sabemos porque é Que o vento xucro não pára: São suspiros da Jussara Chamando o índio Sepé!
* * *
Do Livro "Payadas e Cantares", Jayme Caetano Braun – Ed. Martins Livreiro Editor, Porto Alegre
- "O Declamador" - foto minha, feita em 28-Jun-2009 -
Mês passado eu não escrevi nada no nosso site. Mas não foi por falta de assunto. O tempo é que, realmente, esteve escasso. Para agravar ainda mais o problema, a inspiração andou em baixa. E como!...
Quando a gente tem muitas tarefas a desempenhar e compromissos urgentes a cumprir, chega a um momento em que as idéias se ofuscam e não mais se consegue sincronizá-las de modo conveniente. Daí ao colapso a distância é mínima. Principalmente depois dos vinte e cinco!!!... Coisas da idade. Um preço relativamente alto e que não desonera nem o ser mais privilegiado pelos deuses, como "um" que vocês conhecem.
Na verdade, tenho escrito diversos textos concomitantemente mas nenhum me pareceu interessante para ser publicado. Nem pelo tema, em si, nem pela qualidade. Logo, a produção desandou. Resultou insípida e enfadonha, além de extremamente medíocre. Coisa bem de principiante. Nem em sonho eu as publicaria pois seria um atentado à inteligência - e à paciência - de vocês, que não merecem passar por tamanha provação.
Hoje retomei a tarefa interrompida. Para minha surpresa, nada daquilo que eu vinha alinhavando foi aproveitado. O assunto que, de repente, me aflorou, foi o Brique da Redenção.
Estive lá no domingo passado – um belíssimo dia de sol, de céu azul e clima que lembrou muito o verão. Aliás, raros são os domingos em que por lá não andarilho.
A idéia de falar sobre o Brique surgiu há poucos instantes enquanto eu selecionava algumas fotos dele, que fiz, para publicar no meu blog "RETRATOS DO MEU JARDIM". Estava tentando redigir breves linhas que, invariavelmente, acompanham as fotografias que publico. Foi quando percebi que tinha diante de mim uma boa matéria e poderia redimir, em parte, minha ausência no mês de julho.
Assim, decidi reportar-me ao evento mais concorrido do meu Parque predileto desde épocas imemoriais.
Lembro que no início ele foi chamado de "Mercado das Pulgas". Com o passar do tempo, tornou-se Bric, ou Brique, forma reduzida de Bricabraque. A denominação é originada do francês bric-à-brac, que designa estabelecimento comercial que compra e vende objetos usados, antiguidades, ferro-velho, etc.
O Brique da Redenção tem tudo a ver com tal definição – e muito mais. Penso que constitui um mundo à parte onde reina a convivência harmônica e fraterna entre todo tipo de pessoas, sem distinção de idade, cor, religião, ideologia, nível social e intelectual, ou quaisquer outras diferenças a que se queira dar destaque.
O Brique é, acima de tudo, uma festa. Festa perene, de cores, formas, atividades, conceitos, que a cada semana se reprisa mas não se repete jamais. É como uma peça de teatro que por mais tempo que permaneça em cartaz, tem sempre algum detalhe que a diferencia da encenação da véspera.
Não há um domingo igual ao outro, no Brique. E não me refiro a questões meramente meteorológicas, como frio, calor, chuva ou sol. Ele é sempre diferente, embora conserve a sua semelhança tradicional e por isto consiga preservar intactas as suas características, ao mesmo tempo em que resguarda a sua atração.
Tentar explicá-lo é tarefa impossível. Só há uma forma de compreendê-lo. Ou tentar. É visitando-o habitualmente. É fazendo dele o programa oficial do nosso domingo de porto-alegrense. É caminhando entre as suas antiguidades, bugigangas, artesanatos e quinquilharias, apreciando as obras de arte e o semblante das gentes que dele participam.
O Brique não é para ser descrito. Nem entendido. Precisa ser sentido, ser vivido. Vivenciado.
É o lugar de se voltar a ser criança. De encantar-se com os artistas de rua, com os palhaços, com os músicos, com as "estátuas vivas" e com as dezenas de performances para as quais ele serve de palco. Sua própria localização já é prenúncio de alegria e regozijo – o Parque da Redenção, onde a gente grande come pipoca e algodão-doce, tira fotos com o lambe-lambe, senta, deita e rola na grama, brinca com os filhos e com o cachorro e se lambuza de sorvete sem receio de ser ridículo ou inibição de se mostrar feliz.
Este, para mim, é o Brique. O reduto mais porto-alegrense de Porto Alegre... e do mundo! Um ponto geográfico, uma referência ou um sonho, dependendo da perspectiva e do estado de espírito em que possamos nos encontrar em determinado momento. Ou, na pior das hipóteses, um belo assunto que me tirou de um aperto danado e me inspirou, levando-me a escrever esta crônica.
Alfácia do Sul. Faz algum tempo que tenho vontade de ir lá. No folheto da agência de viagens há um resumo histórico-geográfico-político-religioso-econômico-étnico-turístico-cultural bem interessante. Tudo bem resumido, como é de se esperar. Tem lindas paisagens. Seu povo é alegre, hospitaleiro e profundamente religioso. O país, uma ex-colônia, situa-se a sudeste da antiga Neurásia Ocidental e é um dos maiores exportadores de rapaduras e bananas-caturras do mundo. Mas sua economia é baseada na produção de alface – dizem que deliciosa! - de onde, segundo a lenda contada à exaustão pelos anciãos locais e recitada pela maior parte da população, se originou seu nome. Como, entre outras coisas, adoro alfaces, deixei-o listado como opção para uma próxima viagem.
Bem, mas não era este o tema que eu queria desenvolver. Pelo menos, acho que não. Ou não tanto, exatamente. O que eu queria dizer é novidade para vocês: sou um leitor compulsivo. Ah! Eu já disse isto antes? Puxa, que falta de memória! Tá na hora de apelar para aquele remédio... como é mesmo o nome?!... Esqueçam! Não nos amofinemos. Afinal, não custa repetir. Isto até ajuda a alinhavar as idéias e a não perder o fio da meada.
Então, como eu ia dizendo, ou seja, repetindo: sou um leitor compulsivo. Obsessivo. Voraz. Leio tudo o que se apresenta diante dos meus olhos. Desde criança, quando saturava a paciência (hoje o jeito de dizer isto é diferente) das pessoas, lendo em voz alta os "reclames" que havia nos bondes. Como esta sextilha, da qual nunca mais esqueci, apesar da falta de memória que vez por outra ensaia uma inserção invasiva: "Veja, ilustre passageiro / o belo tipo, faceiro / que o senhor tem a seu lado. /E, no entanto, acredite: / Quase morreu de bronquite. / Salvou-o o Rhum Creosotado". Alguém mais lembra?
Ler faz parte da minha rotina. Da minha vida. É obrigatório. É tão importante quanto respirar, torcer pelo Grêmio, ou enforcar o banho quando o termômetro se aproxima dos 2 graus Celsius.
Ultimamente não tenho comprado livros. Vez por outra leio as "orelhas" de algum quando chego nas livrarias. Ficaram muito caros e as economias domésticas andam em baixa. Creio que sou o único indivíduo que está (momentaneamente, pelo menos) em crise financeira. Marolinhas, nada mais. Coisa passageira. Espero. Almejo. Anseio. Aspiro. Para compensar, releio os remanescentes de minha biblioteca que já re-reli antes e que graças aos amigos que ainda não os pediram emprestado com a promessa solene de devolverem assim que terminasse a leitura, continuam a dar-me o prazer de sua companhia.
E quando não tenho livros para ler? Simples! Guias telefônicos são uma boa opção. Tenho um monte deles. Desde que o prefixo do meu telefone tinha só dois dígitos, ou melhor, números, ou melhor ainda, algarismos, pois ainda não estávamos na era digital. Nem de "celular" se cogitava, pois seria, com certeza, coisa de "ET". Depois passaram para três e hoje são quatro. Dígitos. Até qualquer dia.
Com freqüência recorro às bulas de remédio. Guardo diversas, inclusive daqueles fármacos que já foram deletados pelo Ministério da Saúde por serem "milagrosos demais". Até gosto delas. Das bulas. Avalio cuidadosamente as interações medicamentosas, as posologias, contra-indicações e efeitos colaterais, sem esquecer das datas de validade. Afinal, é sempre bom estar prevenido pois nunca se sabe se e quando a gente vai precisar.
