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UM DIA... UM TEMPO
Quem disse que eu mudei?
Não importa que a tenham demolido:
a gente continua morando na velha casa em que nasceu.
(Mário Quintana)
Faz pouco que voltei lá. Contudo, não mais encontrei o que procurava.
Quanta melancolia! Da velha casa nenhum vestígio. Nem ruínas. Nem fantasmas. Apenas um terreno vazio, abandonado, precariamente protegido por uma cerca de arame e algumas tábuas. Tudo deserto. Sem cuidados. Alguns monturos com restos de sucatas que nem de lixo podem ser chamadas. Só.
Fazia tanto tempo!... Mais de sessenta anos!
O que foi feito da “minha” casa? Da antiga construção mista de madeira e alvenaria, que tinha sacadas, sótão, porão, - o que sobrou? A água vinha de um “algibe”, como se denominava o reservatório que ficava próximo à parede que dava para a cozinha. Na porta interna da sala grande, de jantar, que dava acesso aos demais cômodos, um antigo “reposteiro” (1), herança de família desde tempos imemoriais.
Onde foram parar as duas palmeiras altas que adornavam a escadaria da entrada? E a paineira, que na época da floração cobria-se de cor-de-rosa para algum tempo depois tornar-se toda branca quando as bolotas de algodão se abriam? E o pomar onde abundavam peras, maçãs, caquis, laranjas, bergamotas? E o “meu” arroio que corria, límpido e reluzente, lá no fundo do quintal, cortando as demais propriedades vizinhas? Onde esconderam, de mim, tudo isto?
Perguntas. Muitas. Sem respostas.
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Dona Maria do Mato morava numa construção tosca, no morro, lá no alto, junto à pedreira. Eu nunca soube como é que se ia até lá nem como ela fazia para nos visitar. Seria uma bruxa? Ou uma fada, disfarçada de anciã simpática? Pelo que sei, fazia de tudo: de parteira a lavadeira. Todos a conheciam, mas não sabiam de onde viera.
“Seu” Carlinhos, o dono do armazém ao lado, onde eu comprava guloseimas como as balas “Brocoió”(2), anotava tudo num caderno seboso que o pai pagava religiosamente no sábado, quando voltava do trabalho "no Schapke" (3).
Junto à cerca que delimitava o quintal comprido, havia uma figueira. Majestosa. Logo que nos mudamos para lá eu tinha medo dela, pois se enroscara num butiazeiro e os adultos diziam que ela era assassina. Um dia venci o medo. Aos poucos fui me aproximando. Com algum receio, a princípio. Depois, subi nela. Trêmulo. Cheio de cuidados e expectativas. Penso que simpatizou comigo pois me aceitou e desde então nos tornamos amigos.
E havia pitangas. E amoras e guabirobas para colher e comer à vontade.
Na frente, do outro lado da rua, um terreno baldio. Sem muros ou cercas. Mas era limpo. A gente chamava de “mato”, embora fosse amplo, aberto, com muitos arbustos e grama baixa, onde se podia brincar. Nas noites de verão infestava-se do pisca-piscar de vagalumes que eu prendia em garrafas só para fazer de “lanterna”.
Havia o voejar das borboletas e libélulas. Cantos de cigarras e de passarinhos. E relva orvalhada pelo sereno e cheiro de terra molhada quando chovia.
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Um dia o padre da Paróquia de Nossa Senhora da Saúde (4), ganhou uma cabrita, presente de um paroquiano. Como guardar o “mimo” na sacristia? Num domingo, depois da missa, conversava com meu pai. Eram amigos há bastante tempo. “Preciso que me faças um favor, Romeu. A tua casa é grande e tem um bom pátio. Será que poderias ficar com a cabrita, por uns tempos, até que eu a leve para a chácara?”
Lá pelas tantas, o “seu” Romeu chega em casa com a cabrita a cabresto. “Como é mansinha!” – exclamou minha irmã, então com uns cinco ou seis anos. “Posso brincar com ela!?”...
...............
No sótão guardavam-se velharias. Muitos livros e jornais antigos onde eu aprendi a gostar de ler. Na maior parte tempo era o meu refúgio - um templo sem oração mas impregnado de magia. O porão, por sua vez, era alto, espaçoso, sempre limpo e bem cuidado mesmo sendo depósito de quinquilharias com as quais brincávamos quando chovia.
No quintal erguia-se um forno de lenha. Nele a mãe e as avós faziam pão que se comia com goiabada, manteiga, queijo feito em casa e café passado em coador de pano no bule de louça águeda.
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Dias depois a cabrita já era membro da família. Andava por toda a casa sem qualquer constrangimento. No pomar empanturrava-se com todas as frutas que encontrava. Suas preferidas, porém, eram as peras, que comia até ficar triste.
Uma tarde, a mãe e a vó preparavam um monte de peras para fazer doce. Era fim de semana, ou feriado, pois o pai estava em casa e observava o trabalho que elas executavam compenetradas. Minha irmã, ao seu lado, também. Nisto, olharam-se. Olharam para as peras e depois para a cabrita, que rondava com olhar cobiçoso. Como por telepatia, seus pensamentos se cruzaram. Minutos depois a cabrita deliciava-se com uma bandeja de peras... açucaradas! Lambia os beiços enquanto trocava com os dois, olhares da mais comovida gratidão. Uma cena emocionante!
Desnecessário é dizer que a partir daquele dia a nossa cabrita passou a rejeitar definitivamente as peras in natura. Só comia se fossem com açúcar.
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Hoje a casa, as palmeiras, a paineira e a escadaria não passam de imagens etéreas retidas em algum recanto da alma.
Não há mais mato, nem pitangas, nem amoras. A figueira e o butiazeiro, assim como as libélulas e os vagalumes, são apenas sonhos que, efêmeros, se dissipam, a cada lembrança, como névoa ao amanhecer de novo tempo. Passarinhos e cigarras já não cantam nem o orvalho enverniza de brilho a relva macia de antigamente, que virou sarça.
Cada reminiscência é uma sucessão de retratos esmaecidos e deteriorados, resgatados de velhas e bolorentas caixas de sapatos remanescentes na memória.
Tudo foi reduzido a um sítio melancólico impregnado de miasmas indeléveis; transformado em sombrio monumento a uma história bonita que o tempo, em sua trajetória implacável, se encarregou de interromper e que os homens foram incapazes de dar continuidade.
Ao chegar lá deparei-me com uma nova realidade. Descobri que, além do pai, da avó, do padre e sua cabrita, também não existem mais nem dona Maria do Mato nem o seu Carlinhos. Deles todos resta, apenas – e tão somente – uma imensa, uma indefinível e dolorida saudade.
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Por que estou contando isto? O que me levou a fazê-lo?
Tomei tal decisão depois que conheci uma pessoa especial. Aliás, não só uma pessoa, mas uma família. Pessoas belíssimas. Gente que também tem histórias para contar. Que guarda, num coração imenso, um carinho inexcedível pelos antepassados e pelos amigos. E que como eu tenta preservar a instituição mais agredida, dentre todas, neste nosso mundo “avançado” e “moderno”: a Família.
O que precipitou este encontro foi o fato deles morarem, há muitos e muitos anos, ali, bem pertinho de onde eu morei, no bairro Nonoai, que no “meu” tempo era, também, Teresópolis.
Sem o saberem, proporcionaram-me a oportunidade de viver uma autêntica terapia de regressão ao passado, que me fez um bem incalculável.
Nosso conhecimento foi possível graças à internet, através de meus blogues, depois de correspondência que recebi.
Foi com o Seu Nuno e sua maravilhosa prole que a saudade mexeu fundo comigo. Receberam-me em sua casa com uma fidalguia inigualável. Deles ouvi relatos fabulosos. Aprendi coisas que nem nas bibliotecas, arquivos públicos ou sites de pesquisa eu conseguia encontrar.
Juntos remexemos os baús de nossas recordações e reavivamos episódios e paisagens que ainda permaneciam, embora amarelecidos, nos arquivos de nossas memórias. E daí a voltar à casa da infância longínqua, em busca de alguma raiz que lá tivesse ficado, foi questão de poucos dias.
E é a eles que eu dedico este “Meu Tema Preferido” de hoje, repleto de emoção e sentimento. Pelo que deles recebi, jamais, certamente, poderei pagar.
De tudo, fica em mim uma certeza: a de que eu não estou só na minha crença de que preservar a nossa história e render gratidão e respeito aos antepassados é mais do que dever – é questão de sobrevivência.
Muito obrigado, seu Nuno. Muito obrigado, Márcia e José. Que bom – que bom, mesmo – que vocês existem!
Vando
* * *
(1) Reposteiro – era o nome que se dava às cortinas pesadas, muito comuns nas casas antigas.
(2) Brocoió – Nome, ou marca, de umas balas bastante saborosas, apesar de um pouco duras (alguns chamavam, se lembro bem, de “quebra-queixo”) que traziam no invólucro figuras de um caipira (o “Brocoió”), que colecionadas formavam uma história, narrando as aventuras do personagem.
(3) "no" Schapke –Trata-se da Livraria Schapke. Era lá que meu pai, o “seu” Romeu, trabalhou como encadernador, até se aposentar. Quando se falava sobre a empresa, dizia-se "no". Ficava na Av. Cristóvão Colombo 1907, local onde hoje está em construção o "Floresta Shopping Center".
(4) Estou quase certo de que o padre da Igreja N. S. da Saúde, que menciono, é o Padre Afonso. Não lembro todo o nome, mas creio que era Afonso Witt, ou algo assim. De início ocorreu-me que seria o "Padre Pedro" (depois, Monsenhor André Pedro Frank), mas este, logo constatei, esteve na Paróquia bastante tempo antes dessa época. Gostaria que alguém que o(s) conheceu e pudesse dar-me maiores subsídios, entrasse em contato. Ficarei muito grato.
Epígrafe: Quem disse que eu mudei? – Mário Quintana, em “Preparativos de Viagem”, página 15, Editora Globo, RJ, 1989, 2ª Edição
Ilustração: Quadro “Escada de Casa Antiga” – Pintura em acrílico de “Selvagem”
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VILA NOVA
Pequena história de um bairro bonito
(1)
Dentre os diversos temas que tenho rabiscados para esta série, faltando só pequenas correções, escolhi para hoje este, que trata de um bairro pelo qual tenho um carinho muito especial.
Sei que muitos vão me chamar de "bairrista", pois, por coincidência – apenas "coincidência" – eu moro na Vila Nova. E já faz algum tempo. Vinte e oito anos, para ser mais exato.
Gosto daqui. Mesmo passando por transformações visíveis, que vão lhe dando ares "civilizados", a Vila Nova guarda muito dos tempos primitivos. Aqui ainda se vêem paisagens verdes. Ouve-se cantoria de passarinhos. Respira-se ar puro. As pessoas se conhecem e cumprimentam-se, alegres. Até ao tomarem o ônibus, todos dizem "bom dia!", "boa tarde!", "boa noite!" ao motorista e ao cobrador, que retribuem sempre com amabilidade, quando não são, eles próprios, a tomarem a iniciativa. E mais uma particularidade que vocês não vão acreditar: ainda existem armazéns (e até um super-mercado!) que vende fiado, anotando num caderno todo seboso as compras da clientela. E, o mais incrível, ainda: os clientes... pagam!
É demais, não acham?
Mas, vamos ao tema, propriamente dito.
A Vila Nova tem aproximadamente 116 anos. (Desses, quase trinta são meus). Começou a ser habitada a partir de 1893, quando aqui chegaram os primeiros imigrantes italianos. Eles vinham de diversas regiões da Itália, mas principalmente de Mantova e Cremona, na Lombardia e Trento, no Trentino-Alto. Eram, em sua maioria, famílias de agricultores que instalando-se aqui, foram adquirindo áreas de terra e implantando chácaras, passando a cultivar pêssegos, ameixas, peras, verduras e videiras. Estas, de excelente qualidade, começaram a ser utilizadas na produção de vinho que logo teve boa aceitação, sendo comercializado não só no Rio Grande do Sul, como expandindo sua venda para o Rio de Janeiro e São Paulo.
Com muito trabalho e esforço coletivo, a nova vila – já então conhecida como "Colônia Vila Nova d'Italia" – muito distante da área urbana da Cidade, ainda de difícil acesso e parcos recursos – foi crescendo. Já em 1897, quatro anos após a chegada dos primeiros colonizadores, os novos porto-alegrenses criaram uma escola. Consta que a atual Escola Alberto Torres, na Av. Rodrigues da Fonseca, originou-se dela. Ainda não confirmei, mas pretendo pesquisar.
