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Telurismo

 

- SEMANA FARROUPILHA DE 2009 - 

CHIMARRÃO E POESIA

Jayme Caetano Braun

Sempre grudado no posto
O payador missioneiro
Sente o calor do braseiro
Batendo forte no rosto
E vai mastigando o gosto
Da velha infusão amarga,
Sentindo o peso da carga
Que algum ancestral comanda
Enquanto o mundo se agranda
E o coração se me alarga 

Sempre a mesma liturgia
Do chimarrão do meu povo,
Há sempre um algo de novo
No clarear de um outro dia,
Parece que a geografia
Se transforma - de hora em hora
E o payador se apavora
Diante um mundo convulso
Sentindo o bárbaro impulso
De se mandar campo fora!  

Muito antes da caverna
Eu penso - enquanto improviso,
Nos campos do paraíso
O patrão que nos governa,
Na sua sapiência eterna
E eterna sabedoria,
Deu o canto e a melodia 

Para os pássaros e os ventos
Pra que fossem complementos
Do que chamamos poesia! 

Por conseguinte - o Adão,
Já nasceu poeta inspirado,
Mesmo um tanto abarbarado
Por falta de erudição
E compôs um poema pagão
À sua rude maneira,
Para a sua companheira,
A mulher - poema beleza,
Inspirado - com certeza
Numa folha de parreira! 

Os Menestréis - os Aedos,
Os Bardos - Os Rapsodos,
Poetas grandes - eles todos,
Manejando a voz e os dedos
Vão desvendando os segredos
Nas suas rudes andanças,
As violas em vez de lanças,
Harpas - flautas - bandolins,
Semeando pelos confins
As décimas e as romanzas! 

Tanto os poetas orientais
Como os poetas do ocidente,
Cada qual uma vertente,
Todos eles mananciais,
Nos quatro pontos cardeais
Esparramando canções
E - no rastro das legiões
Do lusitano prefácio,
A última flor do lácio
Nos deu Luiz Vaz de Camões! 

No Brasil continental
Chegaram as caravelas
E vieram junto com elas
As poesias - com Cabral,
Para um marco imemorial
Nestas florestas bravias
Perpetuando melodias
De imorredouro destaque:
Castro Alves e Bilac
E Antônio Gonçalves Dias! 

Neste garrão de hemisfério
Quando a pátria amanhecia
Surgiu também a poesia
No costado do gaudério
Na pia do batistério
Das restingas e das flores
E a horda dos campeadores
Bárbara e analfabeta
Pariu o primeiro poeta
No canto dos payadores! 

E foi ele - esse vaqueano
Do cenário primitivo,
Autor do poema nativo
Misto de pêlo e tutano,
De pampeiro - de minuano,
Repontando sonhos grandes; 

Hidalgo - Ramiro - Hernández
El Viejo Pancho - Ascassubi
Mamando no mesmo ubre
Desde o Guaíba aos Andes! 

Há uma grande variedade
De poetas no meu país,
Do mais variado matiz
Cheios de brasilidade,
De um Carlos Drummond de Andrade
Ao mais culto e ao mais fino,
Mas eu prefiro o Balbino,
Juca Ruivo e Aureliano,
Trançando de mano a mano
Com lonca de boi brasino 

João Vargas - e o Vargas Neto
E o Amaro Juvenal,
Cada qual um manancial
Que ilustram qualquer dialeto,
Manuseando o alfabeto
No seu feitio mais austero,
Os discípulos de Homero
De alma grande e verso leve,
Desde sempre usando um "breve"
De ferrão de quero-quero! 

Imagino enquanto escuto
Esse bárbaro lamento
Que a poesia é o som do vento
Que nunca pára um minuto,
Picumã vestiu de luto
A quincha do Santafé,
Mas nós sabemos porque é
Que o vento xucro não pára:
São suspiros da Jussara
Chamando o índio Sepé! 

