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    Crônica do fim do mês

     

    O QUE FIZERAM DO MEU JEITO DE FALAR? 

           Hoje me surpreendi ao constatar que neste mês ainda não publiquei nada no nosso site. Outubro termina amanhã, sábado e quase passava “em branco” pela minha já tradicional falta de tempo. Alguns opositores já dizem que tempo não é o que falta; é preciso saber administrar melhor o de que disponho. Na conjuntura atual fico na dúvida, mas vou fazer uma auditoria e ver se descubro onde está o problema. Mas enquanto não faço isto, vamos em frente.

     

           Por falar em "em branco", (vide o parágrafo anterior) lembrei-me, de súbito (como Mário Quintana gostava de dizer) que preciso ter mais cuidado com o “politicamente correto”, tão enraizado nas mentes contemporâneas. A expressão acima bem pode causar constrangimento, e até ofender a algum esquimó que eventualmente esteja, neste exato momento, sentado confortavelmente no interior de sua cabana ou de seu iglu, protegido com peles de focas e de renas, com o seu note-book sobre os joelhos, me lendo, lá nos confins da Lapônia ou circunvizinhanças árticas). Vou ler com mais freqüência o meu “livro de visitas” para ver se não colocaram nele nenhum protesto.

     

           Aliás, também tenho que estar atento a outros “modos de dizer as coisas”, para não correr riscos. Ouço seguidamente severas críticas feitas aos incautos – ou nem tanto – que se utilizam de expressões como “a coisa está preta”, ou “isto é uma judiaria” e inúmeras outras que, em tempos recentes, vêm sendo paulatinamente atacadas e banidas com o objetivo de não melindrar certas “minorias”. Portanto, é imprescindível redobrar os cuidados com o que digo, inclusive quanto à interpretação que possa ser dada a “certas” minorias. O peixe morre pela boca.

     

           A esse respeito, é bem característico o problema que venho enfrentando com meu vizinho que mora no apartamento bem em frente ao meu. Na verdade, moramos aqui há mais de vinte e cinco anos, pois compramos nossos “imóveis” (ih!... tomara que nenhum “deficiente físico” nos acesse!) na mesma época. Mas, como eu dizia, meu vizinho é Médico (assim, com inicial maiúscula, pois é dos bons). Somos, naturalmente, bons amigos, mas às vezes fico indeciso quanto à forma de tratamento que devo lhe dispensar nos momentos de menos informalida- de. Digo isto porque há tempos, em conversa com uma amiga da família, que é enfermeira (assim mesmo, com letrinhas minúsculas, todas; com o devido respeito) esta se referia às atividades que exerce, incluindo-as entre as demais da área médica, enfatizando que todos são modernamente (re)conhecidos como “profissionais de saúde” e que este é o "modo correto" de chamá-los.  

     

           Mas as coisas não param por aí. O que dizer, por exemplo, dos “trabalhadores em educação”? Acho que não vou dizer muito, pois se me atrevesse a tal, a crônica ia ficar enorme e ia ter que continuar "no próximo capí- tulo". De qualquer modo, de repente senti uma saudade enorme da “minha” Professora (esta, sim com letras maiúsculas, caixa-alta, enormes, garrafais) dos tempos de infância. E depois, dos Professores que nos apoiaram, a mim e à Nina, para fundar o CPM do Apeles, nos idos dos anos 1970/80... do século passado! E dos incontáveis Professores que passaram pelas nossas vidas e pelas vidas de nossos filhos, pelos quais todos guardávamos venerável respeito, pois, mais do que Professores, eram justamente considerados Mestres.  