Católicos fervorosos, edificaram, tempos depois, isto é, em 1906, uma pequena capela, a partir da qual se originou a atual Igreja de São José da Vila Nova, ali na esquina da Vicente Monteggia com a Rodrigues da Fonseca.
Com o passar do tempo a economia da Vila foi se tornando importante fator de crescimento, daí surgindo a necessidade de criação de novos recursos que pudessem impulsionar o progresso que já se mostrava irreversível. Então foram criadas em 1911 uma Caixa de Crédito Rural e a Cooperativa Agrícola.
Desde a sua implantação, a "Colônia Vila Nova d'Italia" tem mostrado a sua pujança. Já em 1898 um dos pioneiros do bairro, Vicente Monteggia, tornou-se responsável pela construção de um moinho para produzir farinha de milho. O estabelecimento localizava-se junto à casa que serviu de residência para a Família, e da qual, atualmente, vemos, com muita mágoa, apenas ruínas que, ainda assim, atestam a beleza e a harmonia, embora singelas, da obra. (Logo, logo, estes vestígios devem desaparecer, pois a área está à venda e a deterioração do imóvel é uma realidade incontestável).
O Moinho de Monteggia ficava à margem esquerda do Arroio Cavalhada, que passava junto ao terreno, sendo represado para que suas águas dessem energia para o acionamento da turbina hidráulica.
A partir de 1912, foi criada na Estrada de Belém Velho, uma linha ferroviária que passava pela Vila Nova. O "seu" Flávio, um dos meus bons amigos e vizinho, nascido na Vila Nova há quase oitenta anos, e nela criado, conta que essa linha férrea acompanhava o traçado do que atualmente são as Avenidas Rodrigues da Fonseca, João Salomoni, seguia mais ou menos paralelamente o Arroio Cavalhada e ia até o Cristal, nas proximidades do Jóquei Clube.
(2)
Hoje a Vila Nova conta com uma porção de outros "bairros" em sua área. São diversos condomínios construídos em anos mais recentes. Entre estes, está o "Jardim Salomoni", localizado em área adquirida da tradicional Família Salomoni e adjacente à dos Stringhini, família também descendente dos primeiros colonizadores. Sua localização é privilegiada. A frente original fica na Rua João Salomoni que vem a ser paralela a duas ruas internas: Rua Otaviano Pinto Soares e Rua Dr. Pio Fiori de Azevedo. Ao centro, conta com a movimentada Rua Joaquim de Carvalho, recentemente ampliada até à Av. Monte Cristo, dando acesso ao novíssimo hiper-mercado BIG, localizado na Avenida Eduardo Prado. Para este local, está projetada a construção – já em fase adiantada – de novos conjuntos residenciais da Cooperativa Geraldo Santana e de um novo e grandioso Shopping Center a ser edificado ao lado do hiper-mercado.
É importante assinalar, também, que o Jardim Salomoni possui uma bonita e extensa praça – a Praça Prof. Emílio Mabilde Ripoll – onde os moradores se reúnem aos finais de tarde e nos fins de semana para um agradável bate-papo e as crianças se divertem na "pracinha" que conta com balanços, escorregador e outros equipamentos. No Conjunto encontra-se também a Escola Municipal de Educação Infantil Jardim Salomoni – EMEI que iniciou suas atividades a partir de 1989.
Eu teria muitas outras coisas para contar sobre a Vila Nova, mas o espaço não comporta tema tão extenso. Para fazê-lo, teria que ser mais ou menos como quando lhes contei sobre "Santa Maria e eu", lembram? - que publiquei em 6 de maio do ano passado, e tive que dividir em nove capítulos. Mas pretendo retomar o assunto, mais adiante. Vocês concordam em esperar?
Então, aguardem. Qualquer dia eu volto.
Vando.
- Fotos minhas:
(1) Vista parcial do Jardim Salamoni, através da Praça.
(2) Praça Prof. Emílio Mabilde Ripoll |
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PORTO ALEGRE, 237 ANOS
Nossa Cidade está em festa. Nós estamos felizes. Porto Alegre completa neste dia 26 de março de 2009, seus 237 anos.
Seus primórdios, todos conhecemos: a colonização do "Porto de Viamão" por Jerônimo de Ornellas Menezes e Vasconcelos, português proveniente da Ilha da Madeira, recebendo a Carta de Sesmaria em 5 de novembro de 1740; a contratação, pelo governo português, de Feliciano Velho Oldenberg, em 1747, para intensificar o povoamento do Continente de São Pedro com a vinda dos imigrantes; a chegada dos casais açorianos em 1752 dando origem ao chamado "Porto dos Casais"... Então, a construção da primeira capela no arraial, dedicada ao padroeiro São Francisco de Assis. Depois, em 1772, a desapropriação da sesmaria que Jerônimo de Ornellas vendera em 1762 para Inácio Francisco sendo, no dia 26 de março, criada a freguesia de São Francisco do Porto dos Casais através de carta pastoral de Dom Antonio do Desterro, na época bispo do Rio de Janeiro, e da qual o Padre José Gomes de Faria tomou posse no dia 25 de setembro.
Já em 1773, a nossa Capital recebe o nome de Nossa Senhora Madre de Deus de Porto Alegre, no dia 18 de janeiro. Pela primeira vez Porto Alegre passa a ser chamada de... Porto Alegre! Oficialmente. Definitivamente.
A partir daí muitas coisas mudaram. Veio o progresso. A Cidade cresceu em todos os sentidos. A população aumentou. Abriram-se estradas, caminhos, novas ruas e avenidas. Aos poucos veio o saneamento. Erigiram-se templos e igrejas, como a Igreja do Menino Deus e a Igreja do Rosário. Construíram-se a "entrada da Cidade" - Praça do Portão - e parques, como a Redenção, na antiga Várzea, e a Praça da Matriz que, logo, abrigou o belíssimo e inesquecível Auditório Araújo Viana. Fundaram-se o Colégio Militar, faculdades e escolas que se transformaram em Universidades. Vieram os bondes, a energia elétrica, a Usina do Gasômetro, o telégrafo. Houve exposições internacionais e Congresso Eucarístico. Edificaram-se "arranha-céus", pontes, como a da Azenha, e viadutos. Vieram os mercados, cinemas, os teatros, os cafés, a vida urbana, noturna e mundana. Fundaram-se jornais, emissoras de rádio, grandes lojas e "magazines". Surgiu a "Galeria Chaves", o "footing" na Rua da Praia, a Casa Victor, o Bromberg, a Confeitaria Rocco, o cinema Castelo. Ah! também nasceram o Jóquei Club, a Sogipa, os clubes náuticos, o Grêmio Porto-Alegrense e o Sport Club Internacional, além do Cruzeiro, do Renner, do Nacional, do São José, do Força e Luz... E a "OSPA", Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, um orgulho para a Cidade. Nada, necessariamente, nesta ordem, mas cada uma a seu tempo, conforme as novas necessidades de uma metrópole que nascia e florescia a cada novo dia.
Hoje, não temos mais as grandes lojas e magazines, nem os tradicionais cafés (embora tenhamos muitos novos) que eram a delícia das damas elegantes e local de encontro dos cavalheiros de antanho. Em compensação, temos o "anexo" ao Theatro São Pedro, obra magnífica que se deve, principalmente, ao trabalho hercúleo de uma pequena e frágil mulher, chamada Eva Sopher. Dona Eva Sopher! Temos os "shoppings" - muitos - que são a delícia da juventude atual, repletos de diversões, comércio intenso de equipamentos de informática, jogos eletrônicos, dezenas de cinemas, boliches e uma parafernália de dar água na boca. Temos restaurantes monumentais, entre eles muitos remanescentes centenários dos "bons tempos".
Contamos com um aeroporto belíssimo que está sendo ampliado, linha de metrô que também está sendo ampliada e em vésperas de receber novo ramal, extensos e agradáveis parques públicos, marinas, imensas e bem iluminadas avenidas, a Catedral Metropolitana enfim concluída (ufa!) e uma infinidade de outras instituições, bens públicos e privados, logradouros, pontos para entretenimento, recursos de saúde (Hospitais de altíssimo nível, como o de Clínicas, O São Lucas, da PUC, o complexo da Santa Casa com uma dezena de clínicas e hospitais concentrados numa área comum, Mãe de Deus e muitos outros que chega a ser difícil de relacionar).
Nosso transporte público urbano é de alta qualidade, feito por ônibus novos (frotas periodicamente renovadas, de empresas tradicionais reunidas em consórcios, além da empresa Carris Porto-Alegrense), mais de quatro mil táxis todos novos, com ar condicionado, telefone, rádio e dirigidos por motoristas bem treinados para o atendimento à população e aos turistas (na frota do Aeroporto, todos os taxistas falam pelo menos, também, espanhol e inglês).
Claro que nem tudo é maravilhoso, deslumbrante, perfeito, irretocável, como pode parecer quando menciono o que temos de bom. Seria uma mentira fazer tal afirmação, pois temos também muitas mazelas. E quantas!... Há ainda pobreza - e muitos pobres, indigentes, mesmo. Há muitos problemas sociais graves: droga, prostituição, vandalismo, desrespeito aos bens públicos, crianças sem escola, doentes em filas aguardando atendimento, pessoas sem emprego, sem moradia... É uma realidade dolorosa, diante da qual em nada nos consola dizer que, afinal, isto não é privilégio nosso, pois outras cidades do Brasil e do mundo, mesmo os países mais prósperos, também enfrentam, o que é absolutamente verdadeiro. O fato é que temos isto, que já cansamos disto e que não queremos mais isto. Mas almejar, somente, não resolve. Nós não podemos ficar indiferentes, de braços cruzados, à espera de que a salvação caia dos céus como o maná.
Felizmente, Porto Alegre é uma Cidade fraterna e as pessoas - como grande parte dos agentes públicos - se sensibilizam e buscam soluções. Interessam-se. Ajudam. Reúnem-se em clubes, associações, escolas, entidades filantrópicas, igrejas, centros espíritas (estes, de forma exemplar), creches comunitárias, asilos, albergues. Atuam até individualmente, como em centenas de casos bem conhecidos. Com este trabalho dedicado e incansável, muitos daqueles problemas vão sendo minimizados, atenuados, solucionados. Projetos oficiais e iniciativas de empresas se multiplicam e com freqüência obtêm resultados positivos surpreendentes.
Queiramos ou não, estamos inseridos num mundo ao qual chamamos "moderno" - globalizado, heterogêneo, complicado, competitivo, desumanizado em muitos casos. E desumanizado, não, talvez, diretamente por nossa culpa, embora reconheçamos que a nossa atuação nesse mundo precisa ser sempre cautelosa para que não venhamos a recair em erros pretéritos que seguramente cometemos. Mas chegamos até aqui com muito esforço, idealismo e boa-vontade, principalmente a vontade de acertar e de fazer o melhor. Nós, porto-alegrenses, se não alcançamos ainda a "santidade" (e não me parece que a alcançaremos tão cedo, é óbvio, além do que nem nos move tal pretensão) somos, na quase totalidade, ordeiros, cultos, trabalhadores, solidários, hospitaleiros, amantes da alegria, da paz e das coisas boas. Quem nos conhece sabe disto.
Hoje não somos mais apenas os descendentes diretos dos casais açorianos e dos povos que vieram da África para construírem esta Cidade linda. Agora, descendemos também de outros europeus (italianos, alemães, poloneses...), de asiáticos (japoneses, coreanos, chineses...) e de imigrantes de todos os lugares do Estado, do Brasil e de outras partes do mundo, que vieram nos enriquecer com os seus talentos, habilidades, costumes e cultura. Trabalhamos, estudamos, nos divertimos; temos os nossos problemas (e quem não os têm?) e aceitamos os desafios, como nos casos que mencionei em parágrafo anterior. Mas, acima de tudo, temos fé, amamos a nossa Cidade e às pessoas e procuramos ser felizes. E, de alguma forma, conseguimos.
Resumindo, Porto Alegre é isto – e muito mais, que não cabe numa crônica, num compêndio e nem mesmo, certamente, numa enciclopédia, pois sentimentos são impossíveis de transcrever em livros.