* * *

Do Livro "Payadas e Cantares", Jayme Caetano Braun – Ed. Martins Livreiro Editor, Porto Alegre

* * *

Créditos:

TEXTO - Transcrevi do site PÁGINA DO GAÚCHO

FOTO - Do site  SEMANA FARROUPILHA

 

Ode aos antepassados

 
 - CANTO AOS AVÓS - 
 
 
 
       Os avós eram de carne e osso. Tomavam mate, comiam carne com farinha, campereavam. Sopravam a chama dos lampiões. Dormiam cedo.
       Os avós tinham braços e pernas e cabeça (olhai os seus retratos nas molduras). Laçavam de todo o laço, amanuseavam potros, fumavam grossos palheiros de bom fumo e amavam seus cavalos que rompiam ventos e bandeavam arroios como um barco ágil. 
       Usavam lenços sob a barba espessa e o barbicacho lhes prendia ao queixo sombreiros negros para a chuva e sóis. Palas de seda para as soalheiras, ponchos de lã quando a invernia vinha. Tinham impérios de flechilha e trevo e famílias de bois no seu império e eram marcas de fogo os seus brasões.
       Charlavam de potreadas e mulheres, de episódios de adaga contra adaga, do tempo, das doenças, das mercâncias de gado gordo para os saladeiros.  
       Tinham homens a seu mando, os avós. No quartel rude dos galpões campeiros - enseivados de mate e carne gorda - os empíricos soldados madrugavam na luz das labaredas de espinilho que era sempre o primeiro sol de cada dia.  
       Honravam os avós a cor dos lenços: a seda branca dos republicanos, o colorado dos federalistas. E morriam por eles, se preciso, - coronéis de milícias bombachudas acordando tambores nos varzedos, no bate casco das cavalarias.
       Nas largas camas de cambraias alvas, vestindo o corpo da mulher mocita, juntavam carnes no silêncio escuro pautado por suspiros que morriam no contraponto musical dos grilos...  
       Os avós eram de carne e osso. Tinham braços e pernas e cabeça, artérias, nervos, coração e alma. Humanos como nós, os velhos tauras, - mas de bronze e de ferro nos parecem esses campeiros que fizeram história. Estátuas vivas de perenidade nos pedestais do tempo e da memória.  
 
* * *
 - Do Livro "Pago vago" -  Apparicio Silva Rillo, Martins Livreiro Editor, 1981 – 
O texto original é em forma de poema.

FOTO: Darlan’s Photo – Do site ZOOOMR. 

Ode à Música

 

Gibran Khalil Gibran

 

DIVINA MÚSICA!

 

Filha da Alma e do Amor.
Cálice da amargura e do Amor.
Sonho do coração humano, fruto da tristeza.
Flor da alegria, fragrância e desabrochar dos sentimentos.
Linguagem dos amantes, confidenciadora de segredos.
Mãe das lágrimas do amor oculto.
Inspiradora de poetas, de compositores e dos grandes realizadores.
Unidade de pensamento dentro dos fragmentos das palavras.
Criadora do amor que se origina da beleza.
Vinho do coração que exulta num mundo de sonhos.
Encorajadora dos guerreiros, fortalecedora das almas.
Oceano de perdão e mar de ternura.
Ó música!
Em tuas profundezas depositamos nossos corações e almas.
Tu nos ensinaste a ver com os ouvidos e a ouvir com os corações.

 

Gibran Kahlil Gibran

 6-12-1883 – 10-4-1931

O Príncipe dos Poetas Brasileiros

 
GUILHERME DE ALMEIDA  
 
Guilherme de Almeida (1890 - 1969)
 
       Um dos grandes destaques deste mês de julho é o nome de Guilherme de Almeida, o Príncipe dos Poetas Brasileiros. Nascido em 24 de julho de 1890, em Campinas, SP, foi uma personalidade de destaque nos meios intelectuais e sociais como poeta, jornalista, advogado, cronista, tradutor, além de desenhista e profundo conhecedor de cinema. Faleceu em 1969, em São Paulo, SP, também num mês de julho, no dia 11.
 
