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O PRIMEIRO NATAL
Naquela noite tudo estava diferente. Apesar do frio que fazia, a natureza mostrava-se jubilosa e impregnada de perfumes como se a primavera estivesse a pleno. O céu, de um azul magnífico, pontilhava-se de estrelas, muitas das quais cintilavam pela primeira vez naquele quadrante da abóbada celeste.
Os pássaros não se recolheram como de costume, permanecendo agitados, cantantes e alegres nas ramadas e nos galhos que, embora inverno, acabavam de florir. Nos arroios próximos, a água de surpreendente limpidez insinuava-se entre as pedras com marulhar melodioso, enquanto fazia resplandecer milhões de pequeninos reflexos tremeluzentes, provenientes da luz que descia do firmamento. Vinda de muito longe, podia-se ouvir, como num murmúrio de acalanto, a música suave e terna que aos poucos ia envolvendo todos os seres da Criação. Era uma noite de expectativa, na qual todos os sentidos permaneciam atentos. Por isto o mundo pressentia que ela seria inesquecível.
O casal solitário, abrigado junto ao estábulo de humilde cabana onde se refugiara, aconchegava-se, resguardando-se do frio. Ele, não mais tão jovem, de porte solene e patriarcal que inspirava respeito e confiança, agasalhava-a junto ao peito numa atitude de proteção carinhosa. Ela, quase menina, de uma beleza plena de candidez e ternura, deixava transparecer certa apreensão. Logo seria mãe.
Ela sentia que o grande momento se aproximava. Preocupava-se, pois apesar da fé inabalável que era seu sustento, perscrutava o porvir do qual, junto ao filho que guardava em seu ventre, seria protagonista.
Mesmo assim, tudo estava tranqüilo. As forças deletérias do mundo até então em trevas, tinham se retraído, cientes de que, a partir daquela noite, não mais encontrariam o terreno fértil que lhes servira de seara. Por isto havia paz. Uma paz que se estendia aos recantos mais longínquos do universo.
A noite ia alta. Então, numa fração infinitesimal de tempo, intensa luminosidade expandiu-se desde a terra até os extremos celestes, partindo dali, daquele rústico presépio. A palha do que restara de alimento para os animais, agora recoberta cuidadosamente por lençol de imaculada brancura, acabara de receber um Rei.
E nesse instante, do mais alto de todos os céus, legiões angelicais entoaram cânticos de louvor à chegada do Menino anunciado por todos os profetas. Glórias!
Ele nasceu! O Menino desceu à terra dos homens, vindo em missão de paz. Veio contar-lhes que os amava. Perdidamente. Apaixonadamente! Que queria ser seu irmão. Que trazia-lhes mensagens do Pai que lhe enviou. Que queria revelar-lhes segredos que eles não sabiam e ser para eles o caminho, a verdade e a vida.
O Menino nasceu e habitou entre nós. E aquela noite foi o primeiro Natal.
* * *
Que todos os sentimentos sublimes que o Natal nos inspira, sejam os sinalizadores de cada um dos nossos atos no decorrer do novo ano que logo vai surgir.
A todos nós, os votos de um Feliz Natal e de um novo ano abençoado.
Vando
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