Por isto, em vez de continuar tentando descrevê-la, o melhor é encerrar por aqui, dizendo apenas que a amamos. E dando-lhe o nosso abraço – fraterno? amigo? filial? Não importa. Seja como for, ela merece, nesta data que é dela e que é nossa, pois também faz parte de nossa história pessoal e dos nossos sonhos e anseios mais profundos.
Feliz Aniversário, Porto Alegre!
Vando
Ilustrações: - "Mosaicos 1, 2, 3"- Fotos minhas |
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AS ILHAS DO GUAÍBA
Poucas vezes nos damos conta de que o nosso Rio Guaíba (e não "lago" Guaíba, como algumas sumidades "engajadas" adotaram como forma "politicamente correta", e contra a qual eu me insubordino intransigentemente) abriga nada mais nada menos do que trinta ilhas.
O Rio Guaíba começa a se formar a partir do Rio Taquari, que vem se somar aos rios Caí, Jacuí, Sinos e Gravataí, formando o que se chama de Delta do Jacuí. Este "delta" abrange, além de Porto Alegre, os municípios de Eldorado do Sul, Canoas, Triunfo, Nova Santa Rita e Charqueadas.
Pois é no "delta" que se situa o Rio Guaíba e suas 30 (TRINTA!) ilhas. Algumas delas são bem extensas, como a Ilha Grande dos Marinheiros, a Ilha do Lage, a Ilha das Flores e a Ilha da Pintada (as quatro maiores). Depois vêm outras com menor extensão: a Ilha da Casa da Pólvora, a Ilha do Pavão, a Ilha das Garças e Ilha do Humaitá. As duas dezenas restantes são ilhas bem pequenas. Chega-se a elas por meio de barcos, mas as ilhas Grande dos Marinheiros, do Pavão, das Flores e da Pintada também podem ser acessadas via rodoviária, pela Ponte do Guaíba. A soma de suas populações fixas é relativamente pequena: mais ou menos 15.000 habitantes. Entre uma e outra há muitos canais, pântanos e charcos.
- Foto: Roberto Rosa -
Andei pesquisando um pouco sobre nossas ilhas e os seus habitantes, o que me ajudou a descobrir algumas particularidades que nem sempre percebemos. Estamos acostumados a ver as ilhas de certa distância. Já estive em algumas delas. Pelas maiores, também já passei algumas vezes, navegando no "Cisne Branco" e no "Noiva do Caí". Deixo a vocês uma sugestão: vão até a Ilha da Pintada e deliciem-se com o "peixe na taquara", uma das preciosidades gastronômicas locais. É coisa digna de reis.
- Peixe na taquara - Foto: Prof. Rogério Ribeiro -
As condições urbanas variam bastante de uma ilha para outra, assim como as "classes" das pessoas que as habitam. Na Ilha Grande dos Marinheiros e na Ilha da Pintada, os moradores se dividem, basicamente, em duas categorias:
1) Os permanentes. São os primitivos, que viviam inicialmente do cultivo de arroz, frutas, verduras e da pesca, abundante em todo o Delta. A grande maioria atual faz parte das colônias de pesca e participa da vida comunitária, clubes de mães, etc. Moram em residências que se, por um lado, não são luxuosas, por outro são bastante decentes e confortáveis. São casas geralmente bonitas, limpas, algumas bastante graciosas e de visual agradável. Há boa infra-estrutura urbana, jardins, ruas calçadas e pavimentadas, praças bem conservadas, logradouros aprazíveis, linhas de ônibus urbanos, escolas até o nível de 2º grau, clubes, bons – apesar de poucos - lugares para refeições típicas e lojas de artesanato e bijuterias.
- Sede da Colônia de Pescadores Z-5 - Foto: Roberto Rosa -
2) os moradores de fim-de-semana – pessoas de alto poder aquisitivo, industriais, comerciantes, profissionais liberais, artistas, que possuem belíssimas residências com ancoradouros, clubes particulares e tudo o mais.
Quanto à Ilha das Flores, esta é a "filha pobre" do nosso Delta. Entre seus habitantes predominam favelados, "papeleiros", pessoas pobres, quase indigentes, que vivem do recolhimento e reciclagem de lixo, moram, via de regra, em casebres miseráveis e têm uma vida bastante penosa. São as que mais sofrem na época das chuvas, perdendo, via de regra, tudo, ou quase tudo, do muito pouco que têm. Embora esta realidade degradante, nela há também algumas comunidades um pouco mais privilegiadas, com residências melhores - ou "menos piores" - mas seu nível não chega a ser muito mais elevado do que o dos demais moradores.
Relaciono, a seguir, de forma aleatória, as trinta ilhas, com as características que pude pesquisar. Nas sete primeiras descrevo as anotações mais importantes relativas a cada uma. Para as demais, agrupadas, a partir da oitava – Ilha das Balseiras – não encontrei anotações que merecessem destaque:
1) ILHA DA CASA DA PÓLVORA - Nesta Ilha encontra-se o Eco-Museu da Ilha da Pólvora no qual são desenvolvidos diversos trabalhos científicos de graduação e pós-graduação, dentre os quais, se destacam estudos sobre a vegetação, os crustáceos, as aves e os roedores. Além disso, o CEFAM (Centro de Educação e Formação Ambiental Marinha) utiliza a área da Ilha da Pólvora para realizar, periodicamente, atividades práticas de educação ambiental.
2) ILHA DAS FLORES - Catadores e recicladores de lixo são a maioria de seus habitantes. O que a salva é a bonita vista que se vê da Cidade.
3) ILHA GRANDE DOS MARINHEIROS - "Moradores de fim-de-semana". Casas luxuosas. Clubes.
4) ILHA MAUÁ - Aqui fica a sede do projeto Pró-Guaíba, com laboratório e alojamento para pesquisadores.
5) ILHA DO PAVÃO – Algumas praias interessantes. Boas áreas para camping. Nela se localiza uma das sedes do Grêmio Náutico União.
6) ILHA DA PINTADA - Habitada por descendentes dos imigrantes açorianos que vieram para cá a partir do século XVIII. São os "primitivos" habitantes que, no início da colonização produziam frutas, leite, verduras e se dedicavam à pesca que abastecia a Cidade. É a que mais se destaca pela excelente infra-estrutura e pelo cultivo das tradições culturais herdadas pelos antepassados. É aqui na "Pintada", também, que se come o famoso "peixe na taquara". É a Tainha na Taquara, servida no restaurante da Colônia de Pescadores. Pura delícia!
7) ILHA DA CASA DA PÓLVORA - Possui um acervo de prédios datados de 1852. Ali já foi presídio, quartel, paiol (motivo, eu acho, do nome, "casa da Pólvora") estando os prédios atualmente restaurados, abrigando exposição permanente de aquários, peixes e exemplares diversos da flora e da fauna local.
- Foto: Marco Varnieri -
8) Ilha das Balseiras, 9) Ilha Cabeçuda, 10) Ilha do Chico Inglês, 11) Ilha do Cipriano, 12) Ilha do Corumbé, 13) Ilha da Figueira, 14) Ilha da Formiga, 15) Ilha do Furado, 16) Ilha das Garças, 17) Ilha Grande do Lopes, 18) Ilhas do Humaitá, 19) Ilha do Lage, 20) Ilha Leopoldina, 21) Ilha do Lírio do Cravo, 22) Ilha da Maria Conga, 23) Ilha Nova, 24) Ilha do Oliveira, 25) Ilha Pinto Flores, 26) Ilha das Pombas, 27) Ilha Ponta Rasa, 28) Ilha do Serafim, 29) Ilha dos Siqueiras e 30) Ilha da Virgínia.
Vocês, extremamente exigentes e detalhistas, como sei que são, por certo vão detectar inúmeras falhas e lacunas na minha matéria. Que bom! Assim, ficarei sabendo que a leram e que ela mereceu atenção. Além disto, poderão me ajudar com informações complementares e as correções que se fizerem necessárias.
Naturalmente vão me perdoar, pois não pretendi fazer um estudo científico sobre o assunto nem defender nenhuma tese de doutorado. Quis apenas falar, mais uma vez, sobre o "meu tema preferido" que versa sempre sobre a nossa "Leal e Valerosa Cidade", a nossa Porto Alegre que podemos observar e apreciar a partir de incontáveis perspectivas, oferecendo-nos, de cada vez, um ângulo inédito do qual possamos melhor conhecê-la e dela nos tornarmos mais e mais apaixonados.
Vando
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As fotografias que ilustram este "Meu Tema Preferido" pertencem ao site "CÂMERA VIAJANTE".
É um bonito site que vale uma visita. Ou mais.
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REMINISCÊNCIAS
Semana passada bateu a saudade. Quem é que já não sentiu isto? Pois, comigo, também aconteceu.
Vocês sabem que estou empenhado em reconstituir a “árvore genealógica” da Família. Assim, andei procurando nas minhas velharias algum documento, ou foto, que me ajudasse a redigir biografias ou ilustrar um ou outro perfil.
Não encontrei nada relevante. Em compensação, ao abrir uma caixa de papelão amarelada, encontrei algumas fotografias. Olhando para elas, muitas lembranças afloraram à minha memória e, com elas, a danada da saudade a que me referi.
São fotos de um tempo gostoso, quando muitos sonhos alimentavam os ideais daqueles que recém estavam migrando da adolescência para a "vida adulta” – como era o meu caso. Foram tiradas no final dos anos 1950, na Vila do IAPI. Mais precisamente, lá por 1958, no máximo. (Vejam que não é tão "precisamente" assim. Mas isto não vem ao caso).
A foto acima não estava na caixa, mas em meus arquivos em CD. Faz uns dois anos, pouco mais, talvez, que eu a escaneei do livro “Vila do IAPI”, pertencente à série “Memória dos Bairros”, editado pela Secretaria Municipal da Cultura em 1991. Ela mostra a antiga “Capela de Nossa Senhora de Fátima”, na Viela São Braz, à frente da qual alunos da Escola “Edmundo Gardolinski” se entretêm, num dia impreciso, no intervalo de alguma aula – o tão esperado “recreio” de cada dia. Logo vocês vão compreender por que ela está aqui.
Diante das fotos que encontrei e recordando aqueles tempos, um pouco deles nelas eternizado, revi velhos amigos, cujo destino e paradeiro não faço a menor idéia. A última vez que encontrei um deles faz mais de dezesseis anos.
Mas... vamos à história.
Éramos da Juventude da “Ação Católica” e nosso grupo pertencia à Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, quando as Missas ainda eram rezadas em Latim (Dominus Vobiscum... et cum spirto tuo. Ite, Missa est!).
Comigo participavam (ou eu participava com eles?) o Neri, jornalista do Jornal do Dia (na foto acima, comigo, em frente à então “Capela”), o Albano e o Waldemar (formados bacharéis em Direito logo depois) e o “grande” Atalibio (a quem chamávamos “Ataliba”), também do Jornal do Dia e telegrafista da “Western Telegraph Company”, que ficava ali na Siqueira Campos. Eram os nossos “veteranos”, entre outros.
Os mais “novos”, entre os quais eu me encontrava, eram o “alemão” Schneider (boa praça!), o Ércio (grande amigo), o Beto e o Geraldo (primos, sendo o Geraldo, irmão do Waldemar), o Luís Alberto, o Caetano, o Custódio, o Hugo Thiesen e o Trindade (o “bruxo” da turma, “ateu” e “infiel” pois além de “contestador” de alguns dogmas, fazia hipnotismo e outras “heresias” dignas das fogueiras da Santa Inquisição). Alguns nomes não consigo lembrar, mas os personagens principais, que constituiam o "grupo dos inseparáveis" são os que mencionei.
Estivemos juntos desde 1954 ou 1955, até 1959, quando fui servir, época em que a maior parte de nós se dispersou... para sempre. Além das atividades da Ação Católica, assistíamos, “religiosamente”, as Missas, atuávamos como “coroinhas” (... per sécula seculorum), promovíamos festivais e dávamos a nossa força durante as “quermesses”, quando ajudávamos na montagem das barracas, estendíamos bandeirinhas, trabalhávamos junto aos “Festeiros”, divulgávamos a festa e distribuíamos convites, para mencionar apenas o que me lembro.
