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    Meu Tema Preferido - XXVIII

     

    UM DIA... UM TEMPO

    Quem disse que eu mudei?

    Não importa que a tenham demolido:

    a gente continua morando na velha casa em que nasceu.

    (Mário Quintana)

     
     
     
     
           Faz pouco que voltei lá. Contudo, não mais encontrei o que procurava. 
     
           Quanta melancolia! Da velha casa nenhum vestígio. Nem ruínas. Nem fantasmas. Apenas um terreno vazio, abandonado, precariamente protegido por uma cerca de arame e algumas tábuas. Tudo deserto. Sem cuidados. Alguns monturos com restos de sucatas que nem de lixo podem ser chamadas. Só.  
     
           Fazia tanto tempo!... Mais de sessenta anos! 
     
           O que foi feito da “minha” casa? Da antiga construção mista de madeira e alvenaria, que tinha sacadas, sótão, porão, - o que sobrou? A água vinha de um “algibe”, como se denominava o reservatório que ficava próximo à parede que dava para a cozinha. Na porta interna da sala grande, de jantar, que dava acesso aos demais cômodos, um antigo “reposteiro” (1), herança de família desde tempos imemoriais. 
     
           Onde foram parar as duas palmeiras altas que adornavam a escadaria da entrada? E a paineira, que na época da floração cobria-se de cor-de-rosa  para algum tempo depois tornar-se toda branca quando as bolotas de algodão se abriam? E o pomar onde abundavam peras, maçãs, caquis, laranjas, bergamotas? E o “meu” arroio que corria, límpido e reluzente, lá no fundo do quintal, cortando as demais propriedades vizinhas? Onde esconderam, de mim, tudo isto?
     
           Perguntas. Muitas. Sem respostas.  
     
           ................
     
           Dona Maria do Mato morava numa construção tosca, no morro, lá no alto, junto à pedreira. Eu nunca soube como é que se ia até lá nem como ela fazia para nos visitar. Seria uma bruxa? Ou uma fada, disfarçada de anciã simpática? Pelo que sei, fazia de tudo: de parteira a lavadeira. Todos a conheciam, mas não sabiam de onde viera. 
     
           “Seu” Carlinhos, o dono do armazém ao lado, onde eu comprava guloseimas como as balas “Brocoió”(2), anotava tudo num caderno seboso que o pai pagava religiosamente no sábado, quando voltava do trabalho "no Schapke" (3).  
     
           Junto à cerca que delimitava o quintal comprido, havia uma figueira. Majestosa. Logo que nos mudamos para lá eu tinha medo dela, pois se enroscara num butiazeiro e os adultos diziam que ela era assassina. Um dia venci o medo. Aos poucos fui me aproximando. Com algum receio, a princípio. Depois, subi nela. Trêmulo. Cheio de cuidados e expectativas. Penso que simpatizou comigo pois me aceitou e desde então nos tornamos amigos. 
     
           E havia pitangas. E amoras e guabirobas para colher e comer à vontade. 
     
           Na frente, do outro lado da rua, um terreno baldio. Sem muros ou cercas. Mas era limpo. A gente chamava de “mato”, embora fosse amplo, aberto, com muitos arbustos e grama baixa, onde se podia brincar. Nas noites de verão infestava-se do pisca-piscar de vagalumes que eu prendia em garrafas só para fazer de “lanterna”. 
     
           Havia o voejar das borboletas e libélulas. Cantos de cigarras e de passarinhos. E relva orvalhada pelo sereno e cheiro de terra molhada quando chovia.  
     
           ...................
     
           Um dia o padre da Paróquia de Nossa Senhora da Saúde (4), ganhou uma cabrita, presente de um paroquiano. Como guardar o “mimo” na sacristia? Num domingo, depois da missa, conversava com meu pai. Eram amigos há bastante tempo. “Preciso que me faças um favor, Romeu. A tua casa é grande e tem um bom pátio. Será que poderias ficar com a cabrita, por uns tempos, até que eu a leve para a chácara?” 
     
           Lá pelas tantas, o “seu” Romeu chega em casa com a cabrita a cabresto. “Como é mansinha!” – exclamou minha irmã, então com uns cinco ou seis anos. “Posso brincar com ela!?”... 
     
           ............... 
     
           No sótão guardavam-se velharias. Muitos livros e jornais antigos onde eu aprendi a gostar de ler. Na maior parte tempo era o meu refúgio - um templo sem oração mas impregnado de magia. O porão, por sua vez, era alto, espaçoso, sempre limpo e bem cuidado mesmo sendo depósito de quinquilharias com as quais brincávamos quando chovia. 
     
           No quintal erguia-se um forno de lenha. Nele a mãe e as avós faziam pão que se comia com goiabada, manteiga, queijo feito em casa e café passado em coador de pano no bule de louça águeda. 
     
           .................
     
           Dias depois a cabrita já era membro da família. Andava por toda a casa sem qualquer constrangimento. No pomar empanturrava-se com todas as frutas que encontrava. Suas preferidas, porém, eram as peras, que comia até ficar triste.
     
