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REMINISCÊNCIAS
Semana passada bateu a saudade. Quem é que já não sentiu isto? Pois, comigo, também aconteceu.
Vocês sabem que estou empenhado em reconstituir a “árvore genealógica” da Família. Assim, andei procurando nas minhas velharias algum documento, ou foto, que me ajudasse a redigir biografias ou ilustrar um ou outro perfil.
Não encontrei nada relevante. Em compensação, ao abrir uma caixa de papelão amarelada, encontrei algumas fotografias. Olhando para elas, muitas lembranças afloraram à minha memória e, com elas, a danada da saudade a que me referi.
São fotos de um tempo gostoso, quando muitos sonhos alimentavam os ideais daqueles que recém estavam migrando da adolescência para a "vida adulta” – como era o meu caso. Foram tiradas no final dos anos 1950, na Vila do IAPI. Mais precisamente, lá por 1958, no máximo. (Vejam que não é tão "precisamente" assim. Mas isto não vem ao caso).
A foto acima não estava na caixa, mas em meus arquivos em CD. Faz uns dois anos, pouco mais, talvez, que eu a escaneei do livro “Vila do IAPI”, pertencente à série “Memória dos Bairros”, editado pela Secretaria Municipal da Cultura em 1991. Ela mostra a antiga “Capela de Nossa Senhora de Fátima”, na Viela São Braz, à frente da qual alunos da Escola “Edmundo Gardolinski” se entretêm, num dia impreciso, no intervalo de alguma aula – o tão esperado “recreio” de cada dia. Logo vocês vão compreender por que ela está aqui.
Diante das fotos que encontrei e recordando aqueles tempos, um pouco deles nelas eternizado, revi velhos amigos, cujo destino e paradeiro não faço a menor idéia. A última vez que encontrei um deles faz mais de dezesseis anos.
Mas... vamos à história.
Éramos da Juventude da “Ação Católica” e nosso grupo pertencia à Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, quando as Missas ainda eram rezadas em Latim (Dominus Vobiscum... et cum spirto tuo. Ite, Missa est!).
Comigo participavam (ou eu participava com eles?) o Neri, jornalista do Jornal do Dia (na foto acima, comigo, em frente à então “Capela”), o Albano e o Waldemar (formados bacharéis em Direito logo depois) e o “grande” Atalibio (a quem chamávamos “Ataliba”), também do Jornal do Dia e telegrafista da “Western Telegraph Company”, que ficava ali na Siqueira Campos. Eram os nossos “veteranos”, entre outros.
Os mais “novos”, entre os quais eu me encontrava, eram o “alemão” Schneider (boa praça!), o Ércio (grande amigo), o Beto e o Geraldo (primos, sendo o Geraldo, irmão do Waldemar), o Luís Alberto, o Caetano, o Custódio, o Hugo Thiesen e o Trindade (o “bruxo” da turma, “ateu” e “infiel” pois além de “contestador” de alguns dogmas, fazia hipnotismo e outras “heresias” dignas das fogueiras da Santa Inquisição). Alguns nomes não consigo lembrar, mas os personagens principais, que constituiam o "grupo dos inseparáveis" são os que mencionei.
Estivemos juntos desde 1954 ou 1955, até 1959, quando fui servir, época em que a maior parte de nós se dispersou... para sempre. Além das atividades da Ação Católica, assistíamos, “religiosamente”, as Missas, atuávamos como “coroinhas” (... per sécula seculorum), promovíamos festivais e dávamos a nossa força durante as “quermesses”, quando ajudávamos na montagem das barracas, estendíamos bandeirinhas, trabalhávamos junto aos “Festeiros”, divulgávamos a festa e distribuíamos convites, para mencionar apenas o que me lembro.
Nossas palestras, encontros, círculos de estudos, e demais atividades tinham a coordenação e orientação dos Padres Palotinos Alfredo Venturini (Pároco e nosso “diretor espiritual”), Eugênio Borin (um grande ícone, para mim, pelo menos) e Adair que, nas horas de folga, freqüentava com a gente o “Bar 44”, ali no início da Av. Brasiliano de Moraes, e “comungava” conosco o chope mais sensacional da Zona Norte acompanhado do “sanduíche aberto” mais glorioso que alguém pudesse imaginar. Era coisa divina, de se saborear de joelhos, em profundo recolhimento, entoando cantos gregorianos. O “Bar 44” parece-me que ainda existe, no mesmo lugar. Mas, com certeza, há muitos anos não é mais “o mesmo”, pois aquela “aura celestial” de outrora certamente também se perdeu no passado.