Nossas palestras, encontros, círculos de estudos, e demais atividades tinham a coordenação e orientação dos Padres Palotinos Alfredo Venturini (Pároco e nosso “diretor espiritual”), Eugênio Borin (um grande ícone, para mim, pelo menos) e Adair que, nas horas de folga, freqüentava com a gente o “Bar 44”, ali no início da Av. Brasiliano de Moraes, e “comungava” conosco o chope mais sensacional da Zona Norte acompanhado do “sanduíche aberto” mais glorioso que alguém pudesse imaginar. Era coisa divina, de se saborear de joelhos, em profundo recolhimento, entoando cantos gregorianos. O “Bar 44” parece-me que ainda existe, no mesmo lugar. Mas, com certeza, há muitos anos não é mais “o mesmo”, pois aquela “aura celestial” de outrora certamente também se perdeu no passado.
Mas praticávamos esporte, também. Tínhamos equipes de ping-pong, vôlei e de futebol. Com esta disputávamos até torneios de várzea competindo com equipes consagradas da Capital. Nessas ocasiões, ao entrarmos em campo, quando algum torcedor perguntava “que time é este?”, sempre havia alguém para responder: “É aquele dos carolas. Dos padres, sabe?” Às vezes eu jogava "na linha", mas na realidade eu era o goleiro – meio medíocre, diziam os meus detratores, mas com bastante sorte. Lembro que até pênalti eu segurei. O meu “reserva” - "menos bom" que eu - era o Hugo Thiesen, falecido há muitos anos. Era “frangueiro” como só ele mas, relevando-se este aspecto, era um sujeito maravilhoso. Na foto, o goleiro, desse jogo, é o Beto. Esse era bom!
Uma particularidade que não pode ser omitida: o Waldemar e o Geraldo (Geraldo, na foto acima, com a bola) eram sobrinhos da minha primeira professora, Donatila Mattos Bach, à qual costumávamos chamar de “Dona” Tila. (Ela não era exatamente a “primeira”, pois bem antes estudei no antigo “Colégio São Luís”, na época uma pequena escolinha das freiras, em Teresópolis, ao lado da Igreja N. S. da Saúde, onde me alfabetizei. Mas, para mim, ela era – e será sempre – a primeira).
Com ela estudei as quatro primeiras séries. Foi com “dona” Tila - e através de sua sapiência solene - que eu comecei a gostar da leitura e de fazer “redação”. Depois, perdemos contato. No fim do ginásio, em 1954, mais ou menos, quando conheci o Waldemar e o Geraldo, é que fiquei sabendo que eram sobrinhos dela. Só então voltei a ter notícias da “minha” professora: “Dona” Tila já havia falecido.
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Voltando à Ação Católica, éramos dois grupos, o Masculino e o Feminino, este constituído em maioria por “Filhas de Maria”. Em muitas atividades participávamos juntos. Não só na parte religiosa (nesse tempo as moças iam à Missa com véus brancos na cabeça, e jamais esqueciam o Terço e o Missal, um livrinho geralmente de capa também branca) como na parte “profana": os festivais e quermesses, por exemplo. Entre “elas” havia aquelas inesquecíveis, por motivos diversos, todos – ou a maior parte, digamos - plenamente positivos e perfeitamente “confessáveis”, acreditem, já que naqueles tempos ditosos tudo era muito diferente dos dias atuais. Não, não riam! É verdade. Os valores eram outros. As garotas, principalmente no nosso meio, eram veneradas à exaustão e tratadas com respeito fraterno. Nomes? Alguns, que ainda lembro: a Gessi, a Erminda, a Rosemari, a Lívia (ou Nívia, não tenho certeza), a Dilma (não é “aquela" que está na mídia), a "gringuinha" Isabela, a Nanci...
Os festivais eram bastante concorridos e muito prestigiados. Aconteciam no palco da Escola Edmundo Gardolinski, um prédio de madeira anexo à Capela de Nossa Senhora de Fátima. Havia recitais, canto, teatro, aos quais freqüentemente compareciam convidados e os “talentos” da comunidade. Entre esses talentos houve uma garota que estudava no Grupo Escolar Gonçalves Dias e por essa época, ainda uma menininha com dez ou doze anos, cantava no “Clube do Guri”, um programa dominical da Rádio Farroupilha. Esse programa era patrocinado pelos “Chocolates Guri”, da Neugebauer e dirigido por Ari Rego. Ela se chamava Elis. Elis Regina Carvalho Costa. Conhecem este nome? Imagino que já tenham ouvido falar dela.
Pois é isto. O passar dos anos propicia-nos esta vantagem: ter o que contar sem precisarmos ser (muito) saudosistas, escravizando-nos ao passado. É bom sentir saudade, mas ela tem que ser uma evocação suave, alegre e, tanto quanto possível, divertida. E ser contada com algum humor e até ironia, mesmo nas passagens que mais nos tocam - não importando quão profundamente. Como estas.
Alguém já disse que “recordar é viver”. Acho que é verdade. A nossa biografia não deixa de ser o resultado de uma sucessão de fatos e episódios que marcaram a nós e àqueles com os quais os compartilhamos. Deixemos que ela seja ornamentada pelas ternas lembranças que vez por outra emergem. Afinal, nunca estivemos sós e os que andaram conosco trilhando os mesmos caminhos continuam ligados à nossa história. Irreversivelmente.
Vando
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SANTA MARIA E EU
- 9ª PARTE -
FINAL
“UMA HISTÓRIA BONITA: A LENDA DE IMEMBUÍ”
Imembuí era uma bonita índia da tribo dos Minuanos, habitantes das margens do Riacho Itaimbé. Seu nome significava “salva das águas”, pois ela nasceu quando sua mãe, a índia Yboquitã, banhava-se nas águas do riacho.
Acangatu, jovem índio da tribo dos Tapes, apaixonou-se por Imembuí, e para testemunhar seu amor e sua coragem trazia-lhe todos os dias uma caça como presente. Imembuí, porém, tinha por ele somente uma afeição fraterna. Certo dia encheu-se de coragem e disse-lhe que sentia por ele apenas amizade. O índio, magoado, embrenhou-se na mata e não mais foi visto.
Nessa época, um grupo de bandeirantes, avistando a aldeia, julgaram que seria presa fácil, pois só viram uma manada de cavalos pastando pacificamente. Então decidiram atacá-la para apreender os índios e levá-los como escravos.
Entretanto, em cada cavalo um guerreiro escondia-se no flanco oculto da montaria. Dado o alarme pelos vigias, os minuanos, em violenta carga, dizimaram os atacantes. Os sobreviventes fugiram ou foram aprisionados.
O bandeirante português, Rodrigo, caindo prisioneiro, foi condenado à morte. Enquanto aguardava o desfecho de seu triste destino, tocava uma música dolente no seu violão e cantava a saudade de sua terra. Imembuí, ouvindo seu canto e admirando seu rosto bonito, comoveu-se e passou a aproximar-se dele para ouvi-lo cantar. Seu coração jovem e sensível apaixonou-se por Rodrigo e, sabendo do destino que o aguardava suplicou a seu pai, o Cacique Apacani, para que o poupasse.
- Alegoria - Rodrigo ("Morotin") e Imembuí -
O Cacique, atendeu-a, tendo Rodrigo passado a viver entre os Minuanos. O casamento de Imembuí e Rodrigo logo aconteceu, de acordo com o ritual indígena e a partir daí Rodrigo passou a chamar-se Morotin. Mais tarde casaram-se, também, nas Missões, onde batizaram seu filho, José.
O indiozinho José tornou-se um jovem forte e corajoso, e começou afastar-se de casa, exercitando-se como caçador. Sua mãe sempre recomendava que tomasse cuidado, pois, como ele ainda era um menino, poderia ser presa fácil para alguma fera faminta. Um dia, José saiu para caçar e, não conseguindo encontrar o caminho de volta, se perdeu na mata. Seus pais procuraram-no por toda parte. Talvez um animal o tivesse ferido, ou uma cobra venenosa o tivesse picado. Imembuí chorou muito o desaparecimento do menino.
José, já cansado, continuou andando pela mata até anoitecer. Então, aconchegou-se no tronco oco de uma árvore, abrigando-se do frio e das feras, aí passando a noite. No dia seguinte, bem cedo, continuou a andar. Chegando às margens de um grande rio, encontrou uma cabana habitada por um índio que o acolheu. José contou-lhe sua história. O homem, comovido, dispôs-se a ajudá-lo e conduziu-o de volta até a aldeia dos Minuanos.
A aldeia ficou em festa com o retorno de José. Imembuí e Morotin, agradecidos ao homem que encontrara o seu filho, convidaram-no a participar da alegria de toda a tribo. Então reconheceram nele o índio Acangatu que já havia se curado de sua paixão por Imembuí.
De acordo com essa lenda, Santa Maria surgiu no lugar daquela aldeia, muitos anos depois, quando os homens brancos chegaram, destruindo o povoado. Sabendo da historia, contada a eles pelos índios, os brancos consideraram que a Cidade teve sua origem no amor que uniu uma índia com um branco, nas margens do Arroio Itaimbé.
E ainda hoje a lenda de Imembuí corre de boca em boca, fazendo parte da memória do povo santa-mariense.
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Assim termina a História que decidi contar, a partir de minha perspectiva pessoal.
Relendo tudo o que escrevi, acho que até saiu bem, mas deixo para vocês a avaliação e o julgamento final, enquanto espero que tenham gostado.
Vando
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CRÉDITOS PARA TODAS AS NOVE CRÔNICAS:
- PICASA – ÁLBUNS DA WEB
- SKYSCRAPERCITY.COM (1)
- SKYSCRAPER.COM (2)
- PREFEITURA MUNCIPAL DE SANTA MARIA
- MEUS ARQUIVOS E ANOTAÇÕES PESSOAIS
SANTA MARIA E EU
- 8ª PARTE -
“O QUE PESQUISEI SOBRE A HISTÓRIA DA CIDADE”
- Vista panorâmica da Cidade atual -
Pelos dados que reuni, Santa Maria possui uma área de aproximadamente 1780 km2 e conta atualmente com uma população de mais ou menos 270 mil habitantes. É a quinta Cidade do Estado, em população, e localiza-se bem no centro do Estado.
Seus registros históricos dão como seus habitantes originais, de um lado, os índios Minuanos, que se localizavam na região conhecida por Coxilha do Pau Fincado e de outro os Tapes, mais numerosos, que se localizavam na região da Serra.
Com o “Tratado Preliminar de Restituições Recíprocas” estabelecido entre Portugal e a Espanha, em 1777, decidiu-se pela devolução a ambas as partes das terras que eram ocupadas ilegalmente. O território santa-mariense ficava entre as terras desses países. Em 1787, uma comissão mista divide esse território em sesmarias, sendo dada a Francisco de Amorim a área onde a Cidade se encontra atualmente. Este donatário logo vendeu a sua parte ao Padre Ambrósio José de Freitas. O engenheiro José Saldanha chefia a Primeira Subdivisão Demarcadora de Limites da América Meridional, que segue com seu trabalho até Santo Ângelo.
Em vista de desentendimentos havidos com relação aos limites demarcados, e desavenças com Dom Diogo de Albear, comissário espanhol, em 1797, o Coronel Francisco João Róscio retorna a Santa Maria, comandando uma Segunda Subdivisão Demarcadora, montando acampamento onde, hoje, se situa a Praça Saldanha Marinho e a Rua do Acampamento, formando aí um pequeno povoado no qual estima-se que havia mais de quatrocentas pessoas, incluídas entre elas, outras que vieram das imediações.
Ao local, que ficou conhecido como Acampamento de Santa Maria, acrescentou-se, posteriormente, o nome Boca do Monte, um apelido dado pelos espanhóis, por este ficar na Serra que conduzia a São Martinho. No local onde ficavam os ranchos dos demarcadores surgiu a Rua São Paulo, hoje Rua do Acampamento, sendo aberta, em seguida, a Rua Pacífica, que teve o seu nome mudado para Rua do Comércio e finalmente Rua Dr. Bozano, que se prolonga até à frente do quartel do antigo 7º RI, já na Av. Borges de Medeiros.
Com a chegada, em 1828, de um “28º Batalhão de Estrangeiros”, constituído de alemães assalariados que vinham participar da Guerra Cisplatina, contra os Orientais, o povoamento da região intensificou-se. Finda a operação, a tropa é dissolvida e muitos dos militares decidem permanecer em Santa Maria, enquanto outros seguem para São Leopoldo, quando tem início o ciclo da colonização alemã no Estado.