       É dele este belo soneto dedicado ao grande Anchieta:

Prece a Anchieta

Santo: ergueste a cruz na selva escura;
Herói: plantaste nossa velha aldeia;
Mestre: ensinaste a doutrina pura;
Poeta: escreveste versos sobre a areia!

 
Golpeia a cruz a foice inculta e dura;
Invade a vila multidão alheia;
Morre a voz santa entre a distância e a altura;
Apaga o poema a onda espumejante e cheia...

Santo, herói, mestre e poeta: — Pela glória
que deste a esta Terra e à sua História,
Pela dor que sofremos sempre nós.

Pelo bem que quiseste a este povo,
O novo Cristo deste Mundo Novo,
Padre José de Anchieta, ora por nós!

Fado

 

 

 

- Alma Portuguesa - 

                                        Entre as palavras pequenas

                                        De grande significado

                                        Com quatro letras apenas

                                        Emerge a palavra FADO!

O fado é toda a essência

É deste Povo a raiz...

O fado é por excelência

A canção do meu País.

Nós temos o fado na alma

Um fado que a vida adoça

E ninguém nos leva a palma

Nesta canção que é tão nossa.

Nós veneramos o fado

Quase como uma doutrina

Porque tange algo sagrado

Que a nossa alma ilumina.

(Fado)... Fado somos todos nós...

Pelo mundo em qualquer lado

Há fado na nossa voz...

Mesmo sem cantar o fado!...

Fado é a expressão maior

Que traduz subtileza

É o nosso Embaixador...

Fado... É a alma portuguesa!... 

* * *

Euclides Cavaco

"Ecos da Poesia" -

http://www.euclidescavaco.com

Um Poeta Português

 

Navegar pela internet é um exercício que, com freqüência, nos brinda com surpresas agradáveis. Leva-nos, muitas vezes, a páginas que naquele momento não estávamos procurando, mas que são exatamente as que já deveriam estar adicionadas aos nossos favoritos.

Foi assim que ontem descobri o saite "Ecos da Poesia", do poeta português Euclides Cavaco. Não vou tentar descrevê-lo mas garanto a vocês que é estupendo!

Estive lendo sobre a biografia de Cavaco, sobre as obras que publicou, e deliciei-me com mais de uma dezena de seus poemas que considerei verdadeiras preciosidades (Aquarelas de Lisboa, Pedaços do Meu País, Palavras ao Vento, Idílicas Ilhas, Tributo a Amália, Rua da Amendoeira, Tudo isto é Pátria...).

Cavaco nos fala de amizade, de ternura, de Pátria, de saudade, de seu Portugal, de Lisboa e dos Açores, e de fado – naturalmente! Mas fala principalmente de poesia. Por momentos, chegamos a imaginar, na sua página, o cheiro do mar, o murmúrio das ondas, o ruído das gaivotas. E podemos ouvir a música que nos chega d’Além Mar, os versos declamados pelo próprio Poeta e as canções que, por analogia, nos conduzem ao telurismo que a nós mesmos nos caracteriza.

Como de vezes anteriores, sempre que eu encontrar coisas bonitas, estarei compartilhando com vocês. Esta é uma delas. Por isto quero convidar a todos para que visitem o saite de Euclides Cavaco. (Seu "link" está incluído em nossa página, no módulo "SAITES BONITOS"). E, finalizando, mostro-lhes dois poemas que copiei de "Ecos da Poesia". Estou certo de que os apreciarão, tanto quanto eu.

Vando. 

 

- Folhas de Outono - 

"Folha de outono cadente

Pelo tempo colorida

Vais mudando lentamente

Como muda a nossa vida.

Verde foi teu nascimento

Viçosa na mocidade

E dançaste ao som do vento

Valsas de amor e saudade.

Foste beleza e frescura

Deste sombra, foste vida

Foste das aves ternura

Dando aos seus ninhos guarida.

