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SOBRE JORNAIS E POESIA
Exemplares do Caderno de Sábado, do Correio do Povo na década de 70.
Foto de Luiz Moraes - Fonte: saite “TIO SAM”
Desde os meus longínquos anos verdes, que ainda perduravam lá pelo final dos anos 50 do século passado, tive, entre as minhas paixões, duas, em especial. Uma delas, a poesia. Quando menino, como eu queria ser poeta! ... Cheguei a rabiscar algumas rimas, mas tudo sem sentido, mediocre e tão ruinzinho que, com o passar do tempo, desisti, preferindo enveredar por outros caminhos. Mas nunca deixei de lê-las e de embevecer-me com a sonoridade das palavras, com o ritmo dos versos, com a sensibilidade e a ternura inseridas em cada estrofe. Apaixonado por Cruz e Souza, Cecília Meireles e Mário Quintana, guardo com carinho inúmeros livros desses anjos que sempre me emocionam, cada um com o seu estilo.
- Euterpe, a Musa da Poesia -
Detalhe de “Apolo e as Musas” de Pompeo Batoni (1708-1787)
A minha outra grande paixão foi e é o jornal. Ou os jornais. Nasci, aprendi a soletrar e cresci entre jornais. Dos bisos, dos avós e do Pai – o “seu” Romeu – herdei o gosto por eles. O primeiro foi o “Correio do Povo” – o antigo, bem antigo, grandão, com uma imensidade de cadernos entre os quais os de literatura que eu devorava com avidez. Todos os patriarcas de nossa família o assinaram, desde o histórico "róseo". O “velho” Correio do Povo era lindo! A edição de domingo era pura beleza. Trazia tudo. E quando digo “tudo”, era tudo, mesmo: do noticiário internacional e local aos anúncios classificados; da moda ao comportamento da sociedade; da política às últimas descobertas científicas; dos contos e romances publicados em capítulos à poesia de autores consagrados ou que ainda não eram conhecidos; do esporte – o “foot-ball” e o “turf”, basicamente, pois os outros não eram, ainda, tão difundidos como hoje, às artes, à cultura, ao cinema!... Os filmes lançados na semana, a serem exibidos no Baltimore, no Orfeu, no Imperial, no Guarani, e nas demais salas, que somavam cerca de quarenta, mereciam anúncios com grande formato, e freqüentemente preenchiam mais de duas páginas. Eram destaques as peças e os concertos no Theatro São Pedro, os bailes de debutantes e da Reitoria, as festas do Clube do Commércio, as atividades no Cinema Castelo... E havia os “reclames” (*), que variavam dos novos discos da Casa Victor à "Glostora" e ao "Phimatosan", do sabonete "Lever" ao "Rhum Creosotado", ao "Gumex" e ao “Óleo de Fígado de Bacalhau”, do "Saponáceo Rosário" (que tinha a fábrica na Avenida Nonoai, próxima à SPAAN) aos chapéus "Prada", às novidades das Casas Carvalho e às jóias da Massom – “a casa dos bons relógios desde 1871”. Mas não era só o “Correio” que eu curtia. Tínhamos o “Jornal do Dia”, responsável por um dos meus primeiros “empregos”. Havia o grande “Diário de Notícias”, a “Folha da Tarde” – que saía logo depois do meio-dia com as notícias do que havia acontecido de manhã e sua "irmã", a “Folha Esportiva”, que trazia todos os acontecimentos do futebol. Mais tarde, veio a “Última Hora”, que circulou até meados dos anos 60, quando deu lugar à atual “Zero Hora”.
Depois, aos poucos, surgiram os pequenos jornais. Os jornais de clubes, de sociedades, de empresas, e os jornais de bairros. Estes, normalmente têm edição limitada, dirigida e em sua maioria são distribuídos gratuitamente. Tornei-me viciado em surrupiar estas pequeninas preciosidades onde quer que elas aparecessem ou estivessem expostas, hábito que cultivo até hoje. Leio-os da primeira linha da primeira página à última linha da última página. Pois foi num desses pequenos jornais que encontrei uma das mais belas poesias dentre as muitas que tenho lido ultimamente. Em edição recente – nº 51, ano 5, Dezembro de 2007 – o “Jornal do Clube do Aposentado”, da PanVel (**) publica o poema que tem por título “MOIRAS” (***) de autoria da Advogada e Poetisa Ana Mariano, que agora, depois de ter lido e relido uma porção de vezes, transcrevo para que vocês também tenham a oportunidade de apreciá-lo. Deliciem-se:
As Deusas do Destino: Cloto, Láquesis e Átropos.
Fragmento de um relevo romano de Schloss Tegel, Berlin.
MOIRAS
Ana Mariano
Pelo tempo espesso nos movemos
metáforas fluindo nos tapetes.
Difícil dizer a cor de cada rosto,
multidão inefável de ruídos,
água teimosa e vento
alterando a correnteza,
abanar de leque, sapatilhas,
face materna a surgir no espelho,
(o mesmo pudor, nos mesmos cabelos)
mãos pontilhadas de castanho
respingando gestos corriqueiros.