Até essa época, o território de Santa Maria fazia parte de Cachoeira do Sul. Com a separação, em 1857, foi elevada à condição de Vila e em 16 de dezembro do mesmo ano torna-se município. A instalação definitiva ocorreu em 17 de maio de 1858, data em que é comemorado atualmente o Aniversário da Cidade que, neste ano, completa 150 anos.
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- Conclui a seguir -
SANTA MARIA E EU
- 7ª PARTE -
“AGORA EU TAMBÉM SOU UM SANTA-MARIENSE”
- Brasão da Cidade -
O listel é uma faixa com as cores do Estado e traz como legenda
"SANTA MARIA - CIDADE CORAÇÃO DO RIO GRANDE DO SUL" -
A pergunta - “O que é que estou fazendo aqui!?...” – volta meia, por muito tempo, vinha-me à mente.
Queiramos ou não, certas situações, por mais que nos esforcemos para exorcismar, permanecem obcecando o nosso cérebro. Desde aquela manhã chuvosa de 12 de maio de 1959 eu vinha me propondo a ir embora de Santa Maria. Ali não era o meu lugar e grande parte do tempo eu passava literalmente deprimido, embora me esforçasse para aceitar a realidade. O fato é que o tempo foi passando e eu fui ficando.
Era 1962. Junho. O dia, não lembro. Como fazia todas as tardes, depois que chegava do quartel, eu estava sentado na calçada, na frente da Pensão do “seu" Xisto, onde morava, lendo os jornais – A Razão, entre eles - e apreciando o movimento.
Carros desciam a Bozano. Pessoas transitavam, vindas das compras ou do trabalho, ou indo para eles. Do outro lado da rua a Praça Tenente João Pedro Menna Barreto (conhecida como “Praça dos Bombeiros”) abrigava os moradores do bairro e visitantes eventuais. Crianças brincavam, namorados acomodavam-se nos bancos, pessoas idosas conversavam enquanto tomavam o seu chimarrão.
Por instantes tirei os olhos da página que estava lendo e vi, de longe, à esquerda de onde eu estava, a moça que sempre, àquela hora, descia em direção à sua casa. Eu já a observara outras vezes, sem me deter muito nela. Nessa tarde, porém, observei-a com mais interesse. Eu não tinha detalhes muito nítidos de seu rosto, pois a distância era apreciável, mas tinha certeza de já ter passado perto dela alguma vez, de modo que não me era totalmente desconhecida.
Na esquina da Barão do Triunfo ela dobrou e logo a perdi de vista. Porém, eu sabia que ela tinha visto que eu a estive olhando.
Dias depois nos encontramos. Era tão bonitinha!... E tinha um jeito de andar que era uma graça. Quis saber o seu nome. "Nina" – ela disse. E então, perguntei-lhe: “Queres ser minha namorada?” Ela disse que sim.
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A partir daí o tempo passou célere. Em seguida ficamos noivos. O seu Cipriano, meio contrariado, a princípio e a dona Noca – que conquistei no primeiro dia - terminaram por me aceitar como genro e logo me “adotaram”. Os irmãos dela se tornaram os meus irmãos. A família dela passou a ser a minha família. Mas, como nem tudo corre sempre como a gente estabelece, passados alguns meses, “brigamos para sempre” e desfizemos o noivado. Depois reatamos. Nos cinco anos que se seguiram, superamos algumas turbulências até que no dia 7 de janeiro de 1967, na Igreja Nossa Senhora do Rosário, diante do Padre Erasmo Dallasta e “de toda a comunidade”, casamos.
"Maria-Fumaça" - Antiga locomotiva, hoje "monumento" na Praça da Locomotiva
- Av. Presidente Vargas em frente ao Centro Cultural -
Foi quando, depois de quase oito anos morando - e vivendo - em Santa Maria, descobri a resposta à pergunta que sempre aflorava nos meus momentos de nostalgia e que nunca mais precisei fazer a mim mesmo. Agora – e possivelmente desde aquele dia de junho de 1962 - eu sabia o que estava fazendo lá.
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- Continua -
SANTA MARIA E EU
- 6ª PARTE -
“MAIS GENTE DA TERRA”
Outro personagem inesquecível, cujo nome completo nunca fiquei sabendo, era Piaçon. Acho que a grafia é esta, ou bastante aproximada. Pois o “seu” Piaçon era um sujeito ao mesmo tempo temido e respeitado por todo mundo. Tinha boa aparência. Andava sempre bem pilchado, muito elegante em seus trajes campeiros. O cavalo encilhado com bonitos arreios era o seu meio de locomoção. Era um mito na região. Atribuiam-lhe mil e uma peripécias, muitas delas bem pouco recomendáveis. Tinha fama de valentão e consta que em seu currículo havia mais de uma dezena de homicídios. Diziam que o cujo não levava ninguém prá compadre. Era jogador, mulherengo e resolvia as paradas à bala. A par disso, era um homem educado, de bons modos e se comportava, com freqüência, de modo cavalheiresco. Uma única vez eu o vi, saindo de um boteco perto do quartel e, sou obrigado a reconhecer, o sujeito tinha mesmo uma bela figura. Nunca fiquei sabendo a verdade sobre o famoso Piaçon. A última notícia que tive dele, foi no dia em que um rapaz, desafeto seu, vingou-se pegando-o de surpresa e descarregando sobre ele sua arma, dando fim à vida do lendário cavaleiro. Isto ocorreu há mais de quarenta anos.
Outras pessoas que recordo, estas sim, com saudade e com carinho, são o “seu” Eugênio, dono do Bar Eureka que ficava na esquina da Barão do Triunfo com a Bozano, ou vice-versa. Ele morava na casa ao lado da Pensão do “seu” Guerino Xisto e da Dona Cecília, onde me hospedei por mais de seis anos, até 1967.
O “seu Eureka”, como o chamavam, era um gringo enorme, gozador, risonho, que além de servir pinga e cerveja aos freqüentadores do seu estabelecimento, fazia jogo do bicho e emprestava o telefone 278 prá todo mundo que precisasse. Fiz amizade com ele, com sua esposa e com os filhos, cujas idades eram próximas à minha.
O “seu” Xisto, da pensão, era outra figura sensacional. Gostava de “umas que outras”. Para ele tudo estava sempre bem. Podia-se atrasar o aluguel que ele nem esquentava a cabeça. A Dona Cecília, porém, era terrível. Com ela não tinha moleza. Não pagava, ela reunia os “pertences” do hóspede e botava no olho da rua. Mas eram arroubos passageiros, pois bastava uma boa conversa e ela abria seu coração enorme de mãezona e recebia de volta os “seus filhos”. Pois foi graças a uma bolada enorme que ganhei no jogo do bicho, com o milhar 0278 que “carreguei” na cabeça, do primeiro ao quinto e invertido do primeiro ao quinto, feito no “Eureka” que, certo dia, consegui colocar o aluguel em dia e pagar alguns meses adiantados. Foi um dia memorável, em que todo o pessoal do “estabelecimento” encheu a cara por minha conta e ainda fiquei com um envelope enorme, recheado com fantástica quantidade de encantadoras cédulas - embora muitas delas bem "flageladas", como era comum naquelas eras - que me tiraram do maior aperto.
- Vista aérea - anos 80/90 - Área urbana em expansão -
E houve o Tenente Carrion, dentista de mão cheia e piloto dos bons, no Aero Clube de Santa Maria, que morreu fazendo o que mais gostava: voando. E o Pezzi, outro ás do Aero Clube, mas que dirigindo automóvel era o maior “barbeiro” (“pé-de-chumbo”) que a Cidade já conheceu. E o “seu” Goetz e o Garbeiro e o Jairo, da Associação Filatélica, da qual cheguei a ser secretário, e o Helmuth, da Seção de Filatelia dos Correios... Muita gente boa, que deixou saudade de uma época que permanece viva na minha memória.
Bons tempos!...
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- Continua -
SANTA MARIA E EU
- 5ª PARTE -
"UMA PERSONAGEM E ALGUNS LUGARES”
Nunca esqueço de Dona Maria, a lavadeira, uma senhora baixinha, súper simpática, conversadeira como ela só. Ela morava nas proximidades do quartel e era pessoa estimada por todos. Sempre que eu levava os meus uniformes para lavar, ficávamos conversando. Certa vez ela me disse: “Já me contaram que Porto Alegre é muito bonita, mas pelo que sei, logo, logo, a cidade vai afundar e desaparecer”. Como assim? perguntei. Então ela explicou: “É que lá tem muitos edifícios e o peso deles vai fazer tudo desabar”.
- Anos 70/80 - Área Central -
Em destaque a Av. Rio Branco, projetando-se na direção da Rua do Acampamento
A preocupação de Dona Maria tinha origem, certamente, na comparação que ela fazia entre a realidade de Santa Maria e o que ela ouvia sobre Porto Alegre. A “Cidade Universitária”, como depois veio a ser denominada (nesses longínquos anos ainda não era “Universitária” pois a Universidade Federal de Santa Maria só veio a ser implantada em 1960) tinha poucas construções de vulto. Poucas, mesmo. Edifícios mais altos, que eu lembro, eram o das Casas Eny, na Avenida Rio Branco, de arquitetura muito bonita – pelo menos eu gostava dele – e o “Taperinha”, imponente, de construção recente, que enchia de orgulho os santa-marienses. Pouco depois, concluiu-se a Galeria do Comércio, sob um magnífico prédio de muitos andares – no momento não sei dizer quantos, mas acredito que uns quinze, ou mais. Só no decorrer dos anos seguintes é que surgiram o Edifício do Banrisul, na esquina do Acampamento com a Praça Saldanha Marinho e outros que foram sendo, lentamente, erigidos até os anos 70 e que deram à Cidade ares de modernidade.
- Igreja N. S. da Imaculada Conceição, a Catedral Diocesana -
(Pintura interna com painéis de Aldo Locatelli)
Mas apesar da minha má vontade inicial, houve lugares e coisas com os quais simpatizei desde os primeiros contatos. Por exemplo, a Estação da Viação Férrea (primeiro lugar que conheci), com intenso movimento de trens para todo o Estado, já que Santa Maria era o mais importante Centro Ferroviário do Rio Grande do Sul. Em seguida, a Catedral Diocesana, com as belíssimas pinturas de Aldo Locatelli. Linda! A Galeria Chami, outro, a única existente quando lá cheguei, lugar aprazível, pitoresco, onde se podia tomar um café maravilhoso. O cheiro delicioso de um amendoim com chocolate, que, se não me engano, chamavam de “garapinha” e que até hoje é encontrado na "Primeira Quadra" da Bozano. A Praça Saldanha Marinho, com seu belíssimo chafariz. E, naturalmente, a topografia do lugar, com seus morros, o Rio Vacacaí, o Rio Verde.... e a lenda de Imembuí, que pretendo contar ao final desta série.
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- Continua -
SANTA MARIA E EU
- 4ª PARTE -
"O QUE É QUE ESTOU FAZENDO AQUI?!...”
- Antiga Estação Rodoviária, na Av. Rio Branco - década de 50 -
Minha adaptação à Cidade foi lenta e trabalhosa. Se nessa época Porto Alegre ainda não era a Metrópole que conhecemos agora, imaginemos Santa Maria. Esta era realmente pequena e, não só pequena, como estranha para os meus hábitos. As pessoas eram gente boa, mas os costumes do lugar eram difíceis de assimilar.
Eu gostava de cinema. Gostava de teatro. Gostava de música. Em Santa Maria havia apenas dois cinemas, o Imperial e o Independência. Só muito depois surgiu uma terceira sala, o Glória. Teatro também não, que eu tenha conhecido. Existia duas ou três emissoras de rádio. Lembro bem da Santa-mariense, da Guarathan e, principalmente, da Imembuí. Durante a maior parte do tempo tocavam músicas gauchescas, o que, vocês sabem, não é exatamente o meu gênero preferido. Cada vez que eu ligava o meu radinho de pilhas, era brindado com a voz de um apresentador e cantor nativista conhecido pelo nome de “Cerejinha”. Ele era muito querido pelos “nativos”, mas eu já não conseguia mais digerir o homem, pois era só que se ouvia. Vez por outra eu me perguntava “o que é que estou fazendo aqui?!”