Hoje num sopro és levada

E vemos qual abandono

Nossa vida retratada

Em cada folha de Outono!..."

 

- A Força dum nada -

"Fazem-se versos de um nada

Dos versos nasce um poema...

Surge d’âmago gerada

A Vida... num novo tema!...

São de palavras voando

Livres pelos Universos,

Que o poeta vai juntando

P’ra dar sentido aos seus versos

Em cortês galantear

Procurando sintonia

As palavras vão casar

Numa pefeita harmonia.

Tomam forma definida

Que o poeta lhes imprime

Dando vida à própria vida

Da forma mais sublime...

Vai-se um poema gerando

Do nada que enfim provém

Que nos deixa meditando...

Na força que um nada tem!..."

 

Euclides Cavaco – Membro da Associação Portuguesa de Poetas

 

O Saite do Poeta: - "ECOS DA POESIA" - http://www.euclidescavaco.com/

Rabindranath Tagore - Dois textos do Poeta

- Minha canção -

 

Rabindranath Tagore

Minha canção te envolverá com sua música, como os abraços sublimes do amor. Tocará o teu rosto como um beijo de graças. Quando estiveres só, se sentará a teu lado e te falará ao ouvido. Minha canção será como asas para os teus sonhos e elevará teu coração até o infinito. Quando a noite escurecer o teu caminho, minha canção brilhará sobre ti como a estrela fiel. Se fixará nos teus lindos olhos e guiará teu olhar até a alma das coisas. Quando minha voz se calar para sempre, minha canção te seguirá em teus pensamentos. 

- Aforismos -

 

Foto: Alex Sher (c) 2006 - Ukraine, Cloudy Kara-Dag View

Como as gaivotas e as ondas se encontram, nos encontramos e nos unimos.
Vão-se as gaivotas voando, vão pairando sobre as ondas; e nós também vamos.

Se de noite choras pelo sol, não verás as estrelas.

A luz do sol me saúda sorrindo.
A chuva, sua irmã triste, me fala ao coração.

Se faço sombra em meu caminho, é porque há uma lâmpada em mim que ainda não foi acesa.

Teu sol sorri nos dias de inverno de meu coração, e não duvido jamais das flores de tua primavera.

Quando o dia cai, a noite o beija e lhe diz ao ouvido:
'Sou tua mãe a morte, e te hei de dar nova vida'.

O mistério da vida é tão grande como a sombra na noite.

A ilusão da sabedoria é como a névoa do amanhecer.

Lemos mal o mundo, e dizemos logo que nos engana.

A borboleta conta momentos e não meses, e tem tempo de sobra.

Quando eu estiver contigo no fim do dia, poderás ver as minhas cicatrizes, e então saberás que eu me feri e também me curei.

Cada criança nos chega com uma mensagem de que Deus ainda não se esqueceu dos homens.

Elogios me acanham, mas secretamente imploro por eles.

Cecília Poema

 Suavíssima

- Cecília Meireles -

 

Foto do saite www.modernosdescobrimentos.inf.br/

*
Os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .
No céu de outono, anda um langor final de pluma
Que se desfaz por entre os dedos, vagamente . . .

Os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .
Tudo se apaga, e se evapora, e perde, e esfuma . . .

Fica-se longe, quase morta, como ausente . . .
Sem ter certeza de ninguém . . . de coisa alguma . . .
Tem-se a impressão de estar bem doente, muito doente,

De um mal sem dor, que se não saiba nem resuma . . .
E os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .

Os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .
A alma das flores, suave e tácita, perfuma
A solitude nebulosa e irreal do ambiente . . .

Os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .
Tão para lá! . . . No fim da tarde . . . além da bruma . . .

E silenciosos, como alguém que se acostuma
A caminhar sobre penumbras, mansamente,
Meus sonhos surgem, frágeis, leves como espuma . . .

Põem-se a tecer frases de amor, uma por uma . . .
E os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .

Amar a Vida

 

Místicas – 35

 

Seja meu amor pela vida uma oração perene de respeito à vida.