Mas praticávamos esporte, também. Tínhamos equipes de ping-pong, vôlei e de futebol. Com esta disputávamos até torneios de várzea competindo com equipes consagradas da Capital. Nessas ocasiões, ao entrarmos em campo, quando algum torcedor perguntava “que time é este?”, sempre havia alguém para responder: “É aquele dos carolas. Dos padres, sabe?” Às vezes eu jogava "na linha", mas na realidade eu era o goleiro – meio medíocre, diziam os meus detratores, mas com bastante sorte. Lembro que até pênalti eu segurei. O meu “reserva” - "menos bom" que eu - era o Hugo Thiesen, falecido há muitos anos. Era “frangueiro” como só ele mas, relevando-se este aspecto, era um sujeito maravilhoso. Na foto, o goleiro, desse jogo, é o Beto. Esse era bom!
Uma particularidade que não pode ser omitida: o Waldemar e o Geraldo (Geraldo, na foto acima, com a bola) eram sobrinhos da minha primeira professora, Donatila Mattos Bach, à qual costumávamos chamar de “Dona” Tila. (Ela não era exatamente a “primeira”, pois bem antes estudei no antigo “Colégio São Luís”, na época uma pequena escolinha das freiras, em Teresópolis, ao lado da Igreja N. S. da Saúde, onde me alfabetizei. Mas, para mim, ela era – e será sempre – a primeira).
Com ela estudei as quatro primeiras séries. Foi com “dona” Tila - e através de sua sapiência solene - que eu comecei a gostar da leitura e de fazer “redação”. Depois, perdemos contato. No fim do ginásio, em 1954, mais ou menos, quando conheci o Waldemar e o Geraldo, é que fiquei sabendo que eram sobrinhos dela. Só então voltei a ter notícias da “minha” professora: “Dona” Tila já havia falecido.
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Voltando à Ação Católica, éramos dois grupos, o Masculino e o Feminino, este constituído em maioria por “Filhas de Maria”. Em muitas atividades participávamos juntos. Não só na parte religiosa (nesse tempo as moças iam à Missa com véus brancos na cabeça, e jamais esqueciam o Terço e o Missal, um livrinho geralmente de capa também branca) como na parte “profana": os festivais e quermesses, por exemplo. Entre “elas” havia aquelas inesquecíveis, por motivos diversos, todos – ou a maior parte, digamos - plenamente positivos e perfeitamente “confessáveis”, acreditem, já que naqueles tempos ditosos tudo era muito diferente dos dias atuais. Não, não riam! É verdade. Os valores eram outros. As garotas, principalmente no nosso meio, eram veneradas à exaustão e tratadas com respeito fraterno. Nomes? Alguns, que ainda lembro: a Gessi, a Erminda, a Rosemari, a Lívia (ou Nívia, não tenho certeza), a Dilma (não é “aquela" que está na mídia), a "gringuinha" Isabela, a Nanci...
Os festivais eram bastante concorridos e muito prestigiados. Aconteciam no palco da Escola Edmundo Gardolinski, um prédio de madeira anexo à Capela de Nossa Senhora de Fátima. Havia recitais, canto, teatro, aos quais freqüentemente compareciam convidados e os “talentos” da comunidade. Entre esses talentos houve uma garota que estudava no Grupo Escolar Gonçalves Dias e por essa época, ainda uma menininha com dez ou doze anos, cantava no “Clube do Guri”, um programa dominical da Rádio Farroupilha. Esse programa era patrocinado pelos “Chocolates Guri”, da Neugebauer e dirigido por Ari Rego. Ela se chamava Elis. Elis Regina Carvalho Costa. Conhecem este nome? Imagino que já tenham ouvido falar dela.
Pois é isto. O passar dos anos propicia-nos esta vantagem: ter o que contar sem precisarmos ser (muito) saudosistas, escravizando-nos ao passado. É bom sentir saudade, mas ela tem que ser uma evocação suave, alegre e, tanto quanto possível, divertida. E ser contada com algum humor e até ironia, mesmo nas passagens que mais nos tocam - não importando quão profundamente. Como estas.
Alguém já disse que “recordar é viver”. Acho que é verdade. A nossa biografia não deixa de ser o resultado de uma sucessão de fatos e episódios que marcaram a nós e àqueles com os quais os compartilhamos. Deixemos que ela seja ornamentada pelas ternas lembranças que vez por outra emergem. Afinal, nunca estivemos sós e os que andaram conosco trilhando os mesmos caminhos continuam ligados à nossa história. Irreversivelmente.
Vando
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