Todo mundo tomava chimarrão. Tudo bem! Gosto é gosto. Mas daí a ficarem me oferecendo o “mate” a todo o momento e a me questionarem, cada vez que eu agradecia, recusando - “mas tu não és gaúcho?” - já é outra história.
Onde quer que eu estivesse, me olhavam como seu fosse um E.T. e sempre alguém me perguntava de onde eu era. Quando lhes dizia que era de Porto Alegre, enchiam-me de perguntas sobre como era a Capital, se fazia muito barulho, se era verdade que as pessoas viviam sempre com pressa e coisas assim. Então eu aproveitava e falava da minha Cidade, nunca deixando passar a oportunidade para exagerar tudo o que pudesse. E mais uma confidência: terminei conhecendo o VENTO NORTE! Vocês, que não moram em Santa Maria e não tiveram o privilégio de conviver com ele, não conseguem avaliar o horror que é aquilo. Só tendo nascido lá para aceitar passivamente aquele fenômeno meteorológico que derruba o astral do alienígena mais apático.
O que atenuava um pouco o meu estado de ânimo era o fato de Santa Maria ser importante centro ferroviário (o que até hoje é atestado pelas inúmeras referências e parte preservada daquele patrimônio) e isto me lembrava um pouco o meu avô e padrinho João Silveira Gonçalves, nascido em 8 de fevereiro de 1858 e falecido em 24 de junho de 1944 (neste ano, 2008, também comemoramos os seus 150 anos!...) que era ferroviário e andou trabalhando por lá entre os anos 30 e 40, literalmente "trilhando" (que trocadilho bobo!...) estes caminhos que eu agora percorria.
Mas aos poucos fui me entrosando com os santa-marienses e já não me preocupava tão freqüentemente com “o que é que eu estou fazendo aqui!?” Afinal, “o que não tinha remédio, remediado estava”, como dizia minha mãe, a “dona Evinha” (filha mais velha do Vô João).
Fui descobrindo que o bicho não era tão feio como me pareceu. As pessoas eram amigas. Esforçavam-se por me deixar à vontade. Não mediam esforço para que eu me sentisse em casa. Aprendi a conversar com eles e a compreender que tínhamos muito mais coisas a nos unir do que a nos separar. E eles me ajudaram a amadurecer. E com eles... eu cresci.
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- Continua
SANTA MARIA E EU
- 3ª PARTE -
“PERCALÇOS NA CHEGADA”
- Detalhe da Estação Ferroviária de Santa Maria -
Foto recente de parte preservada e restaurada
O trem parou. Desembarcamos, com os nossos “apetrechos” acondicionados em “sacos de viagem” e nos encaminhos para a saída da Estação onde uma viatura nos aguardava. Tinha chovido bastante e fazia um frio terrível, muito ao contrário do que seria de se esperar do famoso “veranico de maio”.
Como “chefe da viatura”, fui na “boléia”, isto é, na cabine ao lado do motorista. Subimos pela Avenida Rio Branco e entramos à direita na Rua Dr. Bozano, seguindo na direção do “Sétimo”. Lá em cima, dobramos para a direita, no trecho da Av. Borges de Medeiros até à esquina da “Praça 112”, um ponto de táxi tradicional, assim chamado devido ao número do telefone. Dali, virando à esquerda, tomamos a Venâncio Aires, onde, já nas proximidades da “Sotéia” (*) entramos no “Passo da Areia” chegando até à entrada do Quartel.
O Passo da Areia era uma estrada primitiva que muito mais do que areia tinha o solo predominantemente de argila avermelhada que, quando molhada, transformava-se numa pista mole e escorregadia.
Não esqueçamos que durante toda a noite havia chovido, portanto o cenário para a “tragédia” estava prontinho, aguardando apenas a chegada dos protagonistas. Foi assim que na frente do portão, ao manobrar para entrar no Quartel, o motorista fechou um pouco demais a curva, perdeu o controle da direção e a viatura derrapou no barro liso. Depois de uma volta quase completa sobre si mesma inclinou-se na valeta e atolou até a metade das rodas.
O acidente não chegou a causar-nos um grande susto, mas as conseqüências foram bem pouco agradáveis e requeriam uma pronta iniciativa e rápida solução. “Desce todo mundo prá desatolar o “QT”! (**) - ordenei. E como quem comanda tem que dar o exemplo, lá fui eu, barro a dentro, seguido pelo motorista e pelos demais, com o nosso uniforme impecável, que deveria ser o nosso cartão de apresentação. (***)
Resultado: depois de um trabalho hercúleo, desatolamos a viatura e embarcamos. Nosso estado era deplorável, pois estávamos, literalmente, com barro até o pescoço. Mas não nos deixamos abater. Adentramos garbosamente à nossa nova Unidade, onde fomos recebidos de forma cavalheiresca pelos nossos superiores e depois com uma tremenda gozação de parte dos demais que nos esperavam ansiosos para aliviar a escala de serviço.
Assim, nessas condições, teve início uma nova fase de minha vida.
* * *
(*) Sotéia – Antigo casarão onde funcionava um armazém em que se vendia de tudo – do fumo em rolo ao arame farpado, dos tecidos e acessórios de costura à erva-mate, da palha para fazer cigarros às ferramentas de trabalho e às botas de couro, da querosene Jacaré aos gêneros alimentícios e tudo mais que se possa imaginar.
(**) “QT” – Era como chamávamos as viaturas com tração total e pneus especiais, próprias para “qualquer terreno”, daí originando-se a sigla - QT - que passou a ser usada de forma genérica para designar as demais viaturas com características similares.
(***) - Burrice pura! Bastaria termos tirado o uniforme, antes, e colocado calções. Mas, com um frio desgraçado, loucos de fome e cansados de nove horas num vagão de segunda classe, até que a gente se saiu bem, não lhes parece?
* * *
- Continua -
SANTA MARIA E EU
- 2ª PARTE -
“POR QUE FUI E COMO CHEGUEI LÁ”
Cheguei em Santa Maria no dia 12 de maio de 1959, às 6 horas da manhã.
Até então eu servia em Porto Alegre, no Parque Regional de Moto-Mecanização da 3ª Região Militar, que ficava na Rua General Portinho, bem ali na Praça da Harmonia e que hoje abriga a Praça Brigadeiro Sampaio. Eram instalações antigas, com pavilhões de madeira e o lugar já estava por demais acanhado para abrigar o aquartelamento. Em vista disto, e por imposições estratégicas, o Parque, que nessa época já ficara reduzido a um pequeno destacamento, pois a maior parte do material, armamento, equipamento e pessoal já estava em Santa Maria, foi transferindo aos poucos o restante do efetivo que restara em Porto Alegre, para a “Cidade Universitária” que se situava bem no centro do Estado.
Esperneei o quanto pude, para não ir, conseguindo, assim, adiar a minha movimentação. Até que um dia não deu mais e como eu fazia parte da “carga da Unidade”, lá me fui, de mochila e tudo. A voz do dever me chamava!
Como “guerra é guerra”, na noite de 11 de maio nos dirigimos à Estação da Viação Férrea, que ficava ali, na Voluntários da Pátria, esquina da Conceição e abrangia toda a área onde se encontra, hoje, a Estação Rodoviária. Digo “nos dirigimos” porque que não fui sozinho. Éramos em nove e eu comandava a turma, pois entre estes eu era o “mais antigo”. Tinha a missão de conduzir a “equipe” e apresentá-la, no destino, ao meu novo Comandante.
- Foto dos anos 50/60 -
Vagões como estes formavam a composição do trem noturno de Porto Alegre - Santa Maria
Com o “ofício de apresentação” no bolso, embarcamos num vagão da 2ª Classe do trem noturno, que saía de Porto Alegre exatamente às 21 horas e chegava em Santa Maria pontualmente às seis da manhã seguinte, depois de nove horas passando por uma porção de pequenas estações (Vasconcellos Jardim, General Luz, Fanfa, Ramiz Galvão...) e diversos lugarejos que para mim eram novidade. Íamos fardados, com o uniforme impecável, engomado, sapatos pretos bem engraxados, brilhando, a fivela metálica do cinto, reluzente devido ao “brasso”, (polidor que fazia parte de nosso “kit”), cabelo cortado a "zero” e o coração um tanto apreensivo e cheio de expectativas.
Depois de uma noite passada em claro, sustentada por café preto e sanduíches servidos no vagão-restaurante, o trem foi diminuído sua macha e ao som do apito da “Maria-fumaça” chegamos ao destino. Estávamos em Santa Maria. Santa Maria da Boca do Monte!
* * *
- Continua -
SANTA MARIA E EU
- 1ª PARTE -
PREÂMBULO
- Vista atual da Cidade - Foto recente -
No próximo dia 17 deste mês de maio, a Cidade de Santa Maria comemora, com intensa programação, o Sesquicentenário de sua instalação no ano de 1858, como Município, em decorrência de sua separação de Cachoeira do Sul ocorrida no ano anterior.
A inspiração para falar sobre Santa Maria em “MEU TEMA PREFERIDO”, surgiu na semana passada, quando estive lá durante alguns dias, com a Nina, para o aniversário da Lorema, no dia 28 de abril e em seguida o da Eva no dia 3 de maio.
Nesses dias, dei-me conta de que, de alguma forma, eu faço parte dessa História. Dos 150 anos de Santa Maria, em pelo menos dez por cento, ou sejam, quinze anos – ou mais, contando as participações e permanências constantes ou eventuais – eu estive presente. Morei lá. Amadureci, lá. Convivi com pessoas e testemunhei eventos aparentemente sem importância, mas que se confundem num mosaico histórico que, se não faz parte da História da Cidade, faz parte da MINHA HISTÓRIA. Em Santa Maria uni os Gonçalves e Lima de lá, com os Gonçalves e Santos de Porto Alegre. Em Santa Maria nasceram os meus filhos – o Evandro e o Sandro e de lá trouxemos no ano de 1974 – quinze anos depois que cheguei em Santa Maria – o Marcelo, para ser porto-alegrense como eu.
Por tudo isto veio-me a idéia de resgatar certas reminiscências que estavam adormecidas e até de fazer a vocês algumas confidências. Senti vontade de escrever coisas que eu ainda não havia escrito e revelar pequenos episódios que até agora pertenciam apenas à minha memória e que hoje divulgo, sem o menor receio ou constrangimento de que possa parecer sentimental.
Feito este primeiro registro, passo ao tema propriamente dito, não sem antes rememorar os antecedentes que conduziram a minha narração. Estou certo de que irão apreciar.
Portanto, deleitem-se.
Vando
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UM TEMA BEM ATUAL
Eu estava procurando um texto interessante, bem atual, para publicar, pois este mês ainda não tive tempo para me dedicar ao nosso Space como era o meu desejo. Então, revendo meus arquivos, rabiscos, recortes e livros, tirei da estande a edição de “Na Volta da Esquina”, já bem maltratada de tanto que a tenho folheado, e dei de olhos sobre esta pequena crônica de Mário Quintana, publicada em... 1979! Atual?! – questionarão vocês. Atualíssima, asseguro-lhes.
Meu amigo Mário Quintana tem disso. Quando a gente o lê, mesmo que em seu saudosismo, ele, muitas vezes, nos remete ao futuro ou, no mínimo, mantém atual aquilo que redige. Quintana é atemporal. Pelo menos é assim que o considero.
Então, deixando os preâmbulos para uma próxima ocasião, dou por encerrada esta breve introdução. Leiam, deliciem-se e... surpreendam-se.
Vando
UMA SURPRESA
Quem desça a Rua da Praia na Praça da Alfândega e olhe para o alto, à esquerda, será, apesar desse descuido, recompensado com uma surpresa – uma surpresa que depois eu conto.
Vivemos numa paisagem, ou antes, num cenário de demolições – o que faria da atual Porto Alegre uma ótima tomada para os filmes que se passassem em Londres ou Berlim depois de bombardeadas. Isto – quem é que não sabe? – é o Progresso. Mas que desolação, que confusão! Quando é que viveremos numa cidade pronta? Não estou mandando contra Porto Alegre. Quando estive, há pouco, em São Paulo, era a mesma coisa e, na rua, aquela agitação de formigueiro às tontas, como se alguém lhe houvesse pisado em cima.