Fale, então, minha boca, palavras de ouro do louvor prudente.

Busquem minhas mãos ansiosas, braços de dor quebrados.

Pense minha mente, brandura, que lave o coração.

Cante minha alma a canção sem rima de adoração ao Bem.

Sofra meu corpo todas as dilacerações do uso grotesco do pecado, sem gozar nem pasmar.

Experimentem minhas alegrias a singeleza da ordem ritmada do equilíbrio.

Vejam meus olhos o mal, como o cego errante, sem o enxergar, e descubram a virtude, com o inquieto brilho da criança trêfega.

Perceba meu olfato o cheiro ondulante da exemplificação.

Ofereço meus cuidados a limpar os pés dos dias, em sinal de respeito, quando me deitar na alcatifa da noite, postando-me em devoção.

Seja o meu amor à vida uma oração de respeito à vida, para que, na encarnação futura, o meu amor seja a própria vida.

Rabindranath Tagore

* * *

Foto: Rabindranath Tagore

Um pouco de poesia

A ARCA DE NOÉ


Sete em cores, de repente
O arco-íris se desata
Na água límpida e contente
Do ribeirinho da mata.
 
O sol, ao véu transparente
Da chuva de ouro e de prata
Resplandece resplendente
No céu, no chão, na cascata.
 
E abre-se a porta da Arca
De par em par: surgem francas
A alegria e as barbas brancas
Do prudente patriarca
 
Noé, o inventor da uva
E que, por justo e temente
Jeová, clementemente
Salvou da praga da chuva.
 
Tão verde se altéia a serra
Pelas planuras vizinhas
Que diz Noé: "Boa terra
Para plantar minhas vinhas!"
 
E sai levando a família
A ver; enquanto, em bonança
Colorida maravilha
Brilha o arco da aliança.
 
Ora vai, na porta aberta.
 De repente, vacilante
Surge lenta, longa e incerta
Uma tromba de elefante.
 
E logo após, no buraco
De uma janela, aparece
Uma cara de macaco
Que espia e desaparece.
 
Enquanto, entre as altas vigas
Das janelinhas do sótão
Duas girafas amigas
De fora a cabeça botam.
 
Grita uma arara, e se escuta
De dentro um miado e um zurro
Late um cachorro em disputa
Com um gato, escouceia um burro.
 
A Arca desconjuntada
Parece que vai ruir
Aos pulos da bicharada
Toda querendo sair.
 
Vai! Não vai! Quem vai primeiro?
As aves, por mais espertas
Saem voando ligeiro
Pelas janelas abertas.
 
Enquanto, em grande atropelo
Junto à porta de saída
Lutam os bichos de pelo
Pela terra prometida.
 
"Os bosques são todos meus!"
Ruge soberbo o leão.
"Também sou filho de Deus!"
Um protesta; e o tigre - "Não!"
 
Afinal, e não sem custo
Em longa fila, aos casais
Uns com raiva, outros com susto
Vão saindo os animais.
 
Os maiores vêm à frente
Trazendo a cabeça erguida
E os fracos, humildemente
Vêm atrás, como na vida.
 
Conduzidos por Noé
Ei-los em terra benquista
Que passam, passam até
Onde a vista não avista.
 
Na serra o arco-íris se esvai . . .
E . . . desde que houve essa história
Quando o véu da noite cai
Na terra, e os astros em glória
 
Enchem o céu de seus caprichos
É doce ouvir na calada
A fala mansa dos bichos
Na terra repovoada.
 
(Vinícius De Moraes)
 

Um soneto do Poeta-Menino

 

Recordo ainda

Recordo ainda... e nada mais me importa...
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre, de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta...

Mas veio um vento de Desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança...

Estrada afora após segui... Mas, ai,
Embora idade e senso eu aparente
Não vos iludais o velho que aqui vai:

Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino... acreditai!...
Que envelheceu, um dia, de repente!...

* * *

 

Mário Quintana
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