E rótulos de caixas de fósforos, então, vocês já leram? Além da quantidade de palitinhos que cada caixinha contém, traz a composição química do produto, como fósforo (é óbvio, Mané!), clorato de potássio, aglutinantes, o "CGC" do fabricante e uma série de recomendações de segurança, como manter fora do alcance das crianças, por exemplo, ou "conservar longe do fogo e do calor". Nunca é demais saber.
Mas o que me salva mesmo é o meu jornal diário. Bem antigamente era o Correio do Povo – o "velho", grandão, cheio de cadernos, inclusive o de Literatura, que valia por todo o resto. Mas eu lia outros, também, como o Diário de Notícias, a Folha da Tarde, a Folha da Manhã, a Folha Esportiva, o Jornal do Dia e até a mal-fadada Última Hora, que na década de sessenta deu lugar à Zero Hora. Depois do "recesso" do Correio do Povo (vocês conhecem a história), ele reapareceu, meio descaracterizado, sem a elegância aristocrática de antigamente mas, afinal, ainda o Correio do Povo. A partir daí é que veio a desgraça. Ele começou a encolher, a compactar e hoje vem no formato que todos conhecemos – chamam de "tablóide" – e que não lembra mais, nem de longe, seus velhos e gloriosos tempos. Apesar disto, nesta nova fase fui assinante dele por uns quatro ou cinco anos. Hoje assino O Sul, mas independente dele, leio - ou já li - (quase) todos os jornais, daqui e de fora, com os quais tenho me defrontado. E isto sem considerar os jornais de bairro que estou sempre catando nos "shoppings", restaurantes, salas de teatro, supermercados, farmácias, armazéns, "vendinhas" e quitandas ("de bairro", naturalmente) e todos os demais diários e hebdomadários e mensários existentes, onde quer que circulem ou se encontrem.
Pois, dia desses, surpreendi-me com a notícia estampada em um deles, sob uma manchete enorme, em caixa-alta: "ESCÂNDALO NA ALFÁCIA DO SUL".Depois conferi em mais fontes, buscando uma notícia de consenso. A TV não divulgou nada. Nem o "Jornal Nacional", nem o Gugu ou o Faustão, menos ainda o Sílvio Santos, segundo o que me contaram. Mas foi um choque pra mim. Logo na Alfácia do Sul, o país dos meus sonhos atuais!
A notícia era quase lacônica. "Curta e grossa", como se diz comumente. Resumindo, relatava (ou "delatava"?) que um dos políticos mais antigos e influentes, tido como de "reputação ilibada" e notóriosaber jurídico tinha contas bancárias em diversos "paraísos fiscais" e promovia "festinhas" particulares com o dinheiro público. Investigado, terminou por serem revelados outros "desvios de conduta" de sua excelência, como a inclusão, na folha de pagamento do estado, de diversos parentes, e até não parentes, como a cozinheira de uma enteada e o caseiro de um concunhado. Incrível! Injustificável! O sujeito não era nem cunhado!...
Foi grande a minha decepção. Verdadeiro desencanto. Depois disto, resolvi retardar a minha viagem para a Alfácia. Sine dia. Sem descartar a alternativa de cancelamento definitivo. Fico imaginando como estarão se sentido os habitantes locais com um escândalo desta magnitude. Coisa nunca vista algures nem alhures. Deve ser um horror viver num país assim, com pessoas de tal nível, vocês não acham? Deus me livre de conviver com esse tipo de gente.
Mas, como dias de frio (e hoje o frio está glacial) são bons pra gente comer polenta com calabresa, bastante queijo e vinho, tomar café com bolinhos fritos e jogar conversa fora, vou ficando por aqui e tratar das duas primeiras opções, já que a última, parece, está concluída.
Prá vocês, um abraço e os votos de um ótimo final de semana. Ah, e não esqueçam de programar com cuidado a próxima viagem. A escolha do roteiro precisa ser criteriosa, para não causar decepção.
Vando
* * *
Foto: Não é da Alfácia. Como eu não tinha nenhuma de lá, nem consegui encontrar na internet, resolvi colocar esta mesmo, só prá ilustrar. Na verdade, foi só uma brincadeirinha com vocês. Eu fiz no dia 24-Jun-2009, em Belém Novo, no final da tarde. Até que ficou bonitinha, concordam?
Faz mais de uma semana que venho tentando escrever uma crônica sobre esta data que nunca, - solteiros, casados, noivos, namorados ou apenas "enrolados" – deixamos de comemorar.
A pessoa amada é sempre tema para os sonhos que alimentamos e faz parte inseparável de nós próprios, dos nossos projetos de vida. Tudo que fazemos tem nela a principal inspiradora e última destinatária.
A inspiração, porém, anda meio em crise. Não consegui escrever nenhuma frase. Foi então que lembrei-me de um personagem a quem muito estimo e ao qual tenho um blogue dedicado. Seu nome – Mário Quintana.
Poucos poetas souberam, tão bem, como ele, falar de amor – este sentimento que une todos os enamorados e sustenta o ser humano ainda que nas situações mais complicadas. Pois bem. Quintana, o inspirador Anjo Malaquias, desceu desde as altas lonjuras onde se encontra atualmente e me socorreu.
Obrigado, amigo velho! Eu sabia que ias me tirar deste aperto. Permite que eu ofereça a todos os casais da Família "NÓS AQUI" – estejam eles juntos há muitos e muitos anos, ou apenas no preâmbulo recheado de ilusões e encantamentos em que a adolescência os embala – este teu poema que não sei a quem dedicaste, mas suponho, pelo que já conheço de ti.
INDIVISÍVEIS
O meu primeiro amor sentávamos numa pedra
Que havia num terreno baldio entre as nossas casas.
Falávamos de coisas bobas.
Isto é, que a gente grande achava bobas
Como qualquer troca de confidências entre crianças de cinco anos.
Crianças...
Parecia que entre um e outro nem havia ainda separação de sexos
A não ser o azul imenso dos olhos dela,
Olhos que eu não encontrava em ninguém mais,
Nem no cachorro e no gato da casa,
Que apenas tinham a mesma fidelidade sem compromisso
E a mesma animal – ou celestial – inocência,
Porque o azul dos olhos dela tornava mais azul o céu:
Não, não importava as coisas bobas que disséssemos.
Éramos um desejo de estar perto, tão perto
Que não havia ali apenas duas encantadas criaturas
Mas um único amor sentado sobre uma tosca pedra,
Enquanto a gente grande passava, caçoava, ria-se, não sabia
Que eles levariam procurando uma coisa assim por toda a sua vida...
Esta é a mensagem que deixo aqui, dedicando-a à minha cara metade (na verdade, mais do que metade, pois a ela atribuo pelo menos uns oitenta e cinco por cento) e a todos vocês neste dia 12 de junho.
Vamos curtir esta data da melhor forma, com muitos abraços, beijos e carinho, pois carinho - e principalmente, AMOR - nunca é demais.
Vando
* * *
Foto: Escaneei do meu baú de velharias. Acho que comprei no Bric da Redenção.
Dentre os diversos temas que tenho rabiscados para esta série, faltando só pequenas correções, escolhi para hoje este, que trata de um bairro pelo qual tenho um carinho muito especial.
Sei que muitos vão me chamar de "bairrista", pois, por coincidência – apenas "coincidência" – eu moro na Vila Nova. E já faz algum tempo. Vinte e oito anos, para ser mais exato.
Gosto daqui. Mesmo passando por transformações visíveis, que vão lhe dando ares "civilizados", a Vila Nova guarda muito dos tempos primitivos. Aqui ainda se vêem paisagens verdes. Ouve-se cantoria de passarinhos. Respira-se ar puro. As pessoas se conhecem e cumprimentam-se, alegres. Até ao tomarem o ônibus, todos dizem "bom dia!", "boa tarde!", "boa noite!" ao motorista e ao cobrador, que retribuem sempre com amabilidade, quando não são, eles próprios, a tomarem a iniciativa. E mais uma particularidade que vocês não vão acreditar: ainda existem armazéns (e até um super-mercado!) que vende fiado, anotando num caderno todo seboso as compras da clientela. E, o mais incrível, ainda: os clientes... pagam!
É demais, não acham?
Mas, vamos ao tema, propriamente dito.