Uma cidade pronta, disse eu? Mas não, não me falem em Brasília. Essa é pronta demais. Tão pronta, tão limpa, tão exata que parece uma maquete em tamanho natural. Falta-lhe a pátina do tempo, isto que alguns chamam de historicidade e que eu chamaria simplesmente de tradição – que é coisa que não se inventa, como andaram querendo inventar o Vovô Índio para substituir o Papai Noel que nossos avós europeus importaram consigo, não de contrabando, mas dentro de seus corações, única bagagem indevassável aos fiscais da Alfândega.
Pois bem, dentro do programa de demolição e construção em que estava incluído muito velho pardieiro a pedir caridosa eutanásia, mas onde se cometeu também muito crime como o assassinato do velho templo barroco da Igreja do Rosário – acontece que, ao fundo daquele bloco de velhas casas que foram demolidas na Praça da Alfândega – que é que se vê, ao olhar à esquerda por cima do tapume? Uma palmeira! Lá, bem no fundo, enfim liberta dos paredões entre os quais estivera enterrada.
Que teria levado o empreiteiro de demolições a poupá-la? Porque era uma coisa viva, saída da natureza e não de mãos humanas? Bem sei que se têm destruído florestas, como na guerra se destroem exércitos, cidades. Tão fácil esta última façanha... basta apertar um botão. O difícil é fazer a coisa individualmente, com uma só criatura. Embora a guerra não seja considerada crime, pois é feita coletivamente. Esta a diferença entre nós e os totalitarismos. Porque estes desconhecem a unicidade do indivíduo humano.
E, da mesma forma que executa friamente a destruição de florestas, o homem hesita em destruir uma árvore – tão sozinha como ele e com o mesmo direito de subsistir. Enfim, não sei se por esquecimento, ou por sentimento, é que foi poupada entre escombros, mas lá está ela sobre o tumulto da cidade – alta, viva, verde como uma esperança de melhores dias.
- Mário Quintana -
(“Na Volta da Esquina”, pág. 95, Editora Globo, Porto Alegre, 1979)
Foto: (Editei da foto original) - Palmeira Juçara, do livro Palmeiras do Brasil, Ed. Plantarium, SP.
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SOBRE JORNAIS E POESIA
Exemplares do Caderno de Sábado, do Correio do Povo na década de 70.
Foto de Luiz Moraes - Fonte: saite “TIO SAM”
Desde os meus longínquos anos verdes, que ainda perduravam lá pelo final dos anos 50 do século passado, tive, entre as minhas paixões, duas, em especial. Uma delas, a poesia. Quando menino, como eu queria ser poeta! ... Cheguei a rabiscar algumas rimas, mas tudo sem sentido, mediocre e tão ruinzinho que, com o passar do tempo, desisti, preferindo enveredar por outros caminhos. Mas nunca deixei de lê-las e de embevecer-me com a sonoridade das palavras, com o ritmo dos versos, com a sensibilidade e a ternura inseridas em cada estrofe. Apaixonado por Cruz e Souza, Cecília Meireles e Mário Quintana, guardo com carinho inúmeros livros desses anjos que sempre me emocionam, cada um com o seu estilo.
- Euterpe, a Musa da Poesia -
Detalhe de “Apolo e as Musas” de Pompeo Batoni (1708-1787)
A minha outra grande paixão foi e é o jornal. Ou os jornais. Nasci, aprendi a soletrar e cresci entre jornais. Dos bisos, dos avós e do Pai – o “seu” Romeu – herdei o gosto por eles. O primeiro foi o “Correio do Povo” – o antigo, bem antigo, grandão, com uma imensidade de cadernos entre os quais os de literatura que eu devorava com avidez. Todos os patriarcas de nossa família o assinaram, desde o histórico "róseo". O “velho” Correio do Povo era lindo! A edição de domingo era pura beleza. Trazia tudo. E quando digo “tudo”, era tudo, mesmo: do noticiário internacional e local aos anúncios classificados; da moda ao comportamento da sociedade; da política às últimas descobertas científicas; dos contos e romances publicados em capítulos à poesia de autores consagrados ou que ainda não eram conhecidos; do esporte – o “foot-ball” e o “turf”, basicamente, pois os outros não eram, ainda, tão difundidos como hoje, às artes, à cultura, ao cinema!... Os filmes lançados na semana, a serem exibidos no Baltimore, no Orfeu, no Imperial, no Guarani, e nas demais salas, que somavam cerca de quarenta, mereciam anúncios com grande formato, e freqüentemente preenchiam mais de duas páginas. Eram destaques as peças e os concertos no Theatro São Pedro, os bailes de debutantes e da Reitoria, as festas do Clube do Commércio, as atividades no Cinema Castelo... E havia os “reclames” (*), que variavam dos novos discos da Casa Victor à "Glostora" e ao "Phimatosan", do sabonete "Lever" ao "Rhum Creosotado", ao "Gumex" e ao “Óleo de Fígado de Bacalhau”, do "Saponáceo Rosário" (que tinha a fábrica na Avenida Nonoai, próxima à SPAAN) aos chapéus "Prada", às novidades das Casas Carvalho e às jóias da Massom – “a casa dos bons relógios desde 1871”. Mas não era só o “Correio” que eu curtia. Tínhamos o “Jornal do Dia”, responsável por um dos meus primeiros “empregos”. Havia o grande “Diário de Notícias”, a “Folha da Tarde” – que saía logo depois do meio-dia com as notícias do que havia acontecido de manhã e sua "irmã", a “Folha Esportiva”, que trazia todos os acontecimentos do futebol. Mais tarde, veio a “Última Hora”, que circulou até meados dos anos 60, quando deu lugar à atual “Zero Hora”.
Depois, aos poucos, surgiram os pequenos jornais. Os jornais de clubes, de sociedades, de empresas, e os jornais de bairros. Estes, normalmente têm edição limitada, dirigida e em sua maioria são distribuídos gratuitamente. Tornei-me viciado em surrupiar estas pequeninas preciosidades onde quer que elas aparecessem ou estivessem expostas, hábito que cultivo até hoje. Leio-os da primeira linha da primeira página à última linha da última página. Pois foi num desses pequenos jornais que encontrei uma das mais belas poesias dentre as muitas que tenho lido ultimamente. Em edição recente – nº 51, ano 5, Dezembro de 2007 – o “Jornal do Clube do Aposentado”, da PanVel (**) publica o poema que tem por título “MOIRAS” (***) de autoria da Advogada e Poetisa Ana Mariano, que agora, depois de ter lido e relido uma porção de vezes, transcrevo para que vocês também tenham a oportunidade de apreciá-lo. Deliciem-se:
As Deusas do Destino: Cloto, Láquesis e Átropos.
Fragmento de um relevo romano de Schloss Tegel, Berlin.
MOIRAS
Ana Mariano
Pelo tempo espesso nos movemos
metáforas fluindo nos tapetes.
Difícil dizer a cor de cada rosto,
multidão inefável de ruídos,
água teimosa e vento
alterando a correnteza,
abanar de leque, sapatilhas,
face materna a surgir no espelho,
(o mesmo pudor, nos mesmos cabelos)
mãos pontilhadas de castanho
respingando gestos corriqueiros.
Bem no fundo, dentro, onde
não alcança o tempo,
na lentidão inversa de seus dias,
uma parte de nós sempre observa.
Dividem-se as sombras recortadas
em outras, tantas! que se afirmam
e, em se afirmando, negam
e negando cifram o que antes
julgamos claro e decifrado.
São muitas as partes, as moiras destinadas.
Tramam a mesma lã, sobrepostas telas,
tecem num só tempo tempos diferentes.
Se uma compõe, pouco a pouco, o velho,
outra, célere, regride,
faz do passado não passar o tempo.
Entre a luz e a veneziana,
ouvindo ressoar todas as vozes,
árvore voltando a ser cadeira,
gaiola e pássaro, véus
tecidos com cuidado,
verso e anverso iguais e diferentes,
pelo tempo espesso nos movemos
nunca sendo quem somos realmente.
* * *
Que tal? Gostaram? Sei que sim. Prometo que, sem me preocupar muito com a forma como as Moiras fiam as nossas vidas, sempre que encontrar novas pérolas como esta, compartilharei com vocês. Euterpe, a Musa da Poesia, com certeza vai me indicar os lugares onde elas se encontram.
No decurso de minha redação, quase me extraviei devido à quantidade de assuntos que foram surgindo enquanto eu escrevia, e ao meu anseio de não perder nenhum deles. Entretanto, minha proposta inicial (falar sobre jornais e poesia, duas coisas que eu adoro) parece que foi cumprida e terminei saindo ileso da empreitada: não perdi o fio (não confundir com o que é tecido pelas Moiras) da meada. Consegui recuperá-lo em tempo útil e a partir deste momento transfiro a vocês a responsabilidade de julgar se valeu a pena.
Concluindo, ficarei feliz se vocês aceitarem o poema de Ana Mariano como um presente de fim de ano que lhes faço. De graça o recebi e de graça lhes ofereço. Nada, mais bonito, eu poderia encontrar, agora, para ofertar-lhes.
E, para ti, Ana, o meu agradecimento por permitir que eu transcrevesse estes versos lindos. Nunca poderei te retribuir. Recebe o abraço, o carinho fraterno e os votos de um Feliz Ano de 2008, em meu nome e de toda a Família “NÓS AQUI”.
Vando
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Notas minhas:
(*) – Na época era como se chamavam os anúncios, a propaganda: “reclames”. Na “Casa Victor” (rua dos Andradas 1212) encontravam-se todos os clássicos recém editados na América e na Europa: óperas inteiras, árias e interpretações majestosas de Enrico Caruso. “Glostora” era um fixador de cabelos; “Phimatosan” era uma marca famosa de remédio fortificante; a marca “Lever” identificava o sabonte que se vendia muito e que esteve no mercado até pouco tempo. “Rhum Creosotado” era famosíssimo. Era a marca de um remédio para tosse, cujo "reclame" também circulava em todos os bondes e trazia uns versos que todo mundo já havia decorado; dizia assim: “Veja ilustre passageiro / o belo tipo, faceiro / que o senhor tem a seu lado. / Pois, no entanto, acredite: / quase morreu de bronquite. / Salvou-o... o Rhum Creosotado”. “Gumex” era outro fixador de cabelo, vendido num envelope, em forma de pó, em que se adicionava água, formando uma “meleca” parecida com o atual “gel”. O "Óleo de Fígado de Bacalhau" era um fortificante, indicado principalmente para as pessoas mais jovens, se não me engano. Era um líquido branco, viscoso, com gosto abjeto, - um horror! - que nossos pais nos enfiavam goela abaixo sem a menor piedade. Já o “Saponáceo Rosário” era um sabão em pó, que veio substituir o velho hábito de nossas avós de “arear”, ou “ariar”, como se dizia, as panelas... com areia! Alguém lembra disto? Os chapéus "Prada" eram o diferencial de todos os cavalheiros que primavam pela elegância. Eram belíssimos, realmente. O “Seu” Romeu não saía nem para o trabalho sem ostentar, com refinado bom gosto, o seu “Prada”, sempre novinho. E, por aí, vai. O tema é vasto e já estou pensando em desenvolvê-lo numa próxima matéria.
(**) – A marca “PanVel” originou-se da união de duas grandes redes de farmácias que existiram até os anos 70, ou oitenta, mais ou menos: as “Farmácias Panitz” e as “Farmácias Velgos”. Com as sílabas iniciais das duas, formou-se o nome atual, não deixando que os originais se perdessem na memória.
(***) Moiras eram “As Deusas do Destino”. Segundo a Mitologia Grega eram três, as Moiras, todas filhas de Zeus e de Têmis. Os romanos as chamavam de Parcas. Sua representação era a de mulheres que teciam o destino das pessoas, em forma de fio. Chamavam-se Cloto, Láquesis e Átropos.
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OS BONDES DE PORTO ALEGRE
(1) - Bondes DOM PEDRO II e GASÔMETRO, contornando a Praça XV, em frente ao Mercado Público (1957)
No início desta semana recebi um e-mail do Diego, falando sobre o álbum de fotos que ele criou na internet, onde resgata mais de 150 fotografias da Família Gonçalves Ferreira. Bonito! Pura beleza!
(2) - Bonde PETRÓPOLIS, trafegando pela Av. Protásio Alves (1957)
Mas não é propriamente sobre o blog do Diego que quero falar. Ele me serviu para tomar a decisão sobre este “meu tema preferido”, no lugar de outros.