           Uma tarde, a mãe e a vó preparavam um monte de peras para fazer doce. Era fim de semana, ou feriado, pois o pai estava em casa e observava o trabalho que elas executavam compenetradas. Minha irmã, ao seu lado, também. Nisto, olharam-se. Olharam para as peras e depois para a cabrita, que rondava com olhar cobiçoso. Como por telepatia, seus pensamentos se cruzaram. Minutos depois a cabrita deliciava-se com uma bandeja de peras... açucaradas! Lambia os beiços enquanto trocava com os dois, olhares da mais comovida gratidão. Uma cena emocionante! 
     
           Desnecessário é dizer que a partir daquele dia a nossa cabrita passou a rejeitar definitivamente as peras in natura. Só comia se fossem com açúcar.   
     
           ...............    
     
           Hoje a casa, as palmeiras, a paineira e a escadaria não passam de imagens etéreas retidas em algum recanto da alma.   
     
           Não há mais mato, nem pitangas, nem amoras. A figueira e o butiazeiro, assim como as libélulas e os vagalumes, são apenas sonhos que, efêmeros, se dissipam, a cada lembrança, como névoa ao amanhecer de novo tempo. Passarinhos e cigarras já não cantam nem o orvalho enverniza de brilho a relva macia de antigamente, que virou sarça.  
     
           Cada reminiscência é uma sucessão de retratos esmaecidos e deteriorados, resgatados de velhas e bolorentas caixas de sapatos remanescentes na memória.  
     
           Tudo foi reduzido a um sítio melancólico impregnado de miasmas indeléveis; transformado em sombrio monumento a uma história bonita que o tempo, em sua trajetória implacável, se encarregou de interromper e que os homens foram incapazes de dar continuidade.  
     
           Ao chegar lá deparei-me com uma nova realidade. Descobri que, além do pai, da avó, do padre e sua cabrita, também não existem mais nem dona Maria do Mato nem o seu Carlinhos. Deles todos resta, apenas – e tão somente – uma imensa, uma indefinível e dolorida saudade. 
     
           ............................
     
           Por que estou contando isto? O que me levou a fazê-lo? 
     
           Tomei tal decisão depois que conheci uma pessoa especial. Aliás, não só uma pessoa, mas uma família. Pessoas belíssimas. Gente que também tem histórias para contar. Que guarda, num coração imenso, um carinho inexcedível pelos antepassados e pelos amigos. E que como eu tenta preservar a instituição mais agredida, dentre todas, neste nosso mundo “avançado” e “moderno”: a Família. 
     
           O que precipitou este encontro foi o fato deles morarem, há muitos e muitos anos, ali, bem pertinho de onde eu morei, no bairro Nonoai, que no “meu” tempo era, também, Teresópolis. 
     
           Sem o saberem, proporcionaram-me a oportunidade de viver uma autêntica terapia de regressão ao passado, que me fez um bem incalculável. 
     
           Nosso conhecimento foi possível graças à internet, através de meus blogues, depois de correspondência que recebi. 
     
           Foi com o Seu Nuno e sua maravilhosa prole que a saudade mexeu fundo comigo. Receberam-me em sua casa com uma fidalguia inigualável. Deles ouvi relatos fabulosos. Aprendi coisas que nem nas bibliotecas, arquivos públicos ou sites de pesquisa eu conseguia encontrar.  
     
           Juntos remexemos os baús de nossas recordações e reavivamos episódios e paisagens que ainda permaneciam, embora amarelecidos, nos arquivos de nossas memórias. E daí a voltar à casa da infância longínqua, em busca de alguma raiz que lá tivesse ficado, foi questão de poucos dias. 
     
           E é a eles que eu dedico este “Meu Tema Preferido” de hoje, repleto de emoção e sentimento. Pelo que deles recebi, jamais, certamente, poderei pagar. 
     
           De tudo, fica em mim uma certeza: a de que eu não estou só na minha crença de que preservar a nossa história e render gratidão e respeito aos antepassados é mais do que dever – é questão de sobrevivência. 
     
           Muito obrigado, seu Nuno. Muito obrigado, Márcia e José. Que bom – que bom, mesmo – que vocês existem! 
     
    Vando  
     
    * * *  
     
    (1) Reposteiro – era o nome que se dava às cortinas pesadas, muito comuns nas casas antigas.
     
    (2) Brocoió – Nome, ou marca, de umas balas bastante saborosas, apesar de um pouco duras (alguns chamavam, se lembro bem, de “quebra-queixo”) que traziam no invólucro figuras de um caipira (o “Brocoió”), que colecionadas formavam uma história, narrando as aventuras do personagem.
     
    (3) "no" Schapke –Trata-se da Livraria Schapke. Era lá que meu pai, o “seu” Romeu, trabalhou como encadernador, até se aposentar. Quando se falava sobre a empresa, dizia-se "no". Ficava na Av. Cristóvão Colombo 1907, local onde hoje está em construção o "Floresta Shopping Center". 
      