A Vila Nova tem aproximadamente 116 anos. (Desses, quase trinta são meus). Começou a ser habitada a partir de 1893, quando aqui chegaram os primeiros imigrantes italianos. Eles vinham de diversas regiões da Itália, mas principalmente de Mantova e Cremona, na Lombardia e Trento, no Trentino-Alto. Eram, em sua maioria, famílias de agricultores que instalando-se aqui, foram adquirindo áreas de terra e implantando chácaras, passando a cultivar pêssegos, ameixas, peras, verduras e videiras. Estas, de excelente qualidade, começaram a ser utilizadas na produção de vinho que logo teve boa aceitação, sendo comercializado não só no Rio Grande do Sul, como expandindo sua venda para o Rio de Janeiro e São Paulo.
Com muito trabalho e esforço coletivo, a nova vila – já então conhecida como "Colônia Vila Nova d'Italia" – muito distante da área urbana da Cidade, ainda de difícil acesso e parcos recursos – foi crescendo. Já em 1897, quatro anos após a chegada dos primeiros colonizadores, os novos porto-alegrenses criaram uma escola. Consta que a atual Escola Alberto Torres, na Av. Rodrigues da Fonseca, originou-se dela. Ainda não confirmei, mas pretendo pesquisar.
Católicos fervorosos, edificaram, tempos depois, isto é, em 1906, uma pequena capela, a partir da qual se originou a atual Igreja de São José da Vila Nova, ali na esquina da Vicente Monteggia com a Rodrigues da Fonseca.
Com o passar do tempo a economia da Vila foi se tornando importante fator de crescimento, daí surgindo a necessidade de criação de novos recursos que pudessem impulsionar o progresso que já se mostrava irreversível. Então foram criadas em 1911 uma Caixa de Crédito Rural e a Cooperativa Agrícola.
Desde a sua implantação, a "Colônia Vila Nova d'Italia" tem mostrado a sua pujança. Já em 1898 um dos pioneiros do bairro, Vicente Monteggia, tornou-se responsável pela construção de um moinho para produzir farinha de milho. O estabelecimento localizava-se junto à casa que serviu de residência para a Família, e da qual, atualmente, vemos, com muita mágoa, apenas ruínas que, ainda assim, atestam a beleza e a harmonia, embora singelas, da obra. (Logo, logo, estes vestígios devem desaparecer, pois a área está à venda e a deterioração do imóvel é uma realidade incontestável).
O Moinho de Monteggia ficava à margem esquerda do Arroio Cavalhada, que passava junto ao terreno, sendo represado para que suas águas dessem energia para o acionamento da turbina hidráulica.
A partir de 1912, foi criada na Estrada de Belém Velho, uma linha ferroviária que passava pela Vila Nova. O "seu" Flávio, um dos meus bons amigos e vizinho, nascido na Vila Nova há quase oitenta anos, e nela criado, conta que essa linha férrea acompanhava o traçado do que atualmente são as Avenidas Rodrigues da Fonseca, João Salomoni, seguia mais ou menos paralelamente o Arroio Cavalhada e ia até o Cristal, nas proximidades do Jóquei Clube.
(2)
Hoje a Vila Nova conta com uma porção de outros "bairros" em sua área. São diversos condomínios construídos em anos mais recentes. Entre estes, está o "Jardim Salomoni", localizado em área adquirida da tradicional Família Salomoni e adjacente à dos Stringhini, família também descendente dos primeiros colonizadores. Sua localização é privilegiada. A frente original fica na Rua João Salomoni que vem a ser paralela a duas ruas internas: Rua Otaviano Pinto Soares e Rua Dr. Pio Fiori de Azevedo. Ao centro, conta com a movimentada Rua Joaquim de Carvalho, recentemente ampliada até à Av. Monte Cristo, dando acesso ao novíssimo hiper-mercado BIG, localizado na Avenida Eduardo Prado. Para este local, está projetada a construção – já em fase adiantada – de novos conjuntos residenciais da Cooperativa Geraldo Santana e de um novo e grandioso Shopping Center a ser edificado ao lado do hiper-mercado.
É importante assinalar, também, que o Jardim Salomoni possui uma bonita e extensa praça – a Praça Prof. Emílio Mabilde Ripoll – onde os moradores se reúnem aos finais de tarde e nos fins de semana para um agradável bate-papo e as crianças se divertem na "pracinha" que conta com balanços, escorregador e outros equipamentos. No Conjunto encontra-se também a Escola Municipal de Educação Infantil Jardim Salomoni – EMEI que iniciou suas atividades a partir de 1989.
Eu teria muitas outras coisas para contar sobre a Vila Nova, mas o espaço não comporta tema tão extenso. Para fazê-lo, teria que ser mais ou menos como quando lhes contei sobre "Santa Maria e eu", lembram? - que publiquei em 6 de maio do ano passado, e tive que dividir em nove capítulos. Mas pretendo retomar o assunto, mais adiante. Vocês concordam em esperar?
Então, aguardem. Qualquer dia eu volto.
Vando.
- Fotos minhas:
(1) Vista parcial do Jardim Salamoni, através da Praça.
Foto: "Christ, my Son, my Savior" de Simon Dewey, 2005
"Mães são árvores. Elas enfeitam a vida com as suas flores e os seus frutos. São a garantia do manancial da vida que jorra para nós, como a fonte da Água Viva, referida por Jesus à mulher samaritana.
Seus braços e suas mãos que nos acalantam, acariciam e também corrigem, são como as ramas das árvores, eternas fiandeiras da vida. À noite, quando se debruçam sobre o berço dos filhos, a luz da vida passa por elas, como a luz prateada do luar passa por entre as folhas e brinca de tecer rendas no solo.
No calor escaldante das nossas lutas, elas são a sombra refrescante e amiga. É no seu tronco que nos escoramos para chorar ou confidenciar nossas mágoas e desencantos. Quantas ultrapassam o tempo de vida dos filhos, e seus corações são os esquifes, onde mora a saudade?!...
Alguns querem colocá-las num altar. Contudo, elas são o próprio altar, ou o templo da natureza em que a vida é cultuada. Elas também morrem. E se em vida foram o sustento das fontes de água, mortas, elas são o fertilizante da vida". (*)
* * *
Nesta data tão querida de todos, a nossa homenagem e todo o carinho às mães
da Família "NÓS AQUI" e às mães de todo o mundo.
* * *
(*) - Texto extraído e adaptado da crônica "Homenagem às Mães" de Amílcar Del Chiaro Filho (1935 –2006),
Minha vida, em tempos mais recentes, tem se caracterizado pela quantidade de vezes em que preciso pedir perdão.
Claro que me esforço bastante para manter em dia os meus compromissos, principalmente aqueles que envolvem pessoas – amigos, familiares e outras que, de algum modo, integram o meu círculo de convivência. Faço de tudo para não decepcioná-las, para não faltar com a palavra empenhada e com a missão assumida. E com algum esforço tenho conseguido. Além do que, isto não é bem o caso.
Preocupo-me é com relação ao nosso site, que nem sempre é possível manter "up-to-date". Tem sido difícil.
Ontem, caí na realidade e detectei um dos motivos que têm feito com que o meu tempo venha se tornando sempre mais escasso. De alguns meses para cá, tenho dedicado cada vez mais as minhas horas ociosas à web. Já ouviram falar nela? Pois bem. A cumplicidade é dela. De início, relutei muito antes de me deixar seduzir pelo seu fascínio. Aos poucos, porém, fui sucumbindo à tentação e hoje já não consigo mais livrar-me das atividades informáticas e internéticas. Elas passaram a fazer parte do meu cotidiano. E tudo começou há uns cinco ou seis anos, com o instrumento simples do e-mail.
Como a maior parte dos seres que atualmente habitam o Planeta, deixei de escrever as cartas das quais, agora, sinto falta.
Lembro como era gostoso ter sempre em estoque folhas especiais, envelopes e selos, aos quais se somavam cartões postais e, nas épocas de festas, os cartões natalinos, os de Páscoa, os de aniversário, a remessa das fotografias da família... A gente caprichava na caligrafia, contava tudo o que se passara desde a última carta, falava de saudade, mandava abraços afetuosos e comovidos.Então, ia ao Correio, colocava a correspondência na caixa de coleta e ficava torcendo para que a entrega fosse feita com celeridade.