(3) No final dos anos 1950, alguns bondes receberam pintura vermelha e branca, como este, da linha AUXILIADORA. Foram poucos, que logo voltaram à cor amarela, tradicional. Praça XV (1957)
Há dias eu já rabiscava alguma coisa referente à minha Porto Alegre antiga. Temas diversos, como praças, a Ponte da Azenha – que, nos últimos dias, fiquei sabendo, o nosso Prefeito decidiu restaurar, para a alegria de todos nós – e os bondes. O Diego, com o seu blog, direcionou, involuntariamente, a minha escolha, devido a uma das fotos que ele colocou no álbum: uma turma do Curso de Formação de Motorneiros da Companhia Carris. Lamentavelmente ele não tem a data precisa em que ela foi feita, mas tenho boas razões para estimar que foi no final dos anos 1950, talvez início de 1960, no máximo.
(4) - Linha DOM PEDRO II - Av. Benjamin Constant (1957)
Vocês sabem que sou um saudosista incorrigível. E uma das lembranças mais caras que conservo, e sempre me retorna, é a dos velhos bondes de nossa Cidade, plenos do bucolismo de uma “província” ainda grávida de humanidade e do romantismo repleto de poesia.
Não pretendo escrever história. Não é a minha função nem levo jeito pra isto. Mas não custa recordar que os bondes começaram a circular em Porto Alegre no ano de 1864. Eram, nessa época, simples veículos com tração animal - os “bondes a burro”, conforme as referências que, menino, eu ouvia da Vó Júlia. Depois, em 1872, foi fundada a “Companhia Carris de Ferro Porto-Alegrense” que em 4 de janeiro de 1873 deu início ao deslocamento dos bondes sobre trilhos, mas ainda com tração animal, que serviram o bairro (o "arrabalde", falava-se, também, em "arraial") do Menino Deus. A partir de 1893 foi criada uma outra empresa, a “Companhia de Carris Urbanos de Porto Alegre”. Em 1906, com a instalação das redes de energia elétrica na área urbana, essa duas empresas fundiram-se, dando origem à “Companhia Força e Luz Porto-Alegrense”. Surgem, então, projetos para a implantação dos bondes elétricos. Vieram os “Imperiais”, carros até bonitos e elegantes, com dois andares, em março de 1908. No ano de 1928 a empresa toma o nome de “Carris Porto-Alegrense” após ter como acionista majoritária a empresa norte-americana “Eletric Bond & Share”. Em 1960, finalmente, a “Carris” é encampada pela administração municipal.
Até o dia 8 de março de 1970, quando foram definitivamente desativados por força do “progresso”, os bondes foram o transporte urbano por excelência, servindo a todos os pontos da Cidade. Os bairros mais populosos tinham os seus terminais de linhas, como o Partenon, a Glória, Menino Deus, Teresópolis, IAPI, Petrópolis, Auxiliadora, Independência...
Havia pontos de transbordo (dizia-se baldeação) em que os passageiros de uma linha podiam descer e, com a mesma passagem, tomar o bonde para outro destino. Era o caso dos bondes que transitavam pela Av. Benjamin Constant (Floresta, Assis Brasil) e, no terminal da Av. São Pedro, as pessoas podiam transferir-se para o bonde São João que trafegava pelo bairro dos Navegantes. Os bondes que faziam essas linhas (São João e Navegantes), bem como os das circulares, do Centro (Duque, Gasômetro), eram do tipo que as pessoas apelidaram de “gaiola”. Eram carros pequenos, com o trem de rodagem bastante curto, situado sob o ponto central, que causavam um balanço constante durante os deslocamentos, advindo daí, possivelmente, o apelido.
(5) Linha TERESÓPOLIS. Bonde apelidado "gaiola". Não sei identificar o local exato da foto. (1957)
De bonde a gente ia ao “matiné” para ver os seriados de faroeste, ao jogo de futebol, ao Prado da Independência, ou visitar os parentes que moravam longe. Ia-se à missa aos domingos, à Redenção para brincar no parque de diversões, comer pipoca e tomar sorvete. Depois, quando a gente crescia, tomava o bonde para ir ao colégio, para trabalhar, ou simplesmente para “andar de bonde”, sem outro compromisso que, apenas, passear.
Era gostoso ficar de pé ao lado do motorneiro (era assim que se chamava o profissional que “pilotava” o bonde, já que o “condutor”, propriamente dito, era na verdade o cobrador, um homenzinho geralmente chato e implicante que não livrava ninguém de pagar a passagem). Ali, a gente acompanhava todo o itinerário e podia até sonhar que éramos nós mesmos que estávamos dirigindo o veículo. Havia, em cada bonde, uma espécie de “relógio” fixado na parede, que era nada mais nada menos do que um contador de passageiros. Ao chegar a um determinado número de pagantes, o “condutor” acionava diversas vezes uma alavanca – “tlec, tlec, tlec, tlec...” que registrava no tal “reloginho” quantas pessoas estavam viajando.
(6) - Bilhete de passagem. Este é válido até 1968.
Bons tempos! Bons tempos!...
Mário Quintana falava muito sobre os bondes que deveriam passar apenas pelas casas de nossas namoradas. Em seus poemas, muitas vezes o bonde era o mote. Penso que este é um dos últimos versos que ele escreveu, depois que os bondes deixaram em nós apenas a saudade:
"Acabaram-se os bondes amarelos...
A frase me saiu em decassílabo, viste?
E o metro clássico já faz adivinhar um soneto.
Ficou neste verso único.
E deixo o bonde depositado em meu ferro-velho sentimental.
Aqui. Parado. Sonhando.
Quem sabe se, um dia..."
Pois é. Este é o “meu tema preferido”. Ele não estava, realmente, programado. Era só um projeto que eu pretendia pesquisar buscando dados registrados na história. Todavia, saiu assim, simplezinho e cheio de sentimento, como o tema, na verdade, requer. Tudo, graças a esta foto que o Diego colocou no seu blog e da qual, sem qualquer cerimônia, ou seja, com a maior "cara-de-pau", eu surrupiei para guardar no meu arquivo:
Foto da Escola de Motorneiros da Carris.
Acervo do Diego, Família Gonçalves Ferreira
Não são todos os que entenderão o motivo pelo qual eu escolhi esta foto. Previ isto. Optei por fazê-lo, mas não vou dizer a razão. Sei que alguns saberão porque.
Até o próximo.
Vando
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CRÉDITOS:
As fotos dos bondes e do bilhete de passagem (1 a 6) pertencem ao saite de Allen Morrison:
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JÓQUEI CLUBE. UM CENTENÁRIO PARA COMEMORAR.
- Jockey Club do Rio Grande do Sul - Hipódromo do Cristal -
O ano de 2007 marca o centenário do Jockey Club do Rio Grande do Sul. Sua origem foi a Associação Protetora do Turfe, fundada em 7 de setembro de 1907 e que veio a realizar sua primeira corrida em 3 de novembro do mesmo ano.
Sua fundação deveu-se à iniciativa de José Joaquim da Silva Azevedo, um entusiasta turfista da época, que contou com a colaboração, entre outros, de Oscar Canteiro e Otávio de Lima e Silva, eleitos como Presidente e Vice, respectivamente.
Este esporte, contudo, é bem mais antigo em nossa Porto Alegre. Já nos anos 1890 a Cidade provinciana contava com quatro hipódromos – no Menino Deus (“Prado Rio-Grandense”), no Partenon (“Prado da Boa Vista”), nos Navegantes e nos Moinhos de Vento (o “Prado da Independência”). Eram muitos os entusiastas das carreiras, que contavam com grande público e com apostas atraentes e compensadoras.
Entre essas associações, porém, surgiam freqüentes conflitos, já que para algumas o importante era a busca de resultados econômicos, enquanto para outras as metas eram o esporte, em si, e a criação de cavalos. Devido a tais divergências, o turfe porto-alegrense entrou em colapso.
Tentativas de reestruturar as atividades foram feitas. Pensou-se na possibilidade de fusão entre as associações. Sérias discussões foram travadas para a escolha do local onde seria a sede de uma nova entidade, até que decidiu-se localizá-la no “Prado da Independência”, nos Moinhos de Vento. Assim, a partir de 19 de outubro de 1899 nascia o “Derby Club”. Mas as coisas não foram tão fáceis como parecia, pois os descontentes resolveram reabrir o Hipódromo do Menino Deus, orgnizando o “Turf Club”, ao mesmo tempo que outros reorganizaram o do Partenon.
Com tantas divisões, o resultado não poderia ser outro: a insolvência foi geral e Porto Alegre ficou, novamente, sem turfe.
Descontente com a situação, José Joaquim da Silva Azevedo, com a colaboração de outros turfistas decidiu que uma nova associação deveria ser fundada, nascendo, então, em 1907,a Associação Protetora do Turfe, resgatando para a nossa Porto Alegre o “desporto das rédeas”.
Novo período de crise se abateu sobre o turfe, mas a Associação sobreviveu graças ao trabalho incansável de seu Presidente, Coronel Antônio Pereira Caminha, durante sua administração que durou de 1909 a 1914, quando foram criadas as principais provas do calendário turfístico do Estado, como o mais importante deles – o Grande Prêmio Bento Gonçalves.
Em assembléia geral realizada em 1944, os associados aprovaram a proposta de mudança do nome da associação, que passou a denominar-se “Jockey Club do Rio Grande do Sul”.
A sede, no velho Prado dos Moinhos de Vento, encerrou suas atividades no dia 15 de novembro de 1959 e seis dias depois, a 21 de novembro, passou a funcionar no novo Hipódromo do Cristal. O Clube possui atualmente mais de quatro mil associados.
No Cristal, realizam-se corridas onde participam grandes jóqueis do Rio Grande do Sul, do Brasil e do Exterior. Cavalos de alta linhagem, provenientes de diversos haras e produzidos por criadores mundialmente renomados, têm deixado suas marcas na história deste Clube que é um orgulho para todos os porto-alegrenses que apreciam o esporte.
Hipódromo do Cristal.Grande Prêmio Bento Gonçalves. Cavalo "Zirbo", vencedor desta prova,
conquistando o tricampeonato, em 6 de novembro de 1983.
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Voltando um pouco ao tempo do velho Hipódromo dos Moinhos de Vento, lembro que freqüentei aquele bonito lugar, lá pelo final dos anos 40 até início dos 50, na companhia de uma pessoa muito especial: o “seu” Romeu, meu pai. As corridas eram aos domingos. Era tudo muito elegante, com as pessoas bem vestidas, muitas senhoras com chapéus, “chiquérrimo”!... O seu Romeu sabia tudo de turfe, os nomes dos jóqueis, dos cavalos, dos tratadores, dos proprietários, as “performances” de cada um, sobre azarões, sobre “conversa de cocheira”... enfim, era um “expert”. Com ele aprendi bastante sobre “poules”, duplas, “forfaits” e outros termos que ficaram encobertos pela névoa do passado. Era bom ir lá com o meu velho. Só havia um pequeno problema: muitas vezes fui com ele ao “guichet” de apostas. Mas não lembro de nenhuma que tenha ido ao “caixa” resgatar o dinheiro de algum vencedor. Talvez a memória esteja me traindo, mas que não lembro, ah!... isto não lembro mesmo.
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Pois é. Este é o "meu tema preferido" que volto a publicar depois de bastante tempo. Daqui há pouco volto com outro.
Vando
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- CRÉDITOS -
A pesquisa sobre o tema, bem como o logo e fotos acima, eu busquei nos saites:
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A CIDADE ÀS MARGENS DO RIO
Quando a água reflete todos os postes de iluminação, sabe que esta cidade já foi pequena. Quando vão dormir as bem amadas, as velhas carolas, os executivos e os catedráticos, quando na noite alta o último boêmio passa cantando e as meninazinhas há muito tempo dormem, as águas vão passando... Na cidade quieta, só o rio corre dentro da noite. É a vida continuando pelo mundo...
- Mário Quintana -
| - PORTO ALEGRE, 235 ANOS -
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- MEU BONDE PASSA PELO MERCADO -
Foto Sioma Breitmann - 1924
O que há de bom mesmo não está à venda,
O que há de bom não custa nada.
Este momento é a flor da eternidade!
Minha alegria aguda até o grito...
Não essa alegria alvar das novelas baratas,
Pois minha alegria inclui também tristeza – a nossa tristeza...
Meu companheiro de viagem, sabes?
Todos os bondes vão para o Infinito!
(Mário Quintana – “Preparativos de Viagem”)
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