    (4) Estou quase certo de que o padre da Igreja N. S. da Saúde, que menciono, é o Padre Afonso. Não lembro todo o nome, mas creio que era Afonso Witt, ou algo assim. De início ocorreu-me que seria o "Padre Pedro" (depois, Monsenhor André Pedro Frank), mas este, logo constatei, esteve na Paróquia bastante tempo antes dessa época. Gostaria que alguém que o(s) conheceu e pudesse dar-me maiores subsídios, entrasse em contato. Ficarei muito grato.
     
    Epígrafe: Quem disse que eu mudei? – Mário Quintana, em “Preparativos de Viagem”, página 15, Editora Globo, RJ, 1989, 2ª Edição
     
    Ilustração: Quadro “Escada de Casa Antiga” – Pintura em acrílico de “Selvagem”
    Do site POEMAR
     

    Telurismo

     

    - SEMANA FARROUPILHA DE 2009 - 

    CHIMARRÃO E POESIA

    Jayme Caetano Braun

    Sempre grudado no posto
    O payador missioneiro
    Sente o calor do braseiro
    Batendo forte no rosto
    E vai mastigando o gosto
    Da velha infusão amarga,
    Sentindo o peso da carga
    Que algum ancestral comanda
    Enquanto o mundo se agranda
    E o coração se me alarga 

    Sempre a mesma liturgia
    Do chimarrão do meu povo,
    Há sempre um algo de novo
    No clarear de um outro dia,
    Parece que a geografia
    Se transforma - de hora em hora
    E o payador se apavora
    Diante um mundo convulso
    Sentindo o bárbaro impulso
    De se mandar campo fora!  

    Muito antes da caverna
    Eu penso - enquanto improviso,
    Nos campos do paraíso
    O patrão que nos governa,
    Na sua sapiência eterna
    E eterna sabedoria,
    Deu o canto e a melodia 

    Para os pássaros e os ventos
    Pra que fossem complementos
    Do que chamamos poesia! 

    Por conseguinte - o Adão,
    Já nasceu poeta inspirado,
    Mesmo um tanto abarbarado
    Por falta de erudição
    E compôs um poema pagão
    À sua rude maneira,
    Para a sua companheira,
    A mulher - poema beleza,
    Inspirado - com certeza
    Numa folha de parreira! 

    Os Menestréis - os Aedos,
    Os Bardos - Os Rapsodos,
    Poetas grandes - eles todos,
    Manejando a voz e os dedos
    Vão desvendando os segredos
    Nas suas rudes andanças,
    As violas em vez de lanças,
    Harpas - flautas - bandolins,
    Semeando pelos confins
    As décimas e as romanzas! 

    Tanto os poetas orientais
    Como os poetas do ocidente,
    Cada qual uma vertente,
    Todos eles mananciais,
    Nos quatro pontos cardeais
    Esparramando canções
    E - no rastro das legiões
    Do lusitano prefácio,
    A última flor do lácio
    Nos deu Luiz Vaz de Camões! 

    No Brasil continental
    Chegaram as caravelas
    E vieram junto com elas
    As poesias - com Cabral,
    Para um marco imemorial
    Nestas florestas bravias
    Perpetuando melodias
    De imorredouro destaque:
    Castro Alves e Bilac
    E Antônio Gonçalves Dias! 

    Neste garrão de hemisfério
    Quando a pátria amanhecia
    Surgiu também a poesia
    No costado do gaudério
    Na pia do batistério
    Das restingas e das flores
    E a horda dos campeadores
    Bárbara e analfabeta
    Pariu o primeiro poeta
    No canto dos payadores! 

    E foi ele - esse vaqueano
    Do cenário primitivo,
    Autor do poema nativo
    Misto de pêlo e tutano,
    De pampeiro - de minuano,
    Repontando sonhos grandes; 

    Hidalgo - Ramiro - Hernández
    El Viejo Pancho - Ascassubi
    Mamando no mesmo ubre
    Desde o Guaíba aos Andes! 

    Há uma grande variedade
    De poetas no meu país,
    Do mais variado matiz
    Cheios de brasilidade,
    De um Carlos Drummond de Andrade
    Ao mais culto e ao mais fino,
    Mas eu prefiro o Balbino,
    Juca Ruivo e Aureliano,
    Trançando de mano a mano
    Com lonca de boi brasino 

    João Vargas - e o Vargas Neto
    E o Amaro Juvenal,
    Cada qual um manancial
    Que ilustram qualquer dialeto,
    Manuseando o alfabeto
    No seu feitio mais austero,
    Os discípulos de Homero
    De alma grande e verso leve,
    Desde sempre usando um "breve"
    De ferrão de quero-quero! 

    Imagino enquanto escuto
    Esse bárbaro lamento
    Que a poesia é o som do vento
    Que nunca pára um minuto,
    Picumã vestiu de luto
    A quincha do Santafé,
    Mas nós sabemos porque é
    Que o vento xucro não pára:
    São suspiros da Jussara
    Chamando o índio Sepé! 

    * * *

    Do Livro "Payadas e Cantares", Jayme Caetano Braun – Ed. Martins Livreiro Editor, Porto Alegre

    * * *

    Créditos:

    TEXTO - Transcrevi do site PÁGINA DO GAÚCHO

    FOTO - Do site  SEMANA FARROUPILHA