Eram mensagens que, dependendo do local de destino, podiam demorar de alguns dias até semanas para chegar, conduzidas pelas mãos do velho carteiro - conhecido de todos e que a todos conhecia pelo nome.
O e-mail mandou tudo pro espaço. Literalmente. Agora basta digitar o endereço do destinatário, redigir a mensagem normalmente em linguagem lacônica - extremamente reduzida e compactada – e... pronto! Em um segundo ela está lá – seja o que for que "lá" signifique ou onde se localize: pode ser a Vila Floresta, o Passo das Tropas, São Thomé das Letras ou Kathmandu.
Depois, vieram as pesquisas, relegando os livros a plano secundário. Hoje, tudo está na web. Basta um clique e temos diante dos olhos a saga de Moisés na busca da Terra Prometida, as guerras napoleônicas, as obras de arte do Louvre, o homem de Neanderthal, a vida de Madre Tereza ou a poesia de Gibran Kahlil e de Mário Quintana. O mesmo vale para os originais de Shakespeare ou para os Manuscritos do Mar Morto.
(Ainda assim, para mim, nada substitui o livro, de preferência as edições antigas, essas que vez por outra ando garimpando nos sebos. Lançamentos não me atraem muito. Livros novos lembram-me rosas de supermercado: têm beleza, mas não têm perfume. O que também me atrai nos livros antigos – assim como nos velhos jornais – é o cheiro. Às vezes sou levado a imaginar que em alguma de minhas vidas passadas - a mais recente delas, talvez - eu tenha sido a reencarnação de uma simples traça (aquele bichinho da família dos Tineídeos e Tisanuros, sabem?), dessas que vivem dentro dos livros e deles se alimentam, o que faz dessas reminiscências um dos motivos pelos quais eu ainda adoro livros).
Mas... continuemos, para que eu não perca o fio da meada.
Com as ferramentas de busca ("search tools" – que chique!), descobri sites magníficos (claro que o que tem de detritos bastante mal-cheirososos é inacreditável), os quais fui adicionando aos meus favoritos. Daí à vontade de criar alguma coisa parecida foi um passo. Logo aprendi que não precisava gastar dinheiro com a construção de uma página na internet:uma infinidade de provedores oferece, gratuitamente, hospedagem e disponibiliza "templates" prontinhos, bastando a gente escolher a configuração e o modelo mais conveniente e ingressar no mundo dos blogues. Com um pouco de paciência e muita perseverança, fui experimentando um, depois outro, apanhando daqui, me estressando dali, até que consegui! Agora eu já não era um mero internauta, mas um blogueiro de verdade. E dos bons. (Até hoje acho isto. Quanta modéstia!).
Foi quando fiz o meu primeiro blog. Vocês sabem qual foi ele. Este mesmo! O "NÓS AQUI", o site de nossa Família. A alegria que isto me proporcionou foi imensa.
Acontece que o "NÓS AQUI" foi o primeiro, mas não foi o único. Nem o último. Gradativamente fui fazendo outros. Todos temáticos. Cada um sobre um dos assuntos que me atraem. E fui gostando deles. E dedicando, a cada qual, um carinho especial. Hoje estou com seis (!) blogues. E haja tempo pra manter todos atualizados!...
Mas encontrei na internet o grande recurso de que eu necessitava para – pasmem! – reunir a nossa Família. Eu queria isto. Nós precisávamos disto. Em torno do "NÓS AQUI" e da ÁRVORE GENEALÓGICA a que tenho me dedicado, consegui agregar muitos de nós, pelo interesse comum que isto despertou.
E mais recentemente estamos – "Nós Aqui" – em contato mais freqüente através do Orkut.
Aqui, então, é que entra a explicação do modo pelo qual iniciei esta crônica, ou seja, o meu sussurro melancólico e suplicante por clemência. E ela é dirigida especialmente a "NÓS AQUI", que sendo o meu primogênito, não tem merecido a mesma atenção que lhe dediquei no início. Tenho escrito pouco, nele. Outros "filhos" nasceram e precisam de cuidados que venho tentando repartir, o mais equilibradamente que posso, entre cada um.
É o preço que estou pagando por ter me empolgado com a internet. Mesmo assim, acho que valeu a pena. Eu sempre quis me expressar de algum modo. Achava – e continuo convicto – que tinha alguma coisa a contar, histórias a serem reveladas, hobbies a compartilhar.
Com os meus blogues estou conseguindo isto. Acho, com alguma razão. E o compromisso que assumi – sem prever nem avaliar com a prudente antecedência que seria recomendável – é agora com as pessoas que os acessam. Assustei-me um pouco ao constatar que havia quem os lesse. Existiam pessoas – amigas, que se tornaram - que dão atenção ao que eu publico. Que apreciam as minhas fotos. Que deixam comentários. Que escrevem mensagens gratificantes, me apóiam e ajudam a divulgá-los. Poderei ficar em falta com elas? Não me parece que seria honesto se assim eu procedesse.
Por tudo isto é que preciso que vocês me perdoem e continuem a prestigiar o nosso site. Não deixem de acessá-lo. Pode demorar um pouco, mas sempre haverá nele novidades que vocês sabem onde encontrar. E quando tiverem coisas interessantes, como crônicas, fotos, textos de bom nível, histórias pessoais ou da família, fiquem à vontade e me enviem para publicação. Ele não é meu. É nosso e foi criado com esta finalidade.
A vida de blogueiro não é muito fácil, mas tem suas compensações. Vocês são testemunhas.
A toda a Família "NÓS AQUI" e aos nossos amigos de todos os lugares do Brasil e do Mundo, que nos visitam.
* * *
"Escutai todos vós que tendes a peito o futuro do homem! Escutai, homens e mulheres de boa vontade!
A tentação da vingança dê lugar à coragem do perdão; a cultura da vida e do amor torne vã a lógica da morte; a confiança volte a animar a vida dos povos.
Sendo único o nosso futuro, é compromisso e dever de todos construí-lo com paciente e solícita grandeza de ânimo."
(Da Mensagem de Páscoa do Papa João Paulo II no domingo da Ressurreição, dia 11 de abril de 2004)
* * *
Que nesta Páscoa, ao recordarmos o retorno à VIDA d'Aquele que a entregou por nós, possamos também ressuscitar para o Amor e para a Fraternidade, dos quais nós e o mundo ainda somos tão carentes.
Nossa Cidade está em festa. Nós estamos felizes. Porto Alegre completa neste dia 26 de março de 2009, seus 237 anos.
Seus primórdios, todos conhecemos: a colonização do "Porto de Viamão" por Jerônimo de Ornellas Menezes e Vasconcelos, português proveniente da Ilha da Madeira, recebendo a Carta de Sesmaria em 5 de novembro de 1740; a contratação, pelo governo português, de Feliciano Velho Oldenberg, em 1747, para intensificar o povoamento do Continente de São Pedro com a vinda dos imigrantes; a chegada dos casais açorianos em 1752 dando origem ao chamado "Porto dos Casais"... Então, a construção da primeira capela no arraial, dedicada ao padroeiro São Francisco de Assis. Depois, em 1772, a desapropriação da sesmaria que Jerônimo de Ornellas vendera em 1762 para Inácio Francisco sendo, no dia 26 de março, criada a freguesia de São Francisco do Porto dos Casais através de carta pastoral de Dom Antonio do Desterro, na época bispo do Rio de Janeiro, e da qual o Padre José Gomes de Faria tomou posse no dia 25 de setembro.
Já em 1773, a nossa Capital recebe o nome de Nossa Senhora Madre de Deus de Porto Alegre, no dia 18 de janeiro. Pela primeira vez Porto Alegre passa a ser chamada de... Porto Alegre! Oficialmente. Definitivamente.