Bem no fundo, dentro, onde
não alcança o tempo,
na lentidão inversa de seus dias,
uma parte de nós sempre observa.
Dividem-se as sombras recortadas
em outras, tantas! que se afirmam
e, em se afirmando, negam
e negando cifram o que antes
julgamos claro e decifrado.
São muitas as partes, as moiras destinadas.
Tramam a mesma lã, sobrepostas telas,
tecem num só tempo tempos diferentes.
Se uma compõe, pouco a pouco, o velho,
outra, célere, regride,
faz do passado não passar o tempo.
Entre a luz e a veneziana,
ouvindo ressoar todas as vozes,
árvore voltando a ser cadeira,
gaiola e pássaro, véus
tecidos com cuidado,
verso e anverso iguais e diferentes,
pelo tempo espesso nos movemos
nunca sendo quem somos realmente.
* * *
Que tal? Gostaram? Sei que sim. Prometo que, sem me preocupar muito com a forma como as Moiras fiam as nossas vidas, sempre que encontrar novas pérolas como esta, compartilharei com vocês. Euterpe, a Musa da Poesia, com certeza vai me indicar os lugares onde elas se encontram.
No decurso de minha redação, quase me extraviei devido à quantidade de assuntos que foram surgindo enquanto eu escrevia, e ao meu anseio de não perder nenhum deles. Entretanto, minha proposta inicial (falar sobre jornais e poesia, duas coisas que eu adoro) parece que foi cumprida e terminei saindo ileso da empreitada: não perdi o fio (não confundir com o que é tecido pelas Moiras) da meada. Consegui recuperá-lo em tempo útil e a partir deste momento transfiro a vocês a responsabilidade de julgar se valeu a pena.
Concluindo, ficarei feliz se vocês aceitarem o poema de Ana Mariano como um presente de fim de ano que lhes faço. De graça o recebi e de graça lhes ofereço. Nada, mais bonito, eu poderia encontrar, agora, para ofertar-lhes.
E, para ti, Ana, o meu agradecimento por permitir que eu transcrevesse estes versos lindos. Nunca poderei te retribuir. Recebe o abraço, o carinho fraterno e os votos de um Feliz Ano de 2008, em meu nome e de toda a Família “NÓS AQUI”.
Vando
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Notas minhas:
(*) – Na época era como se chamavam os anúncios, a propaganda: “reclames”. Na “Casa Victor” (rua dos Andradas 1212) encontravam-se todos os clássicos recém editados na América e na Europa: óperas inteiras, árias e interpretações majestosas de Enrico Caruso. “Glostora” era um fixador de cabelos; “Phimatosan” era uma marca famosa de remédio fortificante; a marca “Lever” identificava o sabonte que se vendia muito e que esteve no mercado até pouco tempo. “Rhum Creosotado” era famosíssimo. Era a marca de um remédio para tosse, cujo "reclame" também circulava em todos os bondes e trazia uns versos que todo mundo já havia decorado; dizia assim: “Veja ilustre passageiro / o belo tipo, faceiro / que o senhor tem a seu lado. / Pois, no entanto, acredite: / quase morreu de bronquite. / Salvou-o... o Rhum Creosotado”. “Gumex” era outro fixador de cabelo, vendido num envelope, em forma de pó, em que se adicionava água, formando uma “meleca” parecida com o atual “gel”. O "Óleo de Fígado de Bacalhau" era um fortificante, indicado principalmente para as pessoas mais jovens, se não me engano. Era um líquido branco, viscoso, com gosto abjeto, - um horror! - que nossos pais nos enfiavam goela abaixo sem a menor piedade. Já o “Saponáceo Rosário” era um sabão em pó, que veio substituir o velho hábito de nossas avós de “arear”, ou “ariar”, como se dizia, as panelas... com areia! Alguém lembra disto? Os chapéus "Prada" eram o diferencial de todos os cavalheiros que primavam pela elegância. Eram belíssimos, realmente. O “Seu” Romeu não saía nem para o trabalho sem ostentar, com refinado bom gosto, o seu “Prada”, sempre novinho. E, por aí, vai. O tema é vasto e já estou pensando em desenvolvê-lo numa próxima matéria.
(**) – A marca “PanVel” originou-se da união de duas grandes redes de farmácias que existiram até os anos 70, ou oitenta, mais ou menos: as “Farmácias Panitz” e as “Farmácias Velgos”. Com as sílabas iniciais das duas, formou-se o nome atual, não deixando que os originais se perdessem na memória.
(***) Moiras eram “As Deusas do Destino”. Segundo a Mitologia Grega eram três, as Moiras, todas filhas de Zeus e de Têmis. Os romanos as chamavam de Parcas. Sua representação era a de mulheres que teciam o destino das pessoas, em forma de fio. Chamavam-se Cloto, Láquesis e Átropos.
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