     

           Antes de continuar, preciso confidenciar a vocês uma coisa: antigamente eu era do sexo masculino. (Por favor, vamos com calma, gente!... Por que os cochichos? Cuidado com a interpretação que vocês vão dar, pois não renunciei nem renuncio. O que estão pensando?). Do sexo masculino, sim. Como meu pai, o “seu” Romeu, e como os “vôs” e “bisos” e "trisos" João, Ramiro, Odorico... Minha mãe, a “dona Evinha”, era do sexo feminino. E como! Vocês, que não a conheceram, nem fazem idéia. Do mesmo jeito que sua mãe – a minha vó e madrinha Ramira e demais avós, bisavós, tataravós, e minhas irmãs, tias... Então, chegamos onde eu queria: hoje, não temos mais sexo. De acordo com os costumes vigentes, pertencemos a “gêneros” – seja lá o que isto signifique. Chocante, não parece?

     

           E, por aí, vai. Os adeptos do “politicamente correto” tentam transformar radicalmente o nosso jeito de expressar. Colocam na nossa boca palavras que jamais, em tempo algum, pronunciamos. Mudam conceitos em nome da quebra dos preconceitos. Não nos dão folga em impor-nos cuidados redobrados e permanentes que nos obrigam a estar sempre monitorando o que vamos dizer ou escrever. Além de arrogantes, são de tal forma chatos, irritantes, e aborrecentes, que nos deixam depressivos e em constante estado de alerta.  

     

           Mas não é só no que se refere ao que eu disse acima, que a turma aficcionada pelo “politicamente correto” bagunçou as nossas cabeças. Eles se metem em tudo. Tudo sabem e sobre tudo impõem suas decisões. Assim, a geografia também foi objeto da sua sanha desmedida e insaciável. Me acompanhem: aprendi, desde pequenininho,  que ilha era “uma porção de terra cercada de água por todos os lados”. Diferenciava-se bastante de lago, por ser este “uma porção de água cercada de terra por todos os lados”. Assim as águas de um lago eram estanques; não corriam para nenhum lugar. Óbvio. Ululantemente óbvio, como me observaria Nelson Rodrigues se ainda andasse por aqui.   

     

           Nessa época, quando se falava de nossa Porto Alegre, ficava claro que ela situava-se “à margem esquerda do Rio Guaíba”, ou seja, do nosso Rio Guaíba, que, sendo um rio, corria entre suas margens – uma à esquerda e outra à direita do sentido de seu curso, depois de se formar pelos seus afluentes e desembocar na foz junto à Lagoa dos Patos. Ou seja, um rio que como qualquer outro rio – pelo menos os que existem num planeta chamado Terra, do qual já ouvi falar vagamente - tem uma origem, um curso e uma foz.

     

           Pois não é que, num passe de mágica, por obra de alguma Maga Patalógika tupiniquim o Rio Guaíba se transfor- mou em “lago” Guaíba? Assim, da noite para o dia. Num "plim!" Sempre detestei isto, desde que foi inventado e imposto como dogma que, se posto em dúvida, conduzirá o herege à fogueira. E não tenho dúvida em creditar tal aberração a alguém afinado com o “politicamente correto”. Afinal, eles não poupam nada no seu caminho. Tentam – e na maior parte das vezes, conseguem – destruir fatos, desconstruir realidades incontestáveis e devastar tudo, por onde passam. São a versão moderna e bem mais elaborada do histórico Átila, Rei dos Hunos, “o Flagelo de Deus”. Será que algum dia nos livraremos deles? Acho difícil, pois a cada dia encontram novos seguidores e terminam proliferando mais do que baratas em esgoto.

     

           Bem, não é tudo, ainda, o que me inspirou esta manhã de 30 de outubro. Mas acho que é um bom tema pra encerrar o mês, de forma condizente com a véspera do “Halloween” já que, pelo que tenho visto, “as bruxas estão soltas”. E as "bruxas" a quem me refiro, vocês, com certeza, já adivinharam quem são. Não adianta ir à sua caça. De qualquer modo, tentar exorcizá-las não custa nada, mesmo convicto de que o sucesso é improvável: "Vade retro!"

     

           E quanto ao nosso – ou pelo menos ao “meu” Rio Guaíba – vou deixar para falar nele em uma próxima inserção. Espero que tenham paciência para me aguardar.  

     

    Vando

     

    * * * 

     

    Ilustração: Do site REINO DA FANTASIA