A partir daí muitas coisas mudaram. Veio o progresso. A Cidade cresceu em todos os sentidos. A população aumentou. Abriram-se estradas, caminhos, novas ruas e avenidas. Aos poucos veio o saneamento. Erigiram-se templos e igrejas, como a Igreja do Menino Deus e a Igreja do Rosário. Construíram-se a "entrada da Cidade" - Praça do Portão - e parques, como a Redenção, na antiga Várzea, e a Praça da Matriz que, logo, abrigou o belíssimo e inesquecível Auditório Araújo Viana. Fundaram-se o Colégio Militar, faculdades e escolas que se transformaram em Universidades. Vieram os bondes, a energia elétrica, a Usina do Gasômetro, o telégrafo. Houve exposições internacionais e Congresso Eucarístico. Edificaram-se "arranha-céus", pontes, como a da Azenha, e viadutos. Vieram os mercados, cinemas, os teatros, os cafés, a vida urbana, noturna e mundana. Fundaram-se jornais, emissoras de rádio, grandes lojas e "magazines". Surgiu a "Galeria Chaves", o "footing" na Rua da Praia, a Casa Victor, o Bromberg, a Confeitaria Rocco, o cinema Castelo. Ah! também nasceram o Jóquei Club, a Sogipa, os clubes náuticos, o Grêmio Porto-Alegrense e o Sport Club Internacional, além do Cruzeiro, do Renner, do Nacional, do São José, do Força e Luz... E a "OSPA", Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, um orgulho para a Cidade. Nada, necessariamente, nesta ordem, mas cada uma a seu tempo, conforme as novas necessidades de uma metrópole que nascia e florescia a cada novo dia.
Hoje, não temos mais as grandes lojas e magazines, nem os tradicionais cafés (embora tenhamos muitos novos) que eram a delícia das damas elegantes e local de encontro dos cavalheiros de antanho. Em compensação, temos o "anexo" ao Theatro São Pedro, obra magnífica que se deve, principalmente, ao trabalho hercúleo de uma pequena e frágil mulher, chamada Eva Sopher. Dona Eva Sopher! Temos os "shoppings" - muitos - que são a delícia da juventude atual, repletos de diversões, comércio intenso de equipamentos de informática, jogos eletrônicos, dezenas de cinemas, boliches e uma parafernália de dar água na boca. Temos restaurantes monumentais, entre eles muitos remanescentes centenários dos "bons tempos".
Contamos com um aeroporto belíssimo que está sendo ampliado, linha de metrô que também está sendo ampliada e em vésperas de receber novo ramal, extensos e agradáveis parques públicos, marinas, imensas e bem iluminadas avenidas, a Catedral Metropolitana enfim concluída (ufa!) e uma infinidade de outras instituições, bens públicos e privados, logradouros, pontos para entretenimento, recursos de saúde (Hospitais de altíssimo nível, como o de Clínicas, O São Lucas, da PUC, o complexo da Santa Casa com uma dezena de clínicas e hospitais concentrados numa área comum, Mãe de Deus e muitos outros que chega a ser difícil de relacionar).
Nosso transporte público urbano é de alta qualidade, feito por ônibus novos (frotas periodicamente renovadas, de empresas tradicionais reunidas em consórcios, além da empresa Carris Porto-Alegrense), mais de quatro mil táxis todos novos, com ar condicionado, telefone, rádio e dirigidos por motoristas bem treinados para o atendimento à população e aos turistas (na frota do Aeroporto, todos os taxistas falam pelo menos, também, espanhol e inglês).
Claro que nem tudo é maravilhoso, deslumbrante, perfeito, irretocável, como pode parecer quando menciono o que temos de bom. Seria uma mentira fazer tal afirmação, pois temos também muitas mazelas. E quantas!... Há ainda pobreza - e muitos pobres, indigentes, mesmo. Há muitos problemas sociais graves: droga, prostituição, vandalismo, desrespeito aos bens públicos, crianças sem escola, doentes em filas aguardando atendimento, pessoas sem emprego, sem moradia... É uma realidade dolorosa, diante da qual em nada nos consola dizer que, afinal, isto não é privilégio nosso, pois outras cidades do Brasil e do mundo, mesmo os países mais prósperos, também enfrentam, o que é absolutamente verdadeiro. O fato é que temos isto, que já cansamos disto e que não queremos mais isto. Mas almejar, somente, não resolve. Nós não podemos ficar indiferentes, de braços cruzados, à espera de que a salvação caia dos céus como o maná.
Felizmente, Porto Alegre é uma Cidade fraterna e as pessoas - como grande parte dos agentes públicos - se sensibilizam e buscam soluções. Interessam-se. Ajudam. Reúnem-se em clubes, associações, escolas, entidades filantrópicas, igrejas, centros espíritas (estes, de forma exemplar), creches comunitárias, asilos, albergues. Atuam até individualmente, como em centenas de casos bem conhecidos. Com este trabalho dedicado e incansável, muitos daqueles problemas vão sendo minimizados, atenuados, solucionados. Projetos oficiais e iniciativas de empresas se multiplicam e com freqüência obtêm resultados positivos surpreendentes.
Queiramos ou não, estamos inseridos num mundo ao qual chamamos "moderno" - globalizado, heterogêneo, complicado, competitivo, desumanizado em muitos casos. E desumanizado, não, talvez, diretamente por nossa culpa, embora reconheçamos que a nossa atuação nesse mundo precisa ser sempre cautelosa para que não venhamos a recair em erros pretéritos que seguramente cometemos. Mas chegamos até aqui com muito esforço, idealismo e boa-vontade, principalmente a vontade de acertar e de fazer o melhor. Nós, porto-alegrenses, se não alcançamos ainda a "santidade" (e não me parece que a alcançaremos tão cedo, é óbvio, além do que nem nos move tal pretensão) somos, na quase totalidade, ordeiros, cultos, trabalhadores, solidários, hospitaleiros, amantes da alegria, da paz e das coisas boas. Quem nos conhece sabe disto.
Hoje não somos mais apenas os descendentes diretos dos casais açorianos e dos povos que vieram da África para construírem esta Cidade linda. Agora, descendemos também de outros europeus (italianos, alemães, poloneses...), de asiáticos (japoneses, coreanos, chineses...) e de imigrantes de todos os lugares do Estado, do Brasil e de outras partes do mundo, que vieram nos enriquecer com os seus talentos, habilidades, costumes e cultura. Trabalhamos, estudamos, nos divertimos; temos os nossos problemas (e quem não os têm?) e aceitamos os desafios, como nos casos que mencionei em parágrafo anterior. Mas, acima de tudo, temos fé, amamos a nossa Cidade e às pessoas e procuramos ser felizes. E, de alguma forma, conseguimos.
Resumindo, Porto Alegre é isto – e muito mais, que não cabe numa crônica, num compêndio e nem mesmo, certamente, numa enciclopédia, pois sentimentos são impossíveis de transcrever em livros.
Por isto, em vez de continuar tentando descrevê-la, o melhor é encerrar por aqui, dizendo apenas que a amamos. E dando-lhe o nosso abraço – fraterno? amigo? filial? Não importa. Seja como for, ela merece, nesta data que é dela e que é nossa, pois também faz parte de nossa história pessoal e dos nossos sonhos e anseios mais profundos.
Em fevereiro, entre os dias 14 e 17, fiz, outra vez, uma das coisas que mais gosto. Fui "guia turístico". Ou cicerone. Já explico. Depois de alguns anos sem nos vermos, recebemos a visita de uma amiga a quem muito prezamos e que reside atualmente na Serra, mais precisamente em Garibaldi. Nossa amizade vem dos tempos saudosos em que residimos na pequena e hospitaleira Cidade de Santiago (1985 a 1987). Como passa rápido o tempo!... Já faz mais de vinte anos!
Em setembro de 2007 estivemos na casa dela. Com o marido e o filho, que agora está para completar 16 anos, exploramos a região de colonização italiana e saboreamos o melhor vinho do mundo e que se encontra no Vale dos Vinhedos. Percorremos, além de Garibaldi, todos os recantos de Carlos Barbosa e Bento Gonçalves. Nessa ocasião visitamos cantinas e restaurantes espetaculares. Como anfitriões, eles são irrepreensíveis. Nos tempos de Santiago já era assim.
Desta vez, nos visitaram apenas ela e o filho, pois o esposo tinha compromissos de trabalho. Apesar disto, a presença deles foi uma alegria indescritível para nós que matamos a saudade e colocamos em dia todas as novidades – até mesmo as bem antigas – que estavam sendo armazenadas para serem contadas na ocasião oportuna.
- Garibaldi, 2007 -
Como fazemos com todas as pessoas "de fora" que nos visitam, aproveitamos – eu e a Nina - para sair com eles e mostrar-lhes a Cidade. A "minha" Cidade. O filho estava ansioso por conhecer os "shoppings", em particular o novo "Barra Shopping" há pouco inaugurado ali no Cristal. Claro que fomos lá. Para o menino foi um deslumbramento: jogos eletrônicos, lojas de informática, um lojão enorme só de instrumentos musicais (o André, este o nome do garoto, é apaixonado por música – e da melhor qualidade, registre-se – e toca violão e guitarra, além de adorar os Beatles, dos quais conhece toda a obra). Seus olhos brilhavam ao depararem-se com as guitarras cintilantes e os instrumentos de percussão expostos). Para as mulheres, outra oportunidade – que não perderam – de conhecer TODAS as lojas que vendem calçados, bolsas (ah! as bolsas! Não sei porque as mulheres gostam tanto de bolsas. E de sapatos. E de vestidos. E de jóias!....) e milhares de outras quinquilharias, bugigangas e "quetais". Estes últimos, obviamente, segundo o MEU ponto de vista e "no melhor sentido". Mas, convenhamos, que existem bem iguaizinhas em qualquer outro shopping do mundo (e que elas já conhecem), mas lá, não sei porque, lhes parece ser "novidade". Mas… saudemos estas criaturas encantadoras e maravilhosas, sem as quais não saberíamos viver. Por outro lado, cicerones têm que passar por isto. Faz parte.
Bom, mas eu estava falando – ou pelo menos a isto me propunha – dos passeios pela Cidade. Assim, prossigo. Também levei-os para conhecer os lugares aos quais todo o turista é conduzido quando vem a Porto Alegre. Estivemos na Praça da Matriz, onde conheceram a Catedral Metropolitana, o Palácio do Governo, a Assembléia Legislativa, o Theatro São Pedro, o Palácio da Justica, o solar dos Câmara (ou dos Câmaras?)… Andamos pela Duque de Caxias, passando pelo Museu Júlio de Castilhos e pelo Viaduto Otávio Rocha. Passeamos pela Rua da Praia, junto aos Quartéis do Exército e da Brigada Militar, a Igreja das Dores, a Casa de Cultura Mário Quintana. Fomos até o Museu de Artes Ado Malagoli (o MARGS), o Memorial do RS, o Santander Cultural. Apresentei-lhes a Prefeitura Municipal, o Mercado Público, a novíssima e espetacular esplanada junto à Estação Central do TrensUrb. Enfim, fizemos um roteiro completo pelo centro histórico e por uma infinidade de outros lugares que normalmente incluo mesmo nos meus passeios habituais.
Foram três dias magníficos, em todos os sentidos. Para comemorar, na noite anterior ao encerramento da visita fomos ao Pedrini, alí na Venâncio Aires, degustar a famosa "pizza de panela". É coisa divina, que recomendamos a todas as pessoas de paladar refinado e que, naturalmente, apreciem pizzas.
Usina do Gasômetro, fevereiro de 2009
Deixei de propósito, para mencionar aqui no final, um lugar aonde também os levei e que, para minha surpresa, foi o mais comentado por eles e o que mais impressionados os deixou pela sua monumentalidade: a Usina do Gasômetro, que está completando "80 Anos de História". (Sobre a Usina, estou preparando um resumo que pretendo publicar ainda neste mês, dentro da série "Meu Tema Preferido". Aguardem, que logo ele vai sair aqui no "Nós Aqui").
Pois era isto. Gostamos muito da visita. É sempre bom rever e receber amigos, particularmente quando são pessoas especiais e às quais a gente considera como fazendo parte de nossa família, como é o caso da Fátima, do Ademar (que desta vez não veio) e do André. Deles, já se sente saudade no momento mesmo de irem embora.
Mas eles voltam. Com certeza. Ou nós, daqui a pouco, vamos lá, de novo, e certamente seremos recebidos com a sua tradicional hospitalidade, fidalguia e o carinho que temos reciprocamente.
Terminado o carnaval, eis que nos encontramos com os seus melancólicos despojos: pelas ruas desertas os pavilhões, arquibancadas e passarelas são uns tristes esqueletos de madeira; oscilam no ar farrapos de ornamentos sem sentido, magros, amarelos e encarnados, batidos pelo vento, enrodilhados em suas cordas; torres coloridas, como desmesurados brinquedos, sustentam-se de pé, intrusas, anômalas, entre as árvores e os postes. Acabou-se o artifício, desmanchou-se a mágica, volta-se à realidade. À chamada realidade. Pois, por detrás disto que aparentamos ser, leva cada um de nós a preocupação de um desejo oculto, de uma vocação ou de um capricho que apenas o Carnaval permite que se manifestem com toda a sua força, por um ano inteiro contida.
Somos um povo muito variado e mesmo contraditório; o que para alguns parecerá defeito é, para outros, encanto. Quem diria que tantas pessoas bem comportadas, e aparentemente elegantes e finas, alimentam, durante trezentos dias do ano, o modesto sonho de serem ursos, macacos, onças, gatos e outros bichos? Quem diria que há tantas vocações para índios e escravas gregas, neste país de letrados e de liberdade?
Por outro lado, neste chamado país subdesenvolvido, quem poderia imaginar que tantos reis e imperadores, princesas de Mil e Uma Noites, soberanos fantásticos, banhados em esplendores que, se não são propriamente das minas de Golconda, resultam, afinal, mais caros: pois se as gemas verdadeiras têm valor por toda a vida, estas, de preço não desprezível, se destinam a durar somente algumas horas.
Neste país tão avançado e liberal - segundo dizem - há milhares de corações imperiais, milhares de sonhos profundamente comprimidos mas que explodem, no Carnaval, com suas anquinhas e casacas, cartolas e coroas, mantos roçagantes (espanejemos o adjetivo), cetros, luvas e outros acessórios.
Aliás, em matéria de reinados, vamos do Rei do Chumbo ao da Voz, passando pelo dos Cabritos e dos Parafusos: como se pode ver no catálogo telefônico. Temos impérios vários, príncipes, imperatrizes, princesas, em etiquetas de roupa e em rótulos de bebidas. É o nosso sonho de grandeza, a nossa compensação, a valorização que damos aos nossos próprios méritos...
Mas agora que o Carnaval passou, que vamos fazer de tantos quilos demiçangas, de tantos olhos faraônicos, de tantas coroas superpostas, de tantas plumas, leques, sombrinhas...?
"Ved de quán poco valor
Son las cosas tras que andamos
Y corremos..."
dizia Jorge Manrique. E no século XV! E falamos de coisas de verdade! Mas os homens gostam da ilusão. E já vão preparar o próximo Carnaval...
* * *
- Texto do livro "Quatro Vozes", Editora Record - Rio de Janeiro, 1998.
- Ilustração: "Pierrot and Harlequin", Paul Cézanne, 1888. Óleo sobre tela - The Pushkin Museum of Fine Art, Moscou, Rússia
Poucas vezes nos damos conta de que o nosso Rio Guaíba (e não "lago" Guaíba, como algumas sumidades "engajadas" adotaram como forma "politicamente correta", e contra a qual eu me insubordino intransigentemente) abriga nada mais nada menos do que trinta ilhas.
O Rio Guaíba começa a se formar a partir do Rio Taquari, que vem se somar aos rios Caí, Jacuí, Sinos e Gravataí, formando o que se chama de Delta do Jacuí. Este "delta" abrange, além de Porto Alegre, os municípios de Eldorado do Sul, Canoas, Triunfo, Nova Santa Rita e Charqueadas.
Pois é no "delta" que se situa o Rio Guaíba e suas 30 (TRINTA!) ilhas. Algumas delas são bem extensas, como a Ilha Grande dos Marinheiros, a Ilha do Lage, a Ilha das Flores e a Ilha da Pintada (as quatro maiores). Depois vêm outras com menor extensão: a Ilha da Casa da Pólvora, a Ilha do Pavão, a Ilha das Garças e Ilha do Humaitá. As duas dezenas restantes são ilhas bem pequenas. Chega-se a elas por meio de barcos, mas as ilhas Grande dos Marinheiros, do Pavão, das Flores e da Pintada também podem ser acessadas via rodoviária, pela Ponte do Guaíba. A soma de suas populações fixas é relativamente pequena: mais ou menos 15.000 habitantes. Entre uma e outra há muitos canais, pântanos e charcos.
- Foto: Roberto Rosa -
Andei pesquisando um pouco sobre nossas ilhas e os seus habitantes, o que me ajudou a descobrir algumas particularidades que nem sempre percebemos. Estamos acostumados a ver as ilhas de certa distância. Já estive em algumas delas. Pelas maiores, também já passei algumas vezes, navegando no "Cisne Branco" e no "Noiva do Caí". Deixo a vocês uma sugestão: vão até a Ilha da Pintada e deliciem-se com o "peixe na taquara", uma das preciosidades gastronômicas locais. É coisa digna de reis.
- Peixe na taquara - Foto: Prof. Rogério Ribeiro -
As condições urbanas variam bastante de uma ilha para outra, assim como as "classes" das pessoas que as habitam. Na Ilha Grande dos Marinheiros e na Ilha da Pintada, os moradores se dividem, basicamente, em duas categorias:
1) Os permanentes. São os primitivos, que viviam inicialmente do cultivo de arroz, frutas, verduras e da pesca, abundante em todo o Delta. A grande maioria atual faz parte das colônias de pesca e participa da vida comunitária, clubes de mães, etc. Moram em residências que se, por um lado, não são luxuosas, por outro são bastante decentes e confortáveis. São casas geralmente bonitas, limpas, algumas bastante graciosas e de visual agradável. Há boa infra-estrutura urbana, jardins, ruas calçadas e pavimentadas, praças bem conservadas, logradouros aprazíveis, linhas de ônibus urbanos, escolas até o nível de 2º grau, clubes, bons – apesar de poucos - lugares para refeições típicas e lojas de artesanato e bijuterias.
- Sede da Colônia de Pescadores Z-5 - Foto: Roberto Rosa -
2) os moradores de fim-de-semana – pessoas de alto poder aquisitivo, industriais, comerciantes, profissionais liberais, artistas, que possuem belíssimas residências com ancoradouros, clubes particulares e tudo o mais.
Quanto à Ilha das Flores, esta é a "filha pobre" do nosso Delta. Entre seus habitantes predominam favelados, "papeleiros", pessoas pobres, quase indigentes, que vivem do recolhimento e reciclagem de lixo, moram, via de regra, em casebres miseráveis e têm uma vida bastante penosa. São as que mais sofrem na época das chuvas, perdendo, via de regra, tudo, ou quase tudo, do muito pouco que têm. Embora esta realidade degradante, nela há também algumas comunidades um pouco mais privilegiadas, com residências melhores - ou "menos piores" - mas seu nível não chega a ser muito mais elevado do que o dos demais moradores.
Relaciono, a seguir, de forma aleatória, as trinta ilhas, com as características que pude pesquisar. Nas sete primeiras descrevo as anotações mais importantes relativas a cada uma. Para as demais, agrupadas, a partir da oitava – Ilha das Balseiras – não encontrei anotações que merecessem destaque:
1) ILHA DA CASA DA PÓLVORA - Nesta Ilha encontra-se o Eco-Museu da Ilha da Pólvora no qual são desenvolvidos diversos trabalhos científicos de graduação e pós-graduação, dentre os quais, se destacam estudos sobre a vegetação, os crustáceos, as aves e os roedores. Além disso, o CEFAM (Centro de Educação e Formação Ambiental Marinha) utiliza a área da Ilha da Pólvora para realizar, periodicamente, atividades práticas de educação ambiental.
2) ILHA DAS FLORES - Catadores e recicladores de lixo são a maioria de seus habitantes. O que a salva é a bonita vista que se vê da Cidade.
3) ILHA GRANDE DOS MARINHEIROS - "Moradores de fim-de-semana". Casas luxuosas. Clubes.
4) ILHA MAUÁ - Aqui fica a sede do projeto Pró-Guaíba, com laboratório e alojamento para pesquisadores.
5) ILHA DO PAVÃO – Algumas praias interessantes. Boas áreas para camping. Nela se localiza uma das sedes do Grêmio Náutico União.
6) ILHA DA PINTADA - Habitada por descendentes dos imigrantes açorianos que vieram para cá a partir do século XVIII. São os "primitivos" habitantes que, no início da colonização produziam frutas, leite, verduras e se dedicavam à pesca que abastecia a Cidade. É a que mais se destaca pela excelente infra-estrutura e pelo cultivo das tradições culturais herdadas pelos antepassados. É aqui na "Pintada", também, que se come o famoso "peixe na taquara". É a Tainha na Taquara, servida no restaurante da Colônia de Pescadores. Pura delícia!
7) ILHA DA CASA DA PÓLVORA - Possui um acervo de prédios datados de 1852. Ali já foi presídio, quartel, paiol (motivo, eu acho, do nome, "casa da Pólvora") estando os prédios atualmente restaurados, abrigando exposição permanente de aquários, peixes e exemplares diversos da flora e da fauna local.
- Foto: Marco Varnieri -
8) Ilha das Balseiras, 9) Ilha Cabeçuda, 10) Ilha do Chico Inglês, 11) Ilha do Cipriano, 12) Ilha do Corumbé, 13) Ilha da Figueira, 14) Ilha da Formiga, 15) Ilha do Furado, 16) Ilha das Garças, 17) Ilha Grande do Lopes, 18) Ilhas do Humaitá, 19) Ilha do Lage, 20) Ilha Leopoldina, 21) Ilha do Lírio do Cravo, 22) Ilha da Maria Conga, 23) Ilha Nova, 24) Ilha do Oliveira, 25) Ilha Pinto Flores, 26) Ilha das Pombas, 27) Ilha Ponta Rasa, 28) Ilha do Serafim, 29) Ilha dos Siqueiras e 30) Ilha da Virgínia.
Vocês, extremamente exigentes e detalhistas, como sei que são, por certo vão detectar inúmeras falhas e lacunas na minha matéria. Que bom! Assim, ficarei sabendo que a leram e que ela mereceu atenção. Além disto, poderão me ajudar com informações complementares e as correções que se fizerem necessárias.
Naturalmente vão me perdoar, pois não pretendi fazer um estudo científico sobre o assunto nem defender nenhuma tese de doutorado. Quis apenas falar, mais uma vez, sobre o "meu tema preferido" que versa sempre sobre a nossa "Leal e Valerosa Cidade", a nossa Porto Alegre que podemos observar e apreciar a partir de incontáveis perspectivas, oferecendo-nos, de cada vez, um ângulo inédito do qual possamos melhor conhecê-la e dela nos tornarmos mais e mais apaixonados.
Vando
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As fotografias que ilustram este "Meu Tema Preferido" pertencem ao site "CÂMERA VIAJANTE".
Hoje, neste final do mês de janeiro, o primeiro de 2009, consegui, finalmente, um tempo para me dedicar de novo ao nosso "blog da Família" que depois de dezembro do "ano passado" estava inativo.
Tivemos um final de ano repleto de compromissos e na transição para o ano novo pouca coisa mudou no ritmo que, até então, vínhamos mantendo. A gente cansa, sabem? Queremos "abraçar o mundo", mas conforme o tempo passa vamos nos dando conta de que os nossos braços vão encolhendo e o mundo vai aumentando a sua circunferência.
Já na primeira semana de janeiro, abri o nosso site uma porção de vezes com a intenção de atualizá-lo. Mas... "cadê" inspiração e preparo físico para a tarefa? De um momento para outro, percebi que a fonte secou. Foi quando caí na realidade e decidimos, eu e a Nina, "dar um tempo". Jogar a toalha. Tirar o time de campo. Precisávamos, urgentemente, de "férias", nem que fosse de uma semana, de dez dias, algo assim.
Dinheiro não era problema. Seria, na verdade, uma parte da solução... mas onde ele estava? Continuava tão curto como sempre foi. Como já nos habituamos a isto - e nem sei se saberíamos nos administrar de outra forma - fizemos um balanço nos cartões de crédito. Descobrimos que alguns deles ainda não tinham estourado e foi o que pesou na decisão final: arrumamos as mochilas, abastecemos o carro (com o "card", obviamente) e pegamos a estrada. Vamos em frente! Depois a gente vê como é que fica.
Pois sabem que valeu a pena? Foi glorioso! Andamos "pelai" quase duas semanas. Visitamos lugares aos quais ainda não tínhamos ido. Retornamos a outros que já faziam parte de nossos roteiros mais antigos. Até a chuva que vez por outra nos pegou no caminho foi gostosa. O carro ficou numa faceirice, devorando as estradas, que vocês precisavam ter visto. Parecia um cachorrinho. Me fez lembrar do Charles. Grande parte de vocês não conhece o Charles, mas ele é o "beagle" mais inteligente que já transitou pelo planeta. É o pupilo do Sandro e da Ine. O "xodó do vô". O totó mais viajado do mundo.
Mas, voltando ao carro, vocês ficariam encantados se o vissem junto com os outros, superando sua própria performance, curtindo a paisagem, deliciando-se nas retas e exibindo, nas curvas, toda a sua graça, estabilidade e elegância. Nem os postos de pedágio conseguiram afetar o seu humor. Coitadinho! Ele também estava precisando disto. Ultimamente só andava pela cidade, parando em dezenas de sinais, transitando por ruas acanhadas, defendendo-se dos "flanelinhas" ou só servindo para ir à feira e ao super-mercado, voltando pra casa cheio de embutidos, batatas e enlatados. Pra ele, principalmente, foi o grito de liberdade. Liberdade! Liberdade!...
Bem, não vou contar tudo. Mesmo porque nem tudo é publicável pois há "segredos de estado" que requerem a classificação de "top secret". Afinal, um pouco de privacidade também "faz parte". O fato é que estamos de volta, renovados, refrigerados, dispostos para enfrentar as marolinhas de mais um ano que, tudo indica, vai precisar de muito fôlego.
E estar de volta é um motivo de alegria. Confesso que já estávamos sentindo falta de algumas coisas. A nossa casa, por exemplo. Por mais que nos utilizemos das mordomias dos hotéis e do conforto que eles nos oferecem, chega um momento em que o banzo nos ataca. É quando sentimos a ausência da nossa cama, do nosso travesseiro – ah, o nosso travesseiro! - do nosso banheiro e até do nosso computador; quando lembramos o cheirinho do café da manhã, que só ele tem, novinho, feito na nossa cozinha; é quando nos dá vontade de andar descalços e de sentar à mesa sem camisa ou quando queremos ler o "nosso" jornal e não o encontramos nas bancas da cidade onde estamos. Aí a melancolia é indescritível.
E a saudade de vocês, então? Puxa! Neste ponto, foi duro! Mas já passou.
Se tudo correr bem – e os cartões de crédito não estiverem bloqueados – no ano que vem vocês serão nossos convidados. Vamos em comitiva. Em bando. Como andorinhas em migração. Já imaginaram o que vamos aprontar, todos juntos? Bem... isto é tema para a próxima crônica. É só ter um pouco de paciência.
O ano está chegando ao fim, com a promessa de que, daqui há pouco, um novo ano vai surgir, novinho em folha, para que possamos fazer dele aquilo de que formos capazes.
Nosso maior anseio é poder concretizar, nesse futuro que está logo ali, tudo aquilo que até agora não passou apenas de sonhos.
Daqui a uma semana, será de novo Natal. Estaremos comemorando o aniversário do Deus Menino que, deixando o Seu mundo de Luz, desceu, humildemente, ao Planeta Terra, para nos revelar segredos do Pai que até então não sabíamos. Do Menino que veio para nos confidenciar um grande segredo: contar-nos que nos amava e nos amará sempre. Perdidamente. Apaixonadamente. Que veio nos dizer que queria ser nosso Irmão. Que queria sinalizar o nosso Caminho, mostrando-nos a Verdade que nos conduzirá à Vida.
É tempo de fazermos uma pausa. De refletir. De fazer um balanço comparando o que fizemos de certo e o que erramos, depois do que poderemos traçar novas metas, assumindo conosco mesmos o compromisso de nos tornarmos um pouco melhores. De compreender. De perdoar. De sermos mais humanos e fraternos.
"NÓS AQUI",a Família Gonçalves, Santos, Lima, Machado e Descendentes, queremos, neste final de ano e em todos os dias de 2009, estar juntos de cada um daqueles a quem amamos e queremos bem, onde quer que estejam. De nossos amigos. Dos nossos vizinhos. Dos colegas de trabalho, da Faculdade, do Colégio. E nos aproximarmos, de braços e corações abertos, daqueles que ainda não são nossos amigos, com quem compartilhamos mágoas, desavenças, desentendimentos, desamor, pedindo-lhes que nos perdoem, porque queremos mudar. E abraçar a cada um, desejando-lhes um NATAL abençoado, com muita paz, amor fraternal e harmonia. E um ANO NOVO em que as realizações dos mais elevados objetivos possam, enfim, se materializarem.
Naquela noite tudo estava diferente. Apesar do frio que fazia, a natureza mostrava-se jubilosa e impregnada de perfumes como se a primavera estivesse a pleno. O céu, de um azul magnífico, pontilhava-se de estrelas, muitas das quais cintilavam pela primeira vez naquele quadrante da abóbada celeste.
Os pássaros não se recolheram como de costume, permanecendo agitados, cantantes e alegres nas ramadas e nos galhos que, embora inverno, acabavam de florir. Nos arroios próximos, a água de surpreendente limpidez insinuava-se entre as pedras com marulhar melodioso, enquanto fazia resplandecer milhões de pequeninos reflexos tremeluzentes, provenientes da luz que descia do firmamento. Vinda de muito longe, podia-se ouvir, como num murmúrio de acalanto, a música suave e terna que aos poucos ia envolvendo todos os seres da Criação. Era uma noite de expectativa, na qual todos os sentidos permaneciam atentos. Por isto o mundo pressentia que ela seria inesquecível.
O casal solitário, abrigado junto ao estábulo de humilde cabana onde se refugiara, aconchegava-se, resguardando-se do frio. Ele, não mais tão jovem, de porte solene e patriarcal que inspirava respeito e confiança, agasalhava-a junto ao peito numa atitude de proteção carinhosa. Ela, quase menina, de uma beleza plena de candidez e ternura, deixava transparecer certa apreensão. Logo seria mãe.
Ela sentia que o grande momento se aproximava. Preocupava-se, pois apesar da fé inabalável que era seu sustento, perscrutava o porvir do qual, junto ao filho que guardava em seu ventre, seria protagonista.
Mesmo assim, tudo estava tranqüilo. As forças deletérias do mundo até então em trevas, tinham se retraído, cientes de que, a partir daquela noite, não mais encontrariam o terreno fértil que lhes servira de seara. Por isto havia paz. Uma paz que se estendia aos recantos mais longínquos do universo.
A noite ia alta. Então, numa fração infinitesimal de tempo, intensa luminosidade expandiu-se desde a terra até os extremos celestes, partindo dali, daquele rústico presépio. A palha do que restara de alimento para os animais, agora recoberta cuidadosamente por lençol de imaculada brancura, acabara de receber um Rei.
E nesse instante, do mais alto de todos os céus, legiões angelicais entoaram cânticos de louvor à chegada do Menino anunciado por todos os profetas. Glórias!
Ele nasceu! O Menino desceu à terra dos homens, vindo em missão de paz. Veio contar-lhes que os amava. Perdidamente. Apaixonadamente! Que queria ser seu irmão. Que trazia-lhes mensagens do Pai que lhe enviou. Que queria revelar-lhes segredos que eles não sabiam e ser para eles o caminho, a verdade e a vida.
O Menino nasceu e habitou entre nós. E aquela noite foi o primeiro Natal.
* * *
Que todos os sentimentos sublimes que o Natal nos inspira, sejam os sinalizadores de cada um dos nossos atos no decorrer do novo ano que logo vai surgir.
A todos nós, os votos de um Feliz Natal e de um novo ano abençoado.
(Aos que a hastearam vitoriosa na Itália na luta contra o fascismo)
Bandeira do Brasil, colorida e festiva, alegre como a Paz, vibrante como um hino. Desfraldada nos céus, mais pareces um "viva!" erguido em saudação à Pátria e ao seu destino!
Bandeira do Brasil! Simbolizas a terra, a terra e o mar, o sol e o céu, a história e o povo! Alegre e juvenil teu colorido encerra a beleza e a expressão de um continente novo!
Outra não sei que seja assim tão viva e bela, atraente ao olhar e ao coração mais nobre; teu amarelo é sol, e teu azul se estrela tal como o céu azul sereno que nos cobre.
Bandeira do Brasil! Irmã de outras bandeiras. Tua alma para mim tem somente uma cor: mesmo sobrepairando as lutas e as trincheiras és branca como a Paz e pura como o Amor!
Bandeira do Brasil, - alma de todos nós! Hino de cores no ar saudando a humanidade! Que depois de enxugar o sangue dos heróis possas secar em paz ao sol da liberdade!
* * *
De "Antologia Poética, 1978
José Guilherme de Araujo Jorge (20-Mai-1914 – 27-